Entre quedas e recomeços: dois atletas de Pomerode que desafiam o medo no downhill
Daniel e William acumulam fraturas, cicatrizes e histórias de superação, mas encontraram nas pistas uma paixão que sempre os fez voltar
Foto: Arquivo Pessoal
Descer uma montanha em alta velocidade, enfrentar curvas, obstáculos e saltos exige técnica, preparo físico e concentração. No downhill, porém, existe outro componente que acompanha cada atleta: o risco. Em Pomerode, Daniel Fernando Lemke e William César Michalack conhecem bem essa realidade. Os dois já sofreram acidentes graves, acumularam fraturas e até pensaram em abandonar o esporte. Mas a paixão pelas bicicletas falou mais alto.
A história de Daniel começou em 2007, quando ainda fazia parte da fanfarra da escola EEBM Profª Noemi Vieira de Campos Schroeder. Durante um ensaio, viu um cartaz anunciando uma competição de downhill. Foi assistir e se identificou imediatamente com o esporte.

Daniel Fernando Lemke
“Quando cheguei em casa, falei para meus pais que era isso que queria fazer. Eles me chamaram de louco”, conta.
Sem condições de comprar uma bicicleta específica, Daniel adaptou uma suspensão em uma Caloi Cross aro 20. A bicicleta, que marcou o início da trajetória, ainda está guardada. Depois, passou a frequentar a pista da Acaen e transformou a brincadeira em paixão.
William conheceu a modalidade alguns anos depois. Em 2011, começou a assistir a vídeos de downhill na internet. Em 2012, foi acompanhar uma competição em Pomerode e teve a certeza de que queria praticar o esporte. Em maio daquele ano, teve sua confirmação e, com o dinheiro que ganhou, comprou sua primeira bicicleta de downhill no mês seguinte.
Acidentes que deixaram marcas
Entre tantas descidas, também vieram acidentes graves. Para Daniel, o mais marcante ocorreu em 2014, durante uma prova em Ituporanga. Ele caiu e bateu violentamente as costas em uma pedra. Por alguns momentos, não sentiu as pernas.

William César Michalack
A queda provocou uma lesão na coluna lombar e na vértebra T12. Até hoje, Daniel sente dores e convive com as consequências físicas e psicológicas do acidente.
William também coleciona lesões. Antes do downhill, sofreu um acidente no BMX e fraturou a coluna. Nas pistas, teve fraturas no cotovelo e na mão esquerdos, ombro direito, clavícula direita e cinco costelas, entre outras.
Algumas consequências permanecem. Uma lesão na clavícula afetou o ombro e deixou a região mais instável, exigindo fortalecimento contínuo. Ele também desenvolveu artrite degenerativa no punho após fraturas repetidas e convive com uma hérnia de disco lombar.
Em 2016, uma queda durante um treino em Pomerode fez William pensar seriamente em desistir. Ele fraturou duas costelas e danificou praticamente toda a bicicleta. Em 2018, chegou a parar novamente. Ficou seis meses longe das pistas, mas acabou comprando tudo de novo e retornando ao esporte.

Daniel Fernando Lemke
Daniel também já vendeu bicicletas e tentou parar algumas vezes. A paixão, porém, sempre o trouxe de volta.
“Hoje não me vejo em uma vida que não tenha uma bicicleta envolvida”, afirma.
O medo faz parte
Apesar da experiência, nenhum dos dois esconde que o medo está presente.
Daniel sente apreensão antes da largada, principalmente pelas lembranças do acidente de 2014. Mas, quando começa a descida, o sentimento desaparece.
William define o medo como uma presença constante. As condições da pista podem mudar a cada descida, seja pela passagem de outros atletas, pelo barro ou pela mudança no terreno.

William César Michalack
Durante muito tempo, seu maior medo foram os saltos. Ele aprendeu a enfrentá-lo em uma pista de Ibirama, onde encara um Road Gap sobre uma rua, com cerca de 4,5 metros de altura e 14 metros de vão.
Apoio para continuar
As famílias também fazem parte dessa trajetória. Os pais de Daniel inicialmente tiveram dificuldade em aceitar o esporte pelo medo dos acidentes. Hoje, apoiam e incentivam. A esposa também passou a apoiar seu retorno às pistas.
Na família de William, a mãe continua preocupada e costuma pedir que ele pare, mas também acompanha e apoia as competições. A noiva e outros familiares estão ao lado do atleta. Um primo, inclusive, cuida de sua preparação física e rotina de fortalecimento.

Daniel Fernando Lemke
Depois de tantas quedas, os dois encontraram aprendizados que vão muito além do esporte.
Daniel aprendeu que sempre é possível recomeçar e que não se deve desistir daquilo que traz felicidade. Para ele, o maior adversário muitas vezes está na própria mente.
William fala em paciência, persistência e fé. Depois de perder o pai cedo, enfrentar acidentes de bicicleta e até um acidente de moto que poderia ter sido fatal, afirma que nada disso tirou sua vontade de vencer e ser exemplo para quem ama.
“Um sonho custa caro, mas desistir custa um sonho”, resume.

William César Michalack
Entre fraturas, medo e recomeços, Daniel e William seguem descendo. Sabem que o risco estará sempre presente, mas também descobriram que algumas paixões são fortes o suficiente para fazer um atleta levantar depois da queda, ajustar a bicicleta e tentar novamente.