Especiais

Preparando o responsável por guiar passos, no futuro

Voluntários de Pomerode realizam socialização de futuro cão-guia

30 de agosto de 2023

Foto: Isadora Brehmer / Jornal de Pomerode

Auxiliar em uma das funções mais nobres que os animais podem ter, ao lado dos humanos. Este é o objetivo dos voluntários de socialização de cães-guias, que contribuem para a formação dos animais que ajudarão pessoas cegas a terem autonomia ao se deslocaram no dia a dia.

Em Pomerode, há um casal que decidiu se dedicar a esta tarefa. Haiana Hornburg Rusch e Leonardo Borchardt são voluntários socializadores para a formação de cães-guias e, hoje, são tutores do Krass, um cão da Escola de Cães-Guias Helen Keller. O objetivo dos voluntários socializadores é acostumar o cão com sua rotina e testar suas habilidades, sendo a primeira etapa de seu treinamento.

Segundo a Escola, a fase de socialização começa quando o cão chega à idade de dois a três meses. No caso do Krass, Haiana e Leonardo se tornaram responsáveis por ele a partir de seus oito meses de vida, pois foi necessária uma troca de tutores. O Krass está com o casal desde o início do mês de março.

A voluntária de socialização comenta que, logo na chegada do Krass, o seu treinador entregou uma cartilha com regras referentes à socialização, como alimentação, comportamento, banhos, ao dia a dia em geral. Também recebeu uma série de regras a serem seguidas no período de socialização, que irão prepará-lo para o posterior treinamento técnico e para sua função como cão-guia, em geral.

“Por exemplo, o Krass não pode chorar por ficar sozinho, então a regra para dormir é ficar em sua caixa de transporte. Ele também não pode pular nas pessoas ou subir em sofás e camas. Segundo o treinador, ele deve entender, desde cedo, que tem o seu local para dormir. Quando ele chegou, já conhecia comandos como ‘senta’ ou ‘fica’, mas precisou aprender alguns outros e nós deveríamos ensinar”, explica Haiana.

Haiana e Leonardo, com o cão Krass. (Foto: Isadora Brehmer / Jornal de Pomerode)

 

Como Krass é um dos cães integrantes da Escola Helen Keller, é a instituição que fica responsável por todo o curso de formação dele, inclusive com atenção à saúde e banho e tosa. Vermífugos e vacinas são oferecidos pela Escola, por meio de parceiros que podem ser procurados pelos voluntários, quando necessário.

Em relação à higiene, o banho pode ser dado pelos tutores em casa ou ele pode ser levado à escola, a cada 14 dias, sendo que na instituição também são os tutores os responsáveis pelo banho, já que também é um momento de socialização. A escovação do pelo também é importante e pode ser feita quase diariamente.

“Basicamente o nosso serviço, como socializador, é apresentar o cão ao mundo, para que ele vivencie o maior número possível de experiências, vivências, nos mais diversos locais, para quando tiver com a pessoa cega não se assustar se comportar bem ao ter contato com pessoas estranhas. Estamos atuando como socializadores em casal, mas o Krass fica a maior parte do tempo comigo”, afirma a voluntária socializadora.

Um ponto muito importante na rotina de socialização é o uso do colete que o identifica como um “aprendiz de cão-guia”.

Durante esta fase de introdução à sociedade, Krass deve usar o colete em situações cotidianas e, neste período, deve seguir comandos e regras determinados pelos tutores, inclusive evitando contato próximo e direto com outras pessoas.

“Enquanto está de colete, ele precisa entender que está trabalhando, se tirarmos o colete, ele pode brincar, receber carinho das pessoas, por exemplo. No entanto, se está a trabalho não pode se distrair e nem mesmo aceitar e receber carinho de outras pessoas. Outro ponto importante é quanto ao chamado. Devemos fazer isso apenas com o nome dele, com o comando ‘vem’ ou com um apito específico. Não podemos fazer sons como assovios, por exemplo, que outras pessoas podem usar e, assim, distraí-lo durante o tempo em que estiver guiando uma pessoa cega. Isso é feito para que ele aprenda a diferenciar o que é um chamado e o que é um som que deve ignorar”, ressalta Haiana.

Haiana possui carteirinha que identifica um aprendiz de cão-guia. (Foto: Isadora Brehmer / JP)

 

O companheiro de Haiana, Leonardo, que também atua como socializador voluntário, destaca que é fundamental observar cada comportamento do cão. “Sempre estamos atentos aos comportamentos dele, repassando ao treinador quando algo diferente acontece, para que ele nos oriente. No início, por exemplo, ele tentava montar em nossa outra cachorra e levantar a perna para urinar, algo que ele não pode fazer”, comenta.

Além dos aprendizados em casa, de comandos e comportamentos, a socialização externa, nos mais diversos ambientes, é fundamental para a formação. Por isso, Krass acompanha Haiana ou o casal em todos os lugares, como cinema, lojas, repartições públicas, restaurantes, praças de alimentação e eventos, por exemplo, com a carteirinha de identificação de cão-guia em treinamento.

“Também temos os momentos de lazer com o Krass, com ele sem o colete, para que se divirta, relaxe e faça coisas que todo cão deve fazer. Este equilíbrio é importante para o bem-estar dele”, complementa Haiana.

