Rompendo barreiras e realizando sonhos
Casal surdo realiza o sonho da casa própria e prova que não há limites para quem tem força de vontade
Muitos casais, ao decidirem seguir uma vida a dois, têm o sonho da casa própria, de ter um local que possa ser chamado de lar e onde será vivida a caminhada trilhada lado a lado. Michelle Klowaski e Ino Pucci faziam parte deste grupo, que sonhava em ter seu próprio “cantinho”, sonho este que foi realizado neste ano. A história pode parecer comum, mas representa uma vitória ainda maior, porque os dois fazem parte da estatística dos mais de 10 milhões de brasileiros que são surdos.
Michelle e Ino estão juntos há quase 15 anos e contam como se conheceram. “Ele era de Lages e se conheceram em um evento do grupo de surdos, realizado em Pomerode. Nos conhecemos nele e nos apaixonamos”, conta Michelle.
O sonho da casa própria, segundo o casal, existe desde o início do relacionamento, assim como acontece na história de vários outros casais. E, neste ano, eles conseguiram tornar real este desejo, terminando a construção do tão sonhado lar, há cerca de oito meses. O local foi comprado quando ainda estava em construção, então, Michelle e Ino finalizaram a obra, deixando a casa com a sua cara.
Mas para se chegar a esta conquista, foram necessários muito esforço e dedicação, principalmente, em seus trabalhos. Ino trabalha há anos na Netzsch do Brasil e Michelle começou a trabalhar, no início deste ano, na Villa Têxtil, ambos sempre buscando seu espaço e a permanência no mercado de trabalho.
“Foram 16 anos juntando dinheiro. Compramos primeiro o carro e, depois, conseguimos comprar a nossa casa. Precisamos juntar mais dinheiro para podermos dar uma entrada ao banco e, depois, pegar um empréstimo, para realizar este sonho. Foi necessária muita paciência para juntar o dinheiro e precisamos nos esforçar para conseguir, trabalhando muito para chegar a este sonho. E é ainda melhor, porque a nossa casa fca próxima à empresa onde trabalho”, afirma.
A casa é adaptada às necessidades do casal e tem a cara de Michelle e Ino. Uma das adaptações é a campainha, que é um modelo especial para quem é surdo ou tem alguma deficiência auditiva. Além do som mais alto, a campainha emite luzes coloridas, que facilitam na percepção do casal de que há alguém no portão da casa. Michelle e Ino compraram o modelo pela internet, e ele funciona à base de pilhas, podendo estar a uma distância de até 150 metros da campainha externa.

Casal tem uma campainha luminosa, que ajuda na percepção da chegada de um visitante. (Foto: Isadora Brehmer / Jornal de Pomerode)
Infelizmente, ainda há muitas barreiras a serem enfrentadas diariamente. A maior delas, segundo o casal é a comunicação. “Por exemplo, é muito difícil ir a lojas, farmácia e até mesmo no hospital, pois não conseguimos nos comunicar. Normalmente, são todos os lugares em que enfrentam esta mesma dificuldade”, comenta Pucci.
Michelle acrescenta que sempre é preciso ter alguém, um ouvinte, para acompanhar o casal ou um dos dois, para fazer a interpretação. A comunicação fica ainda mais prejudicada pela máscara, que, embora necessária, dificulta a conversa com uma pessoa surda, uma vez que a leitura labial faz parte da linguagem de sinais.
“Para que a inclusão das pessoas surdas melhore, é preciso, principalmente, que haja mais intérpretes e mais pessoas que saibam a Libras (Língua Brasileira de Sinais), para que nós, surdos, consigamos nos comunicar e nos integrar à sociedade”, enaltece Michelle.
Mesmo com as dificuldades impostas pela vida, Michelle e Ino não escondem a gratidão e a felicidade por cada pequena conquista. “Estamos muito satisfeitos e felizes com a nossa vida hoje. Somos contentes por termos trabalho, por meio dele, conseguimos realizar nossos sonhos, dia após dia”, ressalta Michelle.
O Dia do Surdo e a Libras
A comemoração foi instituída pela Lei nº 11.796 de 29 de outubro de 2008 e tem por meta marcar a data da criação da 1ª escola brasileira para surdos, que foi fundada em 26 de setembro de 1857, com o nome de Colégio Nacional para Surdos-Mudos, na cidade do Rio de Janeiro e que atualmente é conhecida por Instituto Nacional de Educação de Surdos.
A Língua Brasileira de Sinais, conhecida amplamente por Libras, é usada por milhões de brasileiros surdos e, também, ouvintes. De acordo com o IBGE, há mais de dez milhões de pessoas com alguma deficiência auditiva no Brasil. A educação de surdos no país – que resultou na criação da Libras – remonta à instalação da primeira escola para surdos no século XIX.
O desenvolvimento de políticas de inclusão para a comunidade surda fez com que, em 2002, a Libras fosse reconhecida como língua oficial, durante o governo de Fernando Henrique Cardoso, pela Lei nº 10.436. Isso foi resultado de ampla mobilização da comunidade surda na luta pela ampliação de seus direitos.
Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o Brasil tem 5% da população brasileira surda. O IBGE também aponta que esta parcela corresponde a mais de 10 milhões de cidadãos, dos quais, 2,7 milhões possuem surdez profunda, e, por isso, não escutam absolutamente nada.
Um estudo feito em conjunto pelo Instituto Locomotiva e a Semana da Acessibilidade Surda revela que a surdez atinge 54% de homens e 46% de mulheres. A predominância é na faixa de 60 anos de idade ou mais (57%). Nove por cento das pessoas com deficiência auditiva nasceram com essa condição e 91% adquiriram ao longo da vida, sendo que metade foi antes dos 50 anos. Entre os que apresentam deficiência auditiva severa, 15% já nasceram surdos. Do total pesquisado, 87% não usam aparelhos auditivos.
