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Entre pincéis, flores e memória, artesãs de Pomerode ajudam a preservar o Bauernmalerei

Técnica de pintura atravessa gerações e integra a identidade de Pomerode

26 de setembro de 2026

Foto: Isadora Brehmer / Jornal de Pomerode

Em Pomerode, a cultura também se revela nos detalhes. Está nas flores desenhadas sobre a madeira, nas pinceladas cuidadosamente aplicadas, nas cores que dão vida a objetos do cotidiano e, principalmente, nas mãos de quem mantém vivas técnicas aprendidas ao longo dos anos. Entre essas manifestações está o Bauernmalerei, estilo de pintura associado à tradição dos camponeses de origem germânica e que, há décadas, encontra em artesãos da cidade um espaço para continuar sendo praticado, ensinado e valorizado.

Essa história existe nas mãos de quem pinta. É o caso de Rafaela Denise Trapp, artesã que há mais de 18 anos trabalha com pintura em madeira, e de Iraci Spies, que soma mais de quatro décadas dedicadas ao artesanato e aproximadamente 20 anos de relação com o Bauernmalerei.

As trajetórias das duas são diferentes, mas se encontram em um mesmo ponto: a pintura deixou de ser apenas uma técnica aprendida em um curso e passou a fazer parte da vida. Para Rafaela, tornou-se também profissão e fonte de renda. Para Iraci, está tão incorporada à rotina que o ateliê se transformou praticamente em uma extensão da própria casa.

Uma técnica que chegou pelas mãos de um curso

A relação de Rafaela com o Bauernmalerei começou em 2010. Naquele período, ela já trabalhava com pintura em madeira e teve contato com uma oportunidade oferecida por meio da Secretaria de Turismo de Pomerode, em uma iniciativa que envolvia o Ministério do Trabalho e o Ministério da Cultura.

A proposta era trazer uma professora para ensinar a técnica na cidade. Rafaela aproveitou a oportunidade, participou do curso durante aproximadamente três a quatro meses e, ao final, descobriu uma paixão que permanece até hoje.

“Eu sempre fiz pintura em madeira e em 2010 surgiu uma oportunidade através da Secretaria de Turismo, de um curso que o Ministério do Trabalho e da Cultura também estava oferecendo aos municípios. E o município de Pomerode decidiu trazer uma professora para trazer de volta o Bauernmalerei. Então em 2010 eu conheci a técnica, fiz o curso, aproximadamente três a quatro meses e foram dias bem intensos e cansativos. E a partir dali eu peguei paixão pela arte e pinto até hoje.”

A técnica tem como uma de suas características a utilização de flores e outros elementos decorativos para dar vida às peças. Segundo Rafaela, o objetivo original da pintura estava relacionado à decoração das casas dos camponeses, trazendo cor e alegria aos ambientes.

Rafaela Trapp. (Foto: Isadora Brehmer / Jornal de Pomerode)

 

Na prática, o Bauernmalerei pode ser aplicado sobre peças previamente coloridas ou diretamente sobre a madeira, permitindo que a textura e a tonalidade natural do material permaneçam aparentes. Para Rafaela, justamente essa segunda possibilidade está entre as suas preferidas.

A técnica também possui uma maneira característica de executar as pinceladas. A chamada pintura em “vírgulas”, feita com carga dupla de tinta, permite criar efeitos de profundidade e contraste nas flores. Normalmente, utiliza-se uma cor de base combinada ao branco ou a uma tonalidade mais clara ou escura.

“O Bauer é uma pintura que é usada pelos campestres, pelos camponeses, e o intuito da pintura era alegrar a casa, trazer vida, cor. O Bauer pode ser pintado em cima de peças com o fundo, dar uma cor no fundo ou, se não, a que eu gosto bastante é essa, onde a madeira aparece e a gente faz a pintura das flores. O Bauer tem como característica a pintura em vírgulas com a carga dupla de tinta, sempre uma cor de base com o branco ou até uma cor num tom mais abaixo.”

É justamente essa combinação entre simplicidade e riqueza de detalhes que faz com que cada peça tenha características próprias. Embora alguns desenhos possam parecer rápidos de executar para quem observa o resultado pronto, existe um processo de aprendizado e prática por trás de cada pincelada.

Da insegurança à precisão

Rafaela conta que, depois de 16 anos trabalhando com a técnica, a experiência transformou completamente sua maneira de pintar. O que antes exigia mais planejamento e marcações, hoje acontece com naturalidade.

Ela explica que, no início, era comum fazer diversos riscos para determinar exatamente onde cada pincelada deveria passar. Atualmente, basta um esboço para que ela consiga visualizar a flor e executar o desenho.

