Especiais

De Pomerode para a Amazônia: a engenheira florestal que ajudou a preservar alguns dos maiores tesouros naturais do Brasil

Hoje, aos 55 anos, a pomerodense é considerada uma especialista em planejamento e manejo de áreas naturais protegidas

12 de julho de 2026
De Pomerode para a Amazônia: a engenheira florestal que ajudou a preservar alguns dos maiores tesouros naturais do Brasil

De Pomerode para a Amazônia: a engenheira florestal que ajudou a preservar alguns dos maiores tesouros naturais do Brasil - Foto: Arquivo Pessoal

Quando criança, Anna Julia Passold passava horas observando o Morro da Turquia e a mata que cercava a casa da família, em Pomerode. Fascinada pelas plantas, pelos rios e pela natureza que fazia parte do cotidiano da cidade, ela não imaginava que aquelas paisagens seriam o primeiro capítulo de uma trajetória profissional que a levaria à Amazônia, a Fernando de Noronha, às cavernas monumentais de Minas Gerais e a dezenas de parques nacionais espalhados pelo país.

Hoje, aos 55 anos, a pomerodense é considerada uma especialista em planejamento e manejo de áreas na turais protegidas, com quase 30 anos de atuação em projetos de conservação ambiental. No Dia do Engenheiro Florestal, celebrado em 12 de julho, sua história mostra como a paixão pela natureza pode abrir caminhos muito além das fronteiras da cidade natal.

Formada em Engenharia Florestal pela Universidade Federal do Paraná (UFPR) e mestre em Conservação de Ecossistemas Florestais pela Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq/USP), Anna construiu uma carreira dedicada à proteção de áreas naturais e ao desenvolvimento de projetos que conciliam preservação ambiental e visitação pública.

Foto: Arquivo Pessoal

Foto: Arquivo Pessoal

Sua dissertação de mestrado, financiada pela Fundação Grupo Boticário, já apontava o rumo que seguiria ao longo da carreira: a busca por formas de monitorar e reduzir os impactos da presença humana em ambientes naturais.

A ligação com a natureza, porém, começou muito antes da universidade.

“Minha família sempre teve uma relação muito próxima com o meio ambiente. Cresci olhando para o Morro da Turquia, caminhando por riachos e visitando lugares naturais. Tudo isso despertou uma curiosidade enorme sobre o que existia dentro das florestas”, relembra.

A decisão pela Engenharia Florestal surgiu depois de uma palestra na FURB, em Blumenau. Na época, Anna cursava Engenharia Civil, mas bastou uma noite ouvindo profissionais da área para descobrir qual seria seu verdadeiro caminho.

“Eu saí daquela palestra e pensei: é isso que eu quero fazer.”

Foto: Arquivo Pessoal

Foto: Arquivo Pessoal

Ainda durante a graduação, buscou experiências práticas que marcariam sua formação. Participou de estágios pela Embrapa, trabalhou em pesquisas de campo e viveu uma aventura inesquecível na Costa Rica, onde passou dois meses em uma floresta tropical próxima à fronteira com o Panamá.

Mas o grande sonho era outro: a Amazônia.

Anos depois, após ser selecionada em uma concorrência nacional, passou cerca de dois anos trabalhando no Parque Nacional da Amazônia, no Pará. O projeto envolvia o planejamento de trilhas interpretativas e estratégias para aproximar visitantes da floresta sem comprometer sua conservação.

“Eu sempre sonhei em ir para a Amazônia a trabalho. Parecia algo muito distante, mas aconteceu.”

Foto: Arquivo Pessoal

Foto: Arquivo Pessoal

Ao longo da carreira, Anna participou de projetos em alguns dos principais parques nacionais brasileiros, incluindo Itatiaia, Chapada dos Veadeiros, Abrolhos, Serra da Bocaina e Amazônia. Também atuou em Fernando de Noronha, no Parque Nacional Cavernas do Peruaçu, em Minas Gerais, e em diversas unidades de conservação estaduais e particulares.

Seu trabalho já contou com parcerias junto ao Ministério do Meio Ambiente, Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), WWF, The Nature Conservancy, Fundação O Boticário, Fundação Florestal de São Paulo, Suzano, Klabin, Veracel, Arauco, Fiat Automóveis e diversas universidades e organizações ambientais.

Especialista em trilhas, interpretação ambiental e gestão da visitação pública, ela ajudou a desenvolver metodologias utilizadas para avaliar os impactos do turismo em áreas protegidas brasileiras. Também elaborou manuais técnicos e capacitou profissionais responsáveis pela gestão de unidades de conservação em diferentes regiões do país.

Uma de suas áreas de atuação mais conhecidas é o planejamento de trilhas ecológicas.

“Muita gente pensa que uma trilha é apenas abrir caminho na mata. Na verdade, existe todo um planejamento para garantir segurança, acessibilidade, conservação ambiental e uma experiência significativa para quem visita o local.”

Atualmente, mesmo tendo Pomerode como base há mais de uma década, Anna continua viajando pelo Brasil. Entre os projetos recentes estão trabalhos em Cuiabá, Bonito, Paraná, São Paulo e Santa Catarina, incluindo iniciativas voltadas à acessibilidade em ambientes naturais, como trilhas adaptadas para pessoas com deficiência visual.

Ao longo da carreira, acumulou histórias que misturam aventura e superação. Já atravessou regiões isoladas da Transamazônica, enfrentou longas expedições em áreas remotas e viveu situações em que acreditou estar sendo seguida por uma onça.

Apesar dos desafios, nunca cogitou abandonar a profissão.

“Cada vez que entro em uma floresta, sinto a mesma admiração de quando era criança. É impossível não se encantar.”

Foto: Arquivo Pessoal

Foto: Arquivo Pessoal

Depois de conhecer biomas em diferentes partes do mundo, incluindo a floresta boreal canadense, ela continua considerando a Mata Atlântica uma das maiores riquezas naturais do planeta.

“Nada se compara à diversidade da Floresta Atlântica. Quando você entra nela, parece que está caminhando em um jardim criado por Deus. É um lugar que precisa ser preservado.”

Para Anna, preservar a natureza não significa apenas proteger plantas e animais. Significa cuidar da qualidade de vida das pessoas.

“As florestas produzem água, ajudam na regulação do clima e contribuem para o nosso bem-estar físico e emocional. Muitas vezes a gente não percebe, mas a natureza faz parte da nossa saúde.”

Ao olhar para a própria trajetória, ela deixa uma mensagem aos jovens que sonham em seguir carreira na área ambiental.

“Não tenham medo de buscar aquilo que desperta paixão. Conversem com profissionais, conheçam as profissões e vivenciem experiências. Quando encontramos algo que realmente gostamos, os desafios se tornam apenas parte da caminhada.”

Notícias relacionadas