Entre pincéis e madeira, menino encontra no artesanato uma forma de criar e estar perto da família
Com apenas 11 anos, João Gabriel Kuhlewein aprendeu a pintar e começou a se aventurar no torno inspirado pelo trabalho da avó; para ele, atividade é sinônimo de criatividade, diversão e momentos compartilhados
Foto: Isadora Brehmer / Jornal de Pomerode
Para uma criança, descobrir uma atividade que desperta curiosidade pode ser o início de uma paixão que acompanha diferentes fases da vida. Foi assim com João Gabriel Kuhlewein, de 11 anos, que encontrou no artesanato uma forma de exercitar a criatividade, aprender novas habilidades e, principalmente, compartilhar momentos especiais ao lado da avó.
Filho de Júlio César Kuhlewein e Dahbya Spiess, João começou a se aproximar do artesanato ainda pequeno, observando a avó trabalhar. As peças produzidas por ela despertaram a curiosidade do menino, que passou a querer experimentar os pincéis e, mais tarde, conhecer também o trabalho realizado no torno.
A relação começou de maneira simples. Ao visitar a avó, João observava as peças sendo produzidas e decoradas. Aos poucos, o interesse deixou de ser apenas uma curiosidade infantil e se transformou em vontade de aprender.
“Meu interesse de pintar foi sempre quando eu vi a Oma fazendo Bauernmalerei. Isso me incentivou a querer fazer muito arte também como ela. Eu comecei a aprender com ela, que me ajudava a pintar coisas simples, como um boneco de neve ou outras coisas do tipo. Foi assim que eu fui começando a gostar e a aprender cada vez mais”, conta João.
Dos primeiros desenhos às peças de madeira
Entre as primeiras experiências, estavam pequenos carrinhos, casinhas e bonecos de neve. Eram peças simples, mas que representavam os primeiros passos de João dentro de um universo que, até então, ele conhecia principalmente por observar a avó.
Com o tempo, vieram novos desafios. O menino passou a experimentar o torno, ferramenta utilizada para trabalhar peças de madeira e criar diferentes formatos. A atividade ainda está em fase de aprendizado e exige cuidado, principalmente quando envolve equipamentos maiores.
João explica que começou utilizando um torno pequeno, que considera mais fácil de controlar. Já o equipamento maior exige mais força e experiência.

Foto: Isadora Brehmer / Jornal de Pomerode
Mesmo encontrando dificuldades, ele não perdeu o interesse. Pelo contrário: a possibilidade de aprender algo novo tornou o desafio parte da diversão.
Entre as peças de que mais gostou de fazer estão um catavento, alguns carrinhos e uma taça produzida no torno. Segundo ele, a taça foi uma das peças que mais o marcou nessa fase de aprendizado.
“A melhor peça que eu acho que eu já fiz no torno foi uma taça que ficou bem bonita. Era desse tamanhinho. E, de pintar, eu acho que foi o quadro que está lá na sala de estar. Eu gosto dessas peças porque é legal poder fazer e depois ver como elas ficam. Cada coisa que eu faço é uma experiência diferente e eu vou aprendendo um pouco mais”, relata João.
Um aprendizado feito a quatro mãos
Boa parte desse processo acontece ao lado da avó. Mais do que ensinar técnicas, ela acompanha os primeiros passos do neto e participa diretamente de algumas das produções.
Um dos exemplos é um quadro de peixes. Durante a produção, João foi orientado pela avó, que segurava sua mão para ajudá-lo a conduzir o pincel. O menino, porém, não se limitava a reproduzir o que era orientado. Ele também dava sugestões sobre o que deveria aparecer na obra.
Para ele, se havia peixes, também precisava haver água, pedras e grama. A situação resume a maneira como o artesanato passou a fazer parte da relação entre os dois: a avó compartilha o conhecimento, enquanto João acrescenta suas próprias ideias e sua maneira de enxergar o que está produzindo.
Segundo ela, o neto demonstra cuidado ao utilizar o pincel e desenvolveu uma maneira própria de pintar.“Ele foi pegando o jeitinho com o pincel, ele tem uma mão muito leve. E é uma coisa que eu amo, porque é nós dois sempre. Ele ama o que eu faço, chega e fica olhando, já fez vários vídeos até com taças, com xícaras, com peças de madeira. Ele ama o artesanato. Para mim, poder dividir esses momentos com ele é tudo de bom, porque a gente está sempre junto e acaba criando essas lembranças”, conta a avó.

A avó auxilia João no aprendizado do artesanato. (Foto: Isadora Brehmer / Jornal de Pomerode)
A experiência também despertou o interesse de outras pessoas que trabalham com artesanato. Durante uma demonstração no Centro Cultural, João teve a oportunidade de experimentar um torno pequeno com a orientação de Sandra. Na ocasião, ela observou o interesse e a habilidade do menino e incentivou a família a continuar estimulando esse contato.
Criatividade em meio à rotina escolar
Aos 11 anos, João está no sexto ano e, com a mudança de rotina escolar, passou a ter menos tempo disponível para se dedicar ao artesanato. As provas, tarefas e demais compromissos da escola ocupam boa parte da semana.
Ainda assim, quando encontra uma oportunidade, ele volta aos pincéis ou ao torno. O artesanato não é, necessariamente, a única atividade escolhida por João no tempo livre. Ele também gosta de brincar com Lego e realizar outras atividades. Mas pintar continua sendo uma possibilidade que encontra espaço na rotina.
Para o menino, uma das características mais interessantes do artesanato é justamente a sensação proporcionada durante a atividade.
“É uma coisa relaxante, que dá para fazer no tempo livre. É uma coisa boa de se fazer e isso ajuda muito na criatividade da pessoa. Eu, por mim, já pintava mais, só que agora estou no sexto ano e não tenho mais tanto tempo para fazer as coisas. Tem mais coisa da escola para fazer, mais prova e bastante tarefa, então isso tira um pouco do tempo que eu poderia estar pintando”, explica o menino.
Presentes que carregam significado
Além de aprender, João também utiliza o que produz para presentear pessoas da família. Ao longo do tempo, já pintou quadros e outras peças para a avó e outros familiares.
Dessa forma, o artesanato deixa de ser apenas uma atividade feita por diversão e passa a carregar também um significado afetivo. Cada peça produzida guarda parte do tempo dedicado por João e, em alguns casos, também representa uma lembrança compartilhada com quem esteve ao seu lado durante a produção.
Um Dia das Crianças diferente
A história de João também ganha um significado especial com a proximidade do Dia das Crianças. Em uma época marcada por presentes, brinquedos e atividades de lazer, a experiência do menino mostra que as descobertas da infância podem acontecer de diferentes maneiras.
No caso dele, um pincel e um pedaço de madeira se transformaram em instrumentos de criatividade. O contato com o artesanato permitiu que João aprendesse técnicas, desenvolvesse habilidades e descobrisse uma atividade que, além de prazerosa, aproximou ainda mais duas gerações da família.
A experiência também reforça a importância de permitir que as crianças tenham contato com diferentes atividades e possam descobrir, por conta própria, aquilo que desperta seu interesse. No caso de João, ninguém precisou dizer que ele deveria gostar de artesanato. Ele simplesmente observou, se interessou e quis experimentar.
E foi justamente a partir dessa curiosidade que começaram a surgir os primeiros carrinhos, casinhas, bonecos de neve, quadros, cataventos e, mais recentemente, peças feitas no torno.
Ainda no começo dessa trajetória, João sabe que há muito a aprender. O torno maior continua sendo um desafio e o tempo disponível para pintar diminuiu com as responsabilidades escolares. Mas o interesse permanece.