Quando o amor sustenta tudo: a jornada de Chirlei Kohls e Cecília
Cecília nasceu pequena, com 1,985 kg e 44 centímetros, mas desde os primeiros dias mostrou a força que definiria sua trajetória
Foto: Alice Ernsen
Antes mesmo da gestação, a maternidade já habitava o coração de Chirlei Kohls. Ainda jovem, ela carregava um sonho recorrente: uma menina correndo em sua direção, em uma praia, chamando por “mamãe” antes de um abraço cheio de amor. Anos depois, o sonho ganhou nome, rosto e propósito.
“Eu sempre senti que, no momento certo, Deus me daria esse presente”, relembra. A confirmação veio na gestação e a emoção foi ainda maior ao descobrir que seria, de fato, uma menina, Cecília.
Mas a história que começava com sonhos logo exigiria muita força. Durante o exame morfológico ainda na gestação, veio o primeiro diagnóstico: hérnia diafragmática, uma condição onde órgãos abdominais (estômago e intestino) migram para o tórax por uma falha no diafragma, resultando em compressão pulmonar, dificuldade respiratória grave, cianose e necessidade de cirurgia. Depois, já no nascimento prematuro, com 32 semanas e seis dias, outros desafios surgiram, incluindo uma cardiopatia congênita, que é uma malformação na estrutura ou função do coração presentes desde o nascimento.
Cecília nasceu pequena, com 1,985 kg e 44 centímetros, mas desde os primeiros dias mostrou a força que definiria sua trajetória. Aos dois dias de vida, passou por uma cirurgia delicada e de alta complexidade, que era apenas o início de uma longa caminhada.
Os meses seguintes foram vividos, em grande parte, dentro da UTI neonatal. Ao todo, foram quase oito meses de internação. Nesse período, Cecília enfrentou infecção hospitalar generalizada, pneumonia bacteriana, uma parada cardíaca de três minutos e, mais tarde, uma cirurgia cardíaca que durou cerca de oito horas.
Para Chirlei, cada boletim médico era um teste de resistência emocional. “Teve momentos em que eu senti como se tivesse perdido o chão. Era uma dor insuportável. Mas eu sempre transformava o medo em esperança”, conta.

Foto: Arquivo pessoal
E foi nessa transformação que ela encontrou sua força. Ao lado da filha, construiu um caminho sustentado por três pilares que, para ela, se tornaram essenciais: fé, ciência e amor.
“A fé, a ciência e o amor caminham juntos. Eles sustentam, curam, fortalecem e guiam. A nossa história é prova disso”, destaca.
Mesmo em meio aos momentos mais difíceis, havia espaço para o que realmente importava. Pequenos gestos, que se tornaram gigantes, o primeiro colo, aos 20 dias de vida, a primeira troca de fralda, aos 72 dias, o primeiro contato com o sol e o primeiro sorriso.
“Os momentos mais emocionantes são esses: pequenos, mas imensos. É neles que aprendemos a valorizar cada detalhe”, relembra a mãe.
Foi também na UTI que Chirlei viveu seu primeiro dia das mães. Um cenário distante do que imaginava, mas carregado de significado. “Foi doloroso, mas ao mesmo tempo o mais especial da minha vida. Eu estava com ela e isso bastava”.

Foto: Arquivo pessoal
Hoje, um ano depois, o cenário é outro. Pela primeira vez, mãe e filha celebram a data em casa, cercadas pela família, amigos e por tudo aquilo que ajudou a sustentá-las durante a caminhada.
“Poder viver esse dia das mães com a minha filha, em casa, é algo indescritível, é celebrar a vida, o amor e o milagre que ela é”.
Cecília, hoje com um ano, segue surpreendendo. Em processo de recuperação, já apresenta avanços importantes: começa a se alimentar pela boca, evolui na fisioterapia, ensaia movimentos como engatinhar e reduz gradualmente a dependência de ventilação mecânica.
“Cada conquista é celebrada como uma vitória, comer banana pela primeira vez, segurar um brinquedo, sustentar o corpo, sorrir e ela sorri muito. Ela é uma criança extremamente feliz. Mesmo diante de tudo o que passou, ela sorri, manda beijos, faz ‘piscadinhas’, é como se a alma dela abraçasse a minha”.
A maternidade, segundo Chirlei, a transformou por completo. “Minha filha me fez alcançar a minha melhor versão, me ensinou sobre amor, fé, resiliência e sobre viver um dia de cada vez”.
Hoje, ao olhar para trás, ela entende que cada momento teve um propósito. E segue com a mesma certeza que a guiou desde o início: a de que ainda há muito pela frente.

Foto: Arquivo pessoal
Neste Dia das Mães, Chirlei deixa um recado especial para mulheres que vivem realidades semelhantes, especialmente as chamadas mães atípicas.
“Vocês não estão sozinhas. Existe uma força muito grande que nos une. A gente se apoia, chora junto, celebra junto e se fortalece junto”.
Ela reforça a importância de manter a fé, confiar na ciência e nunca abrir mão do amor.
“Mesmo na dor, Deus está agindo. Às vezes a gente não entende, mas tudo tem um propósito, nunca desistam, se fortaleçam na fé, na ciência e no amor, isso sustenta e transforma tudo.”
Entre lágrimas, coragem e esperança, a história de Chirlei e Cecília é um retrato potente da maternidade em sua forma mais profunda: aquela que resiste, acredita e ama todos os dias.