A arquitetura sintetiza as práticas de uma sociedade em um determinado lugar: o Enxaimel
Como definir a arquitetura alemã, construída na Alemanha e por alemães e descendentes, porém, fora da Alemanha e, no caso, em Pomerode?
Uma amostra da evolução da técnica construtiva enxaimel, em tempos distintos, sem grandes mudanças na volumetria, mas com contribuição da tecnologia vigente. (Fotos cedidas por Angelina Wittmann)
Toda a arquitetura de origem germânica tem que ser enxaimel? Não. Esta técnica surgiu como embrião, na Europa neolítica, em locais de densas florestas e poucos abrigos naturais. Foi desenvolvida embrionariamente, por tribos seminômades, que sistematicamente foram deixando a prática de coletar e caçar para pastorear e plantar, originando a agricultura e um processo evolutivo tecnológico imensurável.
O enxaimel surgiu em vários locais do mundo. No continente europeu – região da Europa Central – há aproximadamente 5 mil anos a.C. e evoluiu até hoje. Não foi adotado plenamente na Europa e na Alemanha. O embrião do enxaimel nunca foi bem visto no território dominado pelos romanos, principalmente no Sul da Alemanha. Interferiram nesse modo de construir, fazendo surgir a técnica mista, ou seja, autoportante e enxaimel.
Se no território atual da Alemanha há tantas maneiras de construir enxaimel, o que dizer quando esta ou outras técnicas na forma alemã de construir foram levadas pelos imigrantes mundo afora, em contato com novas tecnologias, diferentes sociedades, geografias e culturas?
Nem sempre uma cidade alemã ou fundada por alemães fora do país originário usará enxaimel. Como outras características culturais, sociais e artísticas de uma sociedade, a maneira de construir depende da própria região ou da região-origem do imigrante alemão e do lugar em que se fixou. Exemplo: em São Bento do Sul, de nível cultural e práticas da cultura alemã originais, não se constrói enxaimel. Não significa que não apresente influência da maneira de construir dos alemães. Seus pioneiros adotaram em sua arquitetura a técnica autoportante usual na região alemã de origem – a Baviera, ex-território do Império Romano por séculos. Os romanos nunca aprovaram a técnica em madeira estrutural adotada pelos germânicos. Enquanto estes ainda construíam suas casas com paus de madeira enterrados no chão, os romanos construíam edifícios monumentais com influência grega, em pedra e tijolos. Ao norte da Alemanha, origem de muitos imigrantes que fundaram cidades como Pomerode, não tiveram contato com a cultura romana, pois não se deixaram dominar, graças ao primeiro herói germânico, Hermann. Seus habitantes mantêm a forma de construir das primeiras tribos germânicas que usavam a madeira estrutural, embrião do enxaimel. Atualmente existem essas construções, usando o fechamento em taipa e a cobertura de colmo.
A arquitetura é uma das características do perfil cultural de um povo. É importante preservarmos a forma de construir, no âmbito histórico de cada região e das sociedades que nela viveram e vivem. Entre outras, é uma questão de saúde pública – as pessoas são felizes com o sentimento de pertencimento a uma família, a um lugar, a uma sociedade e sua história.

A forma de construir dos imigrantes alemães e também de seus descendentes são diferentes, também longe Alemanha. Wittmann, 2019. (Fotos resgatadas por Angelina Wittmann)
Referências
• AMARAL, Max Tavares d´. Contribuição à história da colonização alemã do Vale do Itajaí. São Paulo: Instituto Hans Staden, 1950.
• Florianópolis: Cultura Catarinense, 1997. 118p. Entrevista concedida a Raimundo Caruso.
• VIDOR, Vilmar. Indústria e urbanização no nordeste de Santa Catarina. Blumenau: Ed. da FURB, 1995. 248p, il.
• LAGO, Paulo Fernando. Santa Catarina: a terra, o homem e a economia. Florianópolis: Ed. da UFSC, 1968.
• WITTMANN, Angelina. De onde viemos – Arquitetura – Do Neolítico ao Românico. Publicado em: 22 de abril de 2015. Disponível em: <https://angelinawittmann.blogspot.com/2015/04/arquitetura-do-neolitico-ao-romanico.html> Acesso em: 6 de setembro de 2019 – 18:22h.
• WITTMANN, Angelina. C.R.: Fachwerk – A técnica Construtiva Enxaimel. – 1.ed. – Blumenau, SC : AmoLer, 2019. – 405 p. : il.
• WITTMANN, Angelina. Pesquisador alemão de Fachwerk – Manfred Gerner em Blumenau após 23 anos – Um pouco desta História. Publicado em: 20 de janeiro de 2019. Disponível em: <https://angelinawittmann.blogspot.com/2019/05/pesquisador-alemao-de-fachwerk-manfred.html> Acesso em: 29 de julho de 2019 – 13:59h.
• WFB FENSTER. Bauernhäuser. Disponível em: <https://www.wfb-fenster.de/referenzen/bauernhaeuser/> Acesso em: 11 de agosto de 2019.
Por Angelina Wittmann, Arquiteta pós-graduada pelo programa de Pós-Graduação do Departamento de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal de Santa Catarina – Mestrado em Urbanismo, História e Arquitetura da Cidade, também sob orientação do Professor Vilmar Vidor.