A vida dedicada ao esporte que ajudou a transformar gerações em Pomerode
De entregador de jornais e vendedor de picolés a um dos maiores incentivadores do ciclismo catarinense, Hilário Rocha construiu uma trajetória que ultrapassa medalhas e deixa como legado milhares de vidas impactadas pelo esporte
Foto: Arquivo Pessoal
E m Pomerode, poucas pessoas carregam uma história tão ligada ao esporte quanto Hilário Rocha. Aos 63 anos, o pomerodense acumula décadas dedicadas ao esporte do pedal, de atleta, à formação de atletas, à organização de competições e ao incentivo para que crianças, jovens e adultos encontrassem, sobre duas rodas, muito mais do que uma modalidade esportiva: uma forma de transformar a sua própria vida.
Sua trajetória começou muito antes dos títulos, dos grandes eventos e do reconhecimento estadual na Assembleia Legislativa em Julho e de acender a pira do fogo dos 48º Jogos estudantis de Pomerode. Filho de Edith Weber Rocha, agricultora, e Wilson Rocha, torneiro mecânico, Rocha como é conhecido por todos, cresceu aprendendo o valor do trabalho. Ainda criança, vendia picolés nos finais de semana e entregava jornais diariamente pelas ruas de Pomerode. Aos 13 anos, já trabalhava em uma serraria e mais tarde, passou por uma gráfica e um laboratório fotográfico.

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Foi justamente nessa época que o esporte cruzou definitivamente seu caminho.
O menino que sonhava em pedalar
No fim da década de 1970, Pomerode vivia um momento histórico para o ciclismo. A conquista do Campeonato Pan-Americano por Hans Fischer despertou o interesse de muitos jovens da cidade e entre eles, Hilário.
Sem dinheiro para comprar uma bicicleta apropriada, ele decidiu transformar a velha bicicleta Hermes aro 28 em sua primeira companheira de treinos. Adaptou marchas, fez melhorias com o que tinha disponível e começou a competir.
“Não tinha recursos. O jeito foi adaptar a bicicleta velha e começar assim mesmo”, relembra.

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A simplicidade nunca foi um obstáculo. Pelo contrário. Foi justamente ela que impulsionou uma trajetória marcada pela perseverança.
Vieram então as primeiras competições estaduais, Jogos Abertos de Santa Catarina, convocações para a Seleção Catarinense e até disputas internacionais no Uruguai. Sempre representando Pomerode.
Mas, para Rocha, as medalhas nunca foram o principal.
“Nunca fui o atleta que ganhava tudo. Meu papel era ajudar a equipe a conquistar resultados. Como no futebol, existe quem faz o gol, mas existe quem trabalha para a bola chegar até ele.”
Quando o esporte virou missão
Com o passar dos anos, a bicicleta deixou de ser apenas instrumento de competição.

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Ao perceber que precisava consertar sua própria bicicleta, Rocha começou a aprender mecânica. Logo, amigos passaram a pedir ajuda. Depois vieram os parentes e vizinhos. Em pouco tempo, o pequeno espaço na casa dos pais já não comportava tantos clientes.
Assim nasceu, em 1985, a Cicles Rocha, empresa que anos depois se transformaria na Twins Bike Shop, alusiva a vinda 1987 dos filhos Gemeos.
Ao mesmo tempo, sua atuação dentro do esporte crescia.
Quando a equipe de ciclismo de Pomerode perdeu o apoio financeiro do município, Rocha decidiu mantê-la funcionando com recursos próprios e dos próprios atletas.

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Mesmo diante das dificuldades, a equipe conquistou um terceiro lugar nos Jogos Abertos de Santa Catarina de 1989, em Joaçaba, na prova de 4 x 100km, resultado lembrado até hoje como símbolo de superação.
Muito além das competições
Quem conhece apenas o empresário ou o organizador do Desafio dos Rochas talvez não imagine a dimensão da contribuição de Rocha para o esporte do pedal catarinense.
Ele coordenou os Jogos Estudantis de Pomerode durante mais de dez anos, coordenou em 2019 a modalidade de ciclismo dos jogos abertos de Santa Catarina, quando Pomerode, Timbó e Indaial sediaram o evento, Ajudou na elaboração em homenagem da Copa Hans Fischer, único atleta Pomerodense a participar de 2 Olimpíadas, Moscou e Los Angeles, participou da organização da Volta de Santa Catarina de Ciclismo e da Volta de Santa Catarina de Mountain Bike, promoveu campeonatos municipais, estaduais e sul-brasileiros, trouxe grandes nomes do BMX, Freestyle e Downhill para competir em Pomerode e ainda construiu a tradicional pista de Downhill do Morro da Turquia, considerada até hoje uma das melhores do Brasil.

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Também foi mecânico da Seleção Brasileira de Downhill durante o Mundial realizado na Suíça, em 1995.
O esporte como ferramenta de transformação
Ao longo da conversa, Rocha faz questão de dizer que seu maior orgulho não está nos troféus.
Mas sim nas pessoas.

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Segundo ele, mais de 15 mil crianças, jovens e adultos passaram por atividades organizadas ao longo de sua trajetória.
Muitos descobriram o esporte durante os Jogos Estudantis. Outros reencontraram familiares pedalando. Alguns venceram a obesidade. Houve quem superasse a depressão, reconstruísse relacionamentos ou simplesmente encontrasse um novo propósito.
“Se eu consegui salvar duas crianças por ano através do esporte, já valeu a pena.”

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Esse pensamento ajuda a explicar por que, mesmo aposentado, ele continua organizando passeios ciclísticos e caminhadas para empresas e grupos da região.
Um desafio que virou patrimônio
Em 2013, ao lado da família e de amigos, Rocha e sua Família, criaram o Desafio dos Rochas de Mountain Bike.
O objetivo inicial era simples: mostrar aos visitantes as paisagens, a cultura e as tradições de Pomerode.

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Treze anos depois, o evento tornou-se uma das principais provas de mountain bike do Brasil, reunindo centenas de atletas e movimentando hotéis, restaurantes, comércio e diversos setores da economia regional.
Para ele, porém, o maior resultado nunca foi o número de participantes.
“O importante é ver famílias inteiras pedalando juntas.”
Um legado que permanece
Ao olhar para trás, Rocha enxerga uma caminhada construída com muito trabalho, dedicação e paixão pelo esporte.
Sua história se mistura com a evolução do ciclismo em Pomerode. Da velha bicicleta adaptada às grandes competições nacionais; das oficinas improvisadas aos eventos que colocaram o município no mapa do mountain bike brasileiro; das primeiras pedaladas aos milhares de atletas formados.

Foto: Arquivo Pessoal
Mais do que organizar provas ou conquistar resultados, Hilário Rocha ajudou a criar uma cultura esportiva que atravessa gerações.
Seu maior legado talvez não esteja nas pistas, mas nas pessoas que, inspiradas por seu exemplo, descobriram que a bicicleta pode ser muito mais do que um meio de transporte ou uma ferramenta de competição.
Ela pode ser um caminho para transformar vidas.