O tempo necessário para concluir uma peça varia de acordo com o tamanho, o nível de detalhamento e o projeto. Em trabalhos mais simples, ela consegue concluir a pintura em poucas horas. Em peças mais complexas, o processo pode se estender por dias.

A experiência ensinou Rafaela que nem sempre uma peça pequena é sinônimo de trabalho rápido. Quanto menores os detalhes, menor também precisa ser o pincel, o que pode tornar a execução ainda mais delicada.

As peças maiores e mais elaboradas, por sua vez, exigem planejamento. Foi o caso de um dos trabalhos mais marcantes de sua trajetória: o projeto relacionado ao grande ovo da Osterbaum, em 2022.

Quando o Bauernmalerei ganhou escala

O trabalho do ovo gigante foi desenvolvido por Rafaela em parceria com os artesãos Davi Gomes e Zélia Klöppel Rengel. O desafio não estava apenas na criação estética, mas também na necessidade de pensar a pintura de acordo com a estrutura da peça.

Como o ovo era dividido em partes, o desenho precisava ser planejado para que as flores e demais elementos da composição não fossem interrompidos de maneira inadequada nas emendas. Era necessário pensar nas proporções, nos encaixes e na continuidade do desenho.

“Esse daqui foi o maior desafio. Tanto pra mim, pro Davi, pra Zélia. Porque ele não foi só um estudo de flores, de estética. Ele foi de proporção ali. Então foi bem desafiador esse.”

O resultado se tornou uma das obras mais significativas para Rafaela, justamente porque ultrapassou o trabalho artesanal individual e passou a representar uma manifestação diretamente associada à identidade de Pomerode.

“Eu até me emociono, porque é uma técnica que representa Pomerode. Em 2022, a gente fez essa obra de arte aqui, que foi retratada no ovo gigante da Osterbaum. Então, o ovo gigante foi retratado em cima desse ovo aqui.”

A lembrança ajuda a explicar por que o possível reconhecimento do Bauernmalerei como patrimônio cultural tem um significado que vai além de uma classificação formal. Para quem pratica a técnica, trata-se de reconhecer uma expressão que já faz parte do cotidiano e da imagem que a cidade construiu ao longo dos anos.

“Além de ser a minha fonte de renda, é uma paixão”

Para Rafaela, o Bauernmalerei ocupa hoje dois espaços importantes: o profissional e o afetivo. A pintura é fonte de renda, mas não é encarada apenas como um trabalho.

A relação construída ao longo dos anos fez com que o ato de pintar se transformasse em uma atividade prazerosa. O tempo dedicado às peças não é percebido como sacrifício, mas como parte de uma rotina que ela escolheu e da qual gosta.

“Eu acho que quando a gente faz uma coisa, um trabalho que é com amor, ele deixa de ser trabalho. Então, o Bauer, além de ser a minha fonte de renda hoje, ele é uma paixão. Então, a gente senta para pintar e o tempo passa. Não é um sacrifício pintar, a gente gosta, faz como se fosse para a gente. Então, o Bauer para mim hoje, além de uma paixão, é a minha fonte de renda também.”

Foto: Isadora Brehmer / Jornal de Pomerode

 

É também nessa dimensão que a técnica ganha força como patrimônio. Uma tradição só permanece viva quando continua sendo praticada. E, no caso do Bauernmalerei, essa continuidade acontece justamente por meio de pessoas que transformaram o conhecimento em trabalho, aprendizado e produção cotidiana. Para Rafaela, o Bauernmalerei é uma parte da história de Pomerode.

“O Bauer, ele representa a cidade e a cultura alemã. Não só Pomerode, como o Médio Vale do Itajaí, cidades com colonização alemã, elas retratam e replicam o Bauer. Então, eu acho que reconhecer isso mostra que a gente está no caminho certo. A pintura, ela retrata, representa os nossos antepassados e assim como ela vira uma identidade da cidade também.”

Uma história que começou por necessidade

A trajetória de Iraci Spies com o Bauernmalerei começou de uma maneira diferente. Antes de conhecer a técnica, ela já acumulava mais de 20 anos de experiência com artesanato e pintura. Ao todo, são mais de quatro décadas ligadas ao trabalho artesanal.

Foi justamente a necessidade de aumentar a renda que a levou a fazer o curso oferecido em Pomerode. Na época, porém, havia um obstáculo: embora as aulas fossem gratuitas, era necessário ter materiais, como pincéis, tintas e peças.

A solução veio por meio de Izilda Alves, que ajudou Iraci a adquirir os materiais necessários para que ela pudesse participar.

