Saúde

“Pulmão de pipoca”: doença grave associada ao cigarro eletrônico

Pneumologista explica no que consiste o problema e como exige atenção, especialmente com os jovens

18 de dezembro de 2025

Foto: Envato Elements

O nome pode até soar inofensivo, mas o chamado “pulmão de pipoca” está longe de ser uma brincadeira. Trata-se de uma doença pulmonar rara, grave e irreversível, que tem preocupado médicos e especialistas em todo o mundo, especialmente com o avanço do uso dos cigarros eletrônicos, muito populares entre os jovens.

De acordo com o pneumologista Dr. Eckart Liesenberg, o “pulmão de pipoca” é o nome popular da bronquiolite obliterante, uma inflamação que atinge os bronquíolos as menores vias respiratórias e causa o estreitamento progressivo dessas estruturas. “Com o tempo, os bronquíolos se cicatrizam e o ar passa a ter mais dificuldade para circular dentro dos pulmões, o que compromete a respiração”, explica o médico.

Origem curiosa, consequências sérias

O termo “pulmão de pipoca” surgiu no início dos anos 2000, nos Estados Unidos, quando trabalhadores de fábricas de pipoca de micro-ondas começaram a apresentar sintomas respiratórios graves. Após investigações, descobriu-se que eles haviam inalado por longos períodos o diacetil, uma substância usada para dar sabor amanteigado ao produto. O composto químico provocou inflamações severas nas vias respiratórias, levando à perda irreversível da função pulmonar em muitos casos.

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“O nome acabou pegando justamente por causa dessa relação com as fábricas de pipoca, mas a doença é, na verdade, uma forma muito agressiva de bronquiolite”, explica o Dr. Liesenberg. “Hoje sabemos que o diacetil e substâncias semelhantes estão presentes também em outros produtos, inclusive em alguns líquidos usados nos cigarros eletrônicos.”

A ligação com os cigarros eletrônicos

Segundo o médico, essa é a principal preocupação atual. “Muitos líquidos usados nos cigarros eletrônicos contêm diacetil, acetil-propionil e acetoin, que são substâncias químicas usadas para dar sabor adocicado ao vapor. Além disso, o aquecimento do líquido libera formaldeído, acroleína e metais pesados, todos tóxicos para o sistema respiratório”, afirma.

O uso frequente e prolongado desses dispositivos pode causar o mesmo tipo de lesão que afetou os trabalhadores das fábricas norte-americanas há duas décadas. “O vapor inalado agride os bronquíolos, gerando inflamação e, mais tarde, cicatrizes. Com isso, o pulmão perde sua elasticidade natural e a capacidade de expandir e contrair adequadamente”, explica Liesenberg.

Sintomas e diagnóstico

Os sintomas da bronquiolite obliterante podem se confundir com os de doenças respiratórias comuns, como asma ou bronquite crônica. Entre eles estão tosse seca persistente, chiado no peito, falta de ar e cansaço ao realizar esforços. No entanto, há uma diferença importante: “Nesse caso, os sintomas não melhoram com o uso de broncodilatadores ou inaladores comuns, como o salbutamol”, alerta o especialista.

A doença costuma se desenvolver de forma lenta e silenciosa, o que dificulta o diagnóstico precoce. “As primeiras lesões nos bronquíolos ocorrem sem que o paciente perceba. Quando os sintomas aparecem, é sinal de que o quadro já está avançado. Quanto mais tarde o diagnóstico, mais difícil é controlar a progressão”, afirma o pneumologista.

Dr. Eckart Liesenberg. (Foto: Arquivo pessoal)

 

Para identificar a doença, os médicos recorrem a exames como espirometria, que mede a capacidade pulmonar e indica a presença de obstruções, além da tomografia de tórax e, em alguns casos, biópsia pulmonar, para confirmar o diagnóstico e avaliar o grau de comprometimento dos pulmões.

Sem cura, mas com controle

Infelizmente, o “pulmão de pipoca” não tem cura. “As cicatrizes formadas nos bronquíolos são permanentes. O tratamento serve para estabilizar o quadro, aliviar os sintomas e impedir que o dano continue avançando”, explica o Dr. Liesenberg.

O primeiro passo é interromper a exposição à substância causadora da doença, o que, no caso dos cigarros eletrônicos, significa parar imediatamente o uso. Em algumas situações, o tratamento inclui o uso de corticoides e imunossupressores, sempre sob orientação médica, para reduzir a inflamação. “A recuperação completa é rara, mas é possível manter uma boa qualidade de vida com acompanhamento e controle adequado”, reforça o pneumologista.

Jovens em risco

O alerta é ainda maior para adolescentes e jovens adultos. “O pulmão dos adolescentes ainda está em fase de desenvolvimento e é mais sensível às substâncias tóxicas. Como o cigarro eletrônico é frequentemente usado de forma contínua, muitas vezes com líquidos de origem desconhecida, o risco de dano pulmonar é maior. Já temos relatos de jovens com sintomas respiratórios graves por causa disso.”

De acordo com o especialista, um dos grandes desafios é combater a falsa ideia de que o cigarro eletrônico seria uma alternativa mais segura ao cigarro comum. “Essa é uma ideia perigosa. O cigarro eletrônico pode até conter menos nicotina em alguns casos, mas isso não o torna inofensivo. Ele contém uma mistura de produtos químicos, solventes e metais que jamais deveriam ser inalados”, adverte.

Prevenção e conscientização

A melhor forma de prevenir o “pulmão de pipoca” é evitar o contato com substâncias irritantes e tóxicas, incluindo o vapor dos cigarros eletrônicos. “O ideal é não começar. E, para quem já começou, procurar ajuda médica para interromper o uso o quanto antes. O pulmão é um órgão extremamente sensível, e uma vez danificado, é muito difícil recuperar sua função plena”, destaca o Dr. Eckart Liesenberg.

Para o pneumologista, o tema deve ser tratado como questão de saúde pública, especialmente em escolas e entre jovens.

“Precisamos de mais informação, mais diálogo e menos propaganda enganosa. O cigarro eletrônico não é seguro, e o ‘pulmão de pipoca’ é uma prova disso. Estamos falando de uma doença que pode mudar completamente a vida de uma pessoa e que pode ser evitada”, conclui.

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