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Colônias de gatos revelam desafio silencioso em Pomerode e mobilizam rede de solidariedade

Cerca de 60 felinos vivem em cinco colônias monitoradas por voluntárias, que enfrentam dificuldades para manter alimentação, castrações e resgates enquanto abandono ainda preocupa

1 de setembro de 2026

Foto: Arquivo Pessoal

Quem passa por terrenos, estacionamentos ou áreas mais afastadas de Pomerode dificilmente imagina que, nesses locais, vivem dezenas de gatos que dependem diariamente da dedicação de voluntárias para sobreviver. É essa a realidade acompanhada pelo Projeto Tigrinha, iniciativa formada por protetoras independentes que monitoram atualmente cerca de 60 felinos distribuídos em cinco colônias do município. O trabalho inclui alimentação diária, resgates, castrações e busca por adoções responsáveis, mas enfrenta um desafio constante: a falta de recursos e o abandono de animais.

Sem uma ONG formalizada, o trabalho é realizado por protetoras independentes, que monitoram as colônias, fornecem alimentação, capturam os animais para castração e buscam novos lares para os filhotes resgatados. Apesar dos avanços obtidos nos últimos anos, a falta de recursos ainda é um dos maiores obstáculos.

Foto: Arquivo Pessoal

As colônias são formadas por gatos que vivem livremente em um mesmo território, como terrenos, estacionamentos e áreas verdes, permanecendo nesses locais porque encontram alimento, água e abrigo. Segundo as voluntárias, praticamente todas as colônias existentes em Pomerode surgiram após casos de abandono.

“Segundo relatos de moradores mais antigos, os gatos são provenientes de abandono. Anos atrás uma família chegou a castrar todos os animais da região com recursos próprios, mas novos abandonos aconteceram ao longo do tempo, até chegar à situação atual”, relatam.

Castrações e adoções reduzem número de animais

Hoje, as cinco colônias ficam próximas umas das outras. A divisão foi planejada para diminuir o deslocamento dos gatos pelas ruas, reduzindo o risco de atropelamentos e facilitando o trabalho de captura para castração.

Foto: Arquivo Pessoal

Nos últimos meses, o número de animais começou a diminuir graças ao controle populacional e às adoções. Todos os filhotes resgatados passam por lares temporários antes de seguirem para uma família definitiva. Segundo as protetoras, cerca de 95% dos filhotes resgatados já encontraram um novo lar.

As adoções são realizadas de forma responsável, respeitando o perfil de cada animal. Alguns convivem bem com cães, outros preferem ambientes tranquilos ou apartamentos. Em casos de irmãos muito apegados, a adoção ocorre apenas de forma conjunta.

Embora o abandono continue sendo uma realidade, as voluntárias afirmam que a conscientização da população começa a apresentar resultados positivos.

Foto: Arquivo Pessoal

“As pessoas que atuam na causa animal conversam bastante sobre os abandonos, e a comunidade vem entendendo melhor as consequências desse crime previsto em lei.”

Ainda assim, elas destacam que continuam recebendo denúncias de maus-tratos e alertam que períodos próximos às festas de fim de ano costumam registrar aumento nos casos de abandono.

Histórias que nunca são esquecidas

Entre tantos resgates, algumas lembranças permanecem marcadas para sempre.

Fabiane Lanser recorda o dia em que encontrou um filhote de aproximadamente dois meses abandonado no mato, coberto por larvas e formigas. Ela acreditava que conseguiria apenas proporcionar um fim digno ao animal, mas ele reagiu ao tratamento, recuperou-se completamente e acabou sendo adotado. Tempos depois, porém, morreu atropelado.

Foto: Arquivo Pessoal

Emily Maria de Moraes Alves também guarda uma lembrança difícil. Ela cuidava da gatinha Maya e do irmão Mufasa, inseparáveis desde pequenos. Como ninguém aceitava adotá-los juntos, Maya acabou saindo para a estrada e morreu atropelada.

“Ver o Mufasa indo ao encontro dela morta na beira da estrada foi uma das cenas mais difíceis que já vivi”, relembra.

Alimentação é o maior desafio

Se antes a castração era a principal preocupação das protetoras, hoje o maior desafio é garantir alimento para todos os gatos das colônias.

Sem uma entidade formalizada, elas não conseguem acessar recursos públicos destinados à causa animal e dependem exclusivamente de doações da comunidade para manter o trabalho.

Foto: Arquivo Pessoal

Além das voluntárias que atuam diretamente nas colônias, dezenas de moradores também alimentam gatos abandonados em diferentes bairros de Pomerode, oferecendo água, abrigo, medicamentos e, muitas vezes, custeando atendimentos veterinários com recursos próprios.

Em relação às castrações, as protetoras reconhecem que houve avanços após a adesão da Prefeitura a programas de controle populacional. Mesmo assim, capturar gatos ferais exige experiência, equipamentos adequados e muita paciência.

Outro desafio foi o atendimento veterinário. Como não havia clínicas cadastradas para realizar os procedimentos, muitos animais precisaram ser levados para Blumenau, Timbó e mutirões com castramóvel. Segundo as voluntárias, todas as despesas de captura, transporte e deslocamento foram pagas por elas ou por meio de doações.

Gatos abandonados não sobrevivem sozinhos

Um dos maiores equívocos, segundo as protetoras, é acreditar que gatos abandonados conseguem viver sem ajuda humana.

Foto: Arquivo Pessoal

“Eles procuram comida, mas isso não significa que consigam encontrá-la. Não são animais silvestres. Em algum momento foram abandonados e dependem da ajuda das pessoas.”

Nas ruas, esses animais enfrentam fome, sede, frio, doenças, atropelamentos e maus-tratos.

As voluntárias reforçam que a castração continua sendo a medida mais eficaz para controlar a população de animais, evitar novos abandonos e preservar a saúde das fêmeas. Elas alertam ainda que a chamada injeção anticoncepcional ou “anti-cio” não é recomendada por médicos-veterinários devido aos riscos de tumores mamários, infecções uterinas e diabetes.

Foto: Arquivo Pessoal

Ao encontrar um gato aparentemente abandonado, a orientação é verificar primeiro se ele possui tutor, buscando informações com vizinhos e nas redes sociais. Caso realmente esteja sem responsável, recomenda-se oferecer água, alimento e um local seguro, procurando posteriormente auxílio de protetores ou entidades da cidade.

Como ajudar

Quem deseja colaborar pode contribuir com doações de ração, medicamentos, recursos financeiros, oferecer lar temporário para animais resgatados, auxiliar na divulgação das campanhas de adoção ou participar das rifas e ações beneficentes promovidas pelas voluntárias.

Foto: Arquivo Pessoal

As protetoras também fazem um reconhecimento especial aos moradores que, de forma silenciosa, dedicam parte do seu tempo e do próprio dinheiro para cuidar de gatos abandonados em diversos bairros do município.
Para elas, proteger os animais é uma responsabilidade compartilhada.

“A comunidade precisa cultivar uma compaixão cada vez mais profunda pelos animais. Eles sentem dor, medo, alegria e afeto, e merecem respeito. Uma cidade que protege seus animais demonstra empatia, civilidade e evolução cultural. O bem-estar animal não depende apenas das protetoras ou do poder público, mas é um compromisso de toda a sociedade.”

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