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A vida dedicada ao esporte que ajudou a transformar gerações em Pomerode

De entregador de jornais e vendedor de picolés a um dos maiores incentivadores do ciclismo catarinense, Hilário Rocha construiu uma trajetória que ultrapassa medalhas e deixa como legado milhares de vidas impactadas pelo esporte

2 de setembro de 2026

Foto: Arquivo Pessoal

E m Pomerode, poucas pessoas carregam uma história tão ligada ao esporte quanto Hilário Rocha. Aos 63 anos, o pomerodense acumula décadas dedicadas ao esporte do pedal, de atleta, à formação de atletas, à organização de competições e ao incentivo para que crianças, jovens e adultos encontrassem, sobre duas rodas, muito mais do que uma modalidade esportiva: uma forma de transformar a sua própria vida.

Sua trajetória começou muito antes dos títulos, dos grandes eventos e do reconhecimento estadual na Assembleia Legislativa em Julho e de acender a pira do fogo dos 48º Jogos estudantis de Pomerode. Filho de Edith Weber Rocha, agricultora, e Wilson Rocha, torneiro mecânico, Rocha como é conhecido por todos, cresceu aprendendo o valor do trabalho. Ainda criança, vendia picolés nos finais de semana e entregava jornais diariamente pelas ruas de Pomerode. Aos 13 anos, já trabalhava em uma serraria e mais tarde, passou por uma gráfica e um laboratório fotográfico.

Foto: Arquivo Pessoal

Foi justamente nessa época que o esporte cruzou definitivamente seu caminho.

O menino que sonhava em pedalar

No fim da década de 1970, Pomerode vivia um momento histórico para o ciclismo. A conquista do Campeonato Pan-Americano por Hans Fischer despertou o interesse de muitos jovens da cidade e entre eles, Hilário.

Sem dinheiro para comprar uma bicicleta apropriada, ele decidiu transformar a velha bicicleta Hermes aro 28 em sua primeira companheira de treinos. Adaptou marchas, fez melhorias com o que tinha disponível e começou a competir.

“Não tinha recursos. O jeito foi adaptar a bicicleta velha e começar assim mesmo”, relembra.

Foto: Arquivo Pessoal

A simplicidade nunca foi um obstáculo. Pelo contrário. Foi justamente ela que impulsionou uma trajetória marcada pela perseverança.

Vieram então as primeiras competições estaduais, Jogos Abertos de Santa Catarina, convocações para a Seleção Catarinense e até disputas internacionais no Uruguai. Sempre representando Pomerode.

Mas, para Rocha, as medalhas nunca foram o principal.

“Nunca fui o atleta que ganhava tudo. Meu papel era ajudar a equipe a conquistar resultados. Como no futebol, existe quem faz o gol, mas existe quem trabalha para a bola chegar até ele.”

Quando o esporte virou missão

Com o passar dos anos, a bicicleta deixou de ser apenas instrumento de competição.

Foto: Arquivo Pessoal

Ao perceber que precisava consertar sua própria bicicleta, Rocha começou a aprender mecânica. Logo, amigos passaram a pedir ajuda. Depois vieram os parentes e vizinhos. Em pouco tempo, o pequeno espaço na casa dos pais já não comportava tantos clientes.

Assim nasceu, em 1985, a Cicles Rocha, empresa que anos depois se transformaria na Twins Bike Shop, alusiva a vinda 1987 dos filhos Gemeos.
Ao mesmo tempo, sua atuação dentro do esporte crescia.

Quando a equipe de ciclismo de Pomerode perdeu o apoio financeiro do município, Rocha decidiu mantê-la funcionando com recursos próprios e dos próprios atletas.

Foto: Arquivo Pessoal

Mesmo diante das dificuldades, a equipe conquistou um terceiro lugar nos Jogos Abertos de Santa Catarina de 1989, em Joaçaba, na prova de 4 x 100km, resultado lembrado até hoje como símbolo de superação.

Muito além das competições

Quem conhece apenas o empresário ou o organizador do Desafio dos Rochas talvez não imagine a dimensão da contribuição de Rocha para o esporte do pedal catarinense.

Ele coordenou os Jogos Estudantis de Pomerode durante mais de dez anos, coordenou em 2019 a modalidade de ciclismo dos jogos abertos de Santa Catarina, quando Pomerode, Timbó e Indaial sediaram o evento, Ajudou na elaboração em homenagem da Copa Hans Fischer, único atleta Pomerodense a participar de 2 Olimpíadas, Moscou e Los Angeles, participou da organização da Volta de Santa Catarina de Ciclismo e da Volta de Santa Catarina de Mountain Bike, promoveu campeonatos municipais, estaduais e sul-brasileiros, trouxe grandes nomes do BMX, Freestyle e Downhill para competir em Pomerode e ainda construiu a tradicional pista de Downhill do Morro da Turquia, considerada até hoje uma das melhores do Brasil.

Foto: Arquivo Pessoal

Também foi mecânico da Seleção Brasileira de Downhill durante o Mundial realizado na Suíça, em 1995.

O esporte como ferramenta de transformação

Ao longo da conversa, Rocha faz questão de dizer que seu maior orgulho não está nos troféus.

Mas sim nas pessoas.

Foto: Arquivo Pessoal

Segundo ele, mais de 15 mil crianças, jovens e adultos passaram por atividades organizadas ao longo de sua trajetória.

Muitos descobriram o esporte durante os Jogos Estudantis. Outros reencontraram familiares pedalando. Alguns venceram a obesidade. Houve quem superasse a depressão, reconstruísse relacionamentos ou simplesmente encontrasse um novo propósito.

“Se eu consegui salvar duas crianças por ano através do esporte, já valeu a pena.”

Foto: Arquivo Pessoal

Esse pensamento ajuda a explicar por que, mesmo aposentado, ele continua organizando passeios ciclísticos e caminhadas para empresas e grupos da região.

Um desafio que virou patrimônio

Em 2013, ao lado da família e de amigos, Rocha e sua Família, criaram o Desafio dos Rochas de Mountain Bike.

O objetivo inicial era simples: mostrar aos visitantes as paisagens, a cultura e as tradições de Pomerode.

Foto: Arquivo Pessoal

Treze anos depois, o evento tornou-se uma das principais provas de mountain bike do Brasil, reunindo centenas de atletas e movimentando hotéis, restaurantes, comércio e diversos setores da economia regional.

Para ele, porém, o maior resultado nunca foi o número de participantes.

“O importante é ver famílias inteiras pedalando juntas.”

Um legado que permanece

Ao olhar para trás, Rocha enxerga uma caminhada construída com muito trabalho, dedicação e paixão pelo esporte.

Sua história se mistura com a evolução do ciclismo em Pomerode. Da velha bicicleta adaptada às grandes competições nacionais; das oficinas improvisadas aos eventos que colocaram o município no mapa do mountain bike brasileiro; das primeiras pedaladas aos milhares de atletas formados.

Foto: Arquivo Pessoal

Mais do que organizar provas ou conquistar resultados, Hilário Rocha ajudou a criar uma cultura esportiva que atravessa gerações.

Seu maior legado talvez não esteja nas pistas, mas nas pessoas que, inspiradas por seu exemplo, descobriram que a bicicleta pode ser muito mais do que um meio de transporte ou uma ferramenta de competição.

Ela pode ser um caminho para transformar vidas.

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