Iraci Spiess. (Foto: Isadora Brehmer / Jornal de Pomerode)

 

“Primeiramente foi uma necessidade, porque tinha que ter uma renda maior. Eu trabalho com artesanato já há mais de 40 anos, com pintura. E essa Bauernmalerei apareceu assim e a Izilda me pediu se eu não queria fazer para aumentar a minha renda, a nossa renda na época. E eu disse que sim. E aí ela disse, então, vamos lá. Eu vou pagar tudo e você vai fazer.”

O que começou como uma alternativa para melhorar a renda familiar acabou se transformando em uma relação duradoura com a técnica.

Iraci não esconde que aprender foi difícil. Para ela, todas as etapas representaram desafios e, mesmo depois de anos de prática, a técnica continua exigindo atenção e dedicação.

“Todas. Toda técnica é desafiadora e é hoje ainda. Então, foi um desafio grande. Mas, desde então, eu nunca mais deixei de fazer. Eu amo fazer o Bauer e eu faço, assim, a pintura country e a livre, mas a Bauer é o meu principal”.

A fala revela um dos aspectos centrais do artesanato: o domínio da técnica não significa o fim do aprendizado. Mesmo depois de décadas de experiência, cada peça continua exigindo escolhas, cuidado e habilidade.

O ritmo de quem transforma o ateliê em casa

Hoje, Iraci gostaria de produzir mais. Ela conta que, aproximadamente uma década atrás, conseguia fazer quase o dobro de peças em relação ao que produz atualmente. O ritmo, porém, mudou com o passar dos anos.

Ainda assim, sua produção varia bastante. Dependendo do tamanho e da complexidade das peças, pode produzir duas, três ou até dez unidades.

O que não diminuiu foi a importância do trabalho em sua rotina. O artesanato continua ocupando boa parte dos seus dias e, principalmente, do seu espaço de vida.

Foto: Isadora Brehmer / Jornal de Pomerode

 

“Tudo. Eu não sei viver. Eu vivo aqui dentro desse quartinho meu, dentro desse ateliê, mais do que eu vivo dentro da minha casa. Aqui, eu estou o dia todo lá. Para lá, eu só vou para comer e dormir.”

A declaração sintetiza uma trajetória na qual o artesanato deixou de ser apenas uma atividade profissional. É um espaço de criação, convivência e pertencimento.

O artesanato como fonte de renda e como espaço de convivência

As histórias de Rafaela e Iraci também se conectam à criação e ao fortalecimento da Associação de Artesãos de Pomerode – Handgemacht, organização que se tornou um importante espaço para a comercialização e divulgação do trabalho artesanal produzido na cidade.

Iraci conhece de perto a importância de ter um ponto permanente para expor e comercializar suas peças. Para ela, a Handgemacht e a loja da Associação Pomerodense se Artesanato e Souvenirs (Apas) ocupam um lugar especial porque existe procura específica pelo Bauernmalerei.

“É muito importante. Principalmente a Handgemacht. Porque lá é muito procurado o Bauer. Na Handgemacht é muito, muito procurado o Bauernmalerei. Tanto da Rafaela, como do David, e minhas peças também. Eles até continuaram fazendo mais cursos depois. Fizeram mais cursos e fazem diferente da minha pintura.”

A fala também evidencia que, embora as artesãs trabalhem com a mesma técnica, cada uma desenvolve sua própria maneira de pintar. O conhecimento tradicional não produz necessariamente peças idênticas. Pelo contrário: a experiência, a escolha das cores, os desenhos e a forma de execução criam identidades próprias.

Iraci, por exemplo, conta que não teve a oportunidade de realizar novos cursos posteriormente, principalmente por causa dos custos. Hoje, prefere continuar desenvolvendo a pintura que já domina e coPara as artesãs, porém, a importância da técnica vai além do potencial turístico.

Rafaela vê o Bauernmalerei como uma representação da cultura alemã e dos antepassados. Iraci o enxerga como parte inseparável de sua própria vida.

Foto: Isadora Brehmer / Jornal de Pomerode

 

São perspectivas diferentes que ajudam a dimensionar o significado do trabalho artesanal. Para uma, o Bauernmalerei se tornou paixão e profissão depois de um curso realizado em 2010. Para outra, surgiu inicialmente como uma alternativa para aumentar a renda, mas permaneceu por décadas como atividade principal.

A técnica continua sendo praticada porque há pessoas que dedicam horas a ela. Continua sendo reconhecida porque existem peças que chegam às casas, lojas e espaços públicos. Continua sendo transmitida porque há artesãos dispostos a aprender, ensinar e aperfeiçoar o trabalho.

E continua representando Pomerode porque, como define Rafaela, a pintura é também uma maneira de retratar os antepassados e transformar essa herança em identidade.

É nesse gesto aparentemente simples que uma parte da história de Pomerode continua sendo contada.

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