Relatório do CENIPA aponta sequência de falhas, gelo severo e problemas na Voepass como causas do acidente em Vinhedo
Documento final da investigação conclui que a perda de controle da aeronave foi resultado de uma combinação de formação de gelo severo, falhas no sistema de degelo, decisões da tripulação e fragilidades na cultura de segurança operacional da companhia
Foto: Divulgação / CENIPA
O Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos (CENIPA) divulgou o relatório final sobre o acidente com a aeronave ATR 72-500 da Voepass Linhas Aéreas, ocorrido em 9 de agosto de 2024, em Vinhedo (SP). A investigação concluiu que a queda foi provocada por uma combinação de fatores técnicos, operacionais, humanos e organizacionais, descartando a existência de uma única causa isolada.
O voo transportava 58 passageiros e quatro tripulantes entre Cascavel (PR) e Guarulhos (SP). Durante o trajeto, a aeronave enfrentou condições severas de formação de gelo em altitude, perdeu sustentação (stall), entrou em um parafuso chato e colidiu contra o solo em uma área residencial de Vinhedo. Todos os 62 ocupantes morreram.
Gelo severo comprometeu o desempenho da aeronave
Segundo o relatório, as condições meteorológicas encontradas durante o voo eram extremamente favoráveis à formação de gelo severo entre os níveis de voo FL120 e FL230. A aeronave voava no FL170, exatamente dentro da faixa onde haviam sido emitidos alertas meteorológicos (SIGMET) para formação intensa de gelo.

Foto: Divulgação / CENIPA
A investigação aponta que havia:
- frente fria atuando sobre a região;
- elevada umidade em altitude;
- temperaturas abaixo de zero;
- extensa cobertura de nuvens;
- turbulência em níveis elevados;
- avisos meteorológicos emitidos antes e durante o voo alertando para gelo severo.
O relatório destaca que essas condições eram conhecidas pelos sistemas meteorológicos da aviação e haviam sido oficialmente divulgadas.
Falha no sistema de degelo já havia ocorrido em voos anteriores
Um dos principais pontos identificados pela investigação foi que a aeronave apresentava falhas recorrentes no sistema Airframe De-Icing, responsável pelo degelo das asas.
Nos três voos anteriores ao acidente, foram registrados alertas de falha no sistema e diversas tentativas de “reset” pelos pilotos. Entretanto, essas ocorrências não foram registradas oficialmente no livro técnico da aeronave (TLB), impedindo que a manutenção realizasse o reparo adequado.
A Comissão concluiu que havia uma cultura informal de comunicação entre pilotos e mecânicos, sem documentação técnica obrigatória.
Procedimentos previstos não foram seguidos
O relatório também aponta que, após os alertas de degradação de desempenho e de gelo severo, a tripulação deixou de executar procedimentos previstos no manual operacional da aeronave.
Entre eles estavam:
- sair imediatamente da área de formação de gelo;
- manter velocidades superiores às mínimas recomendadas;
- alterar a trajetória do voo;
- executar integralmente os checklists específicos para gelo severo.
A investigação verificou que a aeronave continuou perdendo velocidade até atingir uma condição crítica, favorecendo a entrada em estol.
Conversas paralelas reduziram o foco operacional
As gravações da cabine mostraram que os pilotos mantiveram conversas sobre assuntos pessoais durante momentos importantes da operação.
Segundo o CENIPA, isso contrariou princípios do Crew Resource Management (CRM), que determina prioridade total às tarefas operacionais em situações de maior carga de trabalho.
O relatório também cita que fatores como distração, efeito surpresa (startle effect) e fragmentação da atenção podem ter comprometido a capacidade da tripulação de interpretar corretamente os alertas emitidos pela aeronave.
Investigação aponta problemas na cultura de segurança da Voepass
Além dos fatores diretamente relacionados ao voo, a investigação identificou fragilidades estruturais na gestão de segurança operacional da Voepass.
Entre os problemas destacados estão:
- pressão sobre equipes de manutenção;
- jornadas consideradas extenuantes;
- escassez de mão de obra qualificada em algumas bases;
- recorrência de panes não registradas oficialmente;
- normalização de desvios operacionais;
- renovação sucessiva de itens da Lista de Equipamentos Mínimos (MEL) sem correção definitiva das falhas.
Segundo o relatório, havia uma cultura organizacional que priorizava a continuidade das operações, permitindo que problemas recorrentes permanecessem sem solução definitiva.
ANAC já havia identificado irregularidades
O documento informa que a Agência Nacional de Aviação Civil (ANAC) realizou diversas ações de fiscalização entre 2022 e 2024, identificando inúmeras não conformidades relacionadas principalmente à manutenção da frota.
Entre os problemas encontrados estavam:
- falhas no sistema de degelo;
- reparos inadequados;
- panes não registradas;
- descumprimento de procedimentos previstos nos manuais;
- fragilidades na supervisão da manutenção.
Mesmo após notificações e medidas administrativas, a investigação concluiu que parte dos riscos permaneceu presente até a ocorrência do acidente.
Acidente resultou da soma de diversos fatores
Ao final da investigação, o CENIPA concluiu que o acidente não foi provocado por um único evento, mas pela combinação de fatores como:
- condições severas de formação de gelo;
- falha recorrente no sistema de degelo da aeronave;
- perda gradual de desempenho;
- não execução integral dos procedimentos previstos;
- falhas no gerenciamento da tripulação;
- fragilidades na cultura de segurança operacional da empresa;
- deficiência na gestão de riscos e manutenção.
O relatório também afirma que não foram encontradas evidências de separação estrutural da aeronave em voo, nem indícios de fadiga, consumo de álcool ou medicamentos pelos pilotos.
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Após perder completamente a sustentação, a aeronave entrou em um parafuso chato antes de atingir o solo, sendo destruída pelo impacto e pelo incêndio que ocorreu na sequência.
Fonte: CENIPA