 

Desafios da socialização

Haiana reflete que um dos maiores desafios em promover a socialização é a falta de conhecimento da comunidade, em geral, com relação ao cão-guia, como identifica-lo e a autorização para que frequentem os mais diversos ambientes.

“E também as pessoas entenderem que ele está em aprendizado e que não pode se distrair quando está com o colete, ou seja precisamos negar que peguem e interajam com ele durante este período. Perder o foco durante seu ‘trabalho’ é algo que não pode acontecer quando estiver em serviço com uma pessoa cega. Por isso, negar quando alguém pede para fazer carinho ou interagir com ele é algo necessário, embora pareça um pouco chato. Mas é pensando no futuro, para quando acompanhar uma pessoa cega, possa fazer esta função com segurança”, enaltece.

Krass completa um ano de vida em 08 de julho e deve ficar com os voluntários até chegar aos 15 a 18 meses de vida, dependendo da evolução da socialização. Completado este período, o cão volta à escola, passa por uma avaliação que verifica se está apto a ser um cão-guia e passar pelo treinamento, e depois passa à fase de treinamento técnico, que dura seis meses.

 

Orgulho é palavra que define relação

O casal de socializadores voluntários também afirma que já receberam muitas perguntas com relação ao apego ao Krass e como será quando precisarem se despedir dele, para que o cão retorne ao treinamento na escola.

“Nossa resposta é que, mesmo ele sendo praticamente um filho, nosso amor por ele não é baseado no apego. É realmente como se estivéssemos criando um filho e a próxima etapa é deixa-lo ir para a faculdade e para a vida. Ele será os olhos de uma pessoa e será um companheiro ótimo para alguém que precisa dele. Daremos todo o amor do mundo e continuaremos amando quando estiver em outro lugar, mas sabendo do bem que ele fará, o orgulho é muito maior”, frisam Haiana e Leonardo.

A voluntária também destaca uma frase que recebeu de outra socializadora: “No coração de todo o cão guia bate o coração de um socializador”, e que esta afirmação resume bem o sentimento em fazer parte de algo tão significativo.
“Levaremos ele por toda a vida, mas é muito gratificante saber a importância do que ele fará, de que será amado por outra pessoa. Apesar de nosso amor pelo Krass, será muito gratificante se ele conseguir se tornar um cão-guia e passar em todos os testes, e mais especial ainda será vê-lo guiando uma pessoa”, garantem.

 

Cadastro para ser um voluntário

Para quem gostou da ideia e se sentiu chamado para a tarefa de ser um voluntário socializador, as informações podem ser encontradas no site da Escola Helen Keller.

Ao fazer o cadastro, o interessado já poderá ver algumas das exigências, como ter um ambiente seguro e cercado para a vivência do cão, se há outros animais e como é o comportamento deles, entre outros questionamentos que farão a avaliação do possível voluntário.

“Hoje a maior dificuldade da escola é conseguir famílias que recebam o cão para socialização. Pois é uma tarefa que exige dedicação, disciplina às regras e disponibilidade para viver as experiências que o cão precisa, inclusive com convivência e atenção. Por exemplo, se vamos viajar, o Krass vai conosco, pois é um compromisso que assumimos e isso é importante ter em mente”, afirmam Haiana e Leonardo.

 

A sequência do treinamento

Conforme explicado, o futuro cão-guia passa por um período de socialização com início em dois ou três meses de vida, até 15 ou 18 meses, dependendo do seu amadurecimento na fase de socialização.

Depois disso, é feita uma avaliação do cão, se ele está apto a ser treinado e a ser um cão-guia, de fato. Caso ele seja aprovado nesta primeira avaliação, o cachorro segue para o treinamento técnico, que levará em torno de seis meses.
O treinador Renan Silveira Ewald, da Escola Helen Keller, explica que este treinamento técnico engloba uma série de habilidades e comandos;

“Trabalhamos comandos direcionais (esquerda, direita, pare, volte, em frente, etc.), comandos específicos, tais como, procurar uma escada, uma porta, uma saída, um toalete, um assento, um carro, uma lixeira, faixa de pedestre, um ponto de ônibus. Parar ou desviar de obstáculos aéreos ou em solo, no qual o cão toma esta decisão. Tudo isso traz a segurança para o usuário no trânsito, parando quando existe perigo”, explica Ewald.

Concluída a parte técnica, de comandos e preparo do cão, a próxima etapa fica a cargo do Instrutor de Cão Guia, que, inicialmente, analisa o candidato, ou seja, a pessoa que precisa de um cão-guia. Nesta etapa, são analisados aspectos como caminhada, estilo de vida, vínculo que pode criar com o cão, temperamento, e então escolhe um cão com o perfil desta pessoa.

“A partir daí o candidato fica em um apartamento da Escola, junto ao cão, para uma fase de adaptação. Este período é de três semanas, nas quais o cego e o cão ficam imersos em treinamentos diários e aulas teóricas sobre comandos, onde se constrói o principal, que é a relação sadia entre eles. Com isso, começam a trabalhar na rua e mais duas semanas in loco realizando atividades de rotina, como por exemplo uma ida ao mercado, à igreja, uma atividade de lazer, entre outras”, enumera o treinador.

 

A Escola de Cães-Guias Helen Keller

Fundada em 08 de julho de 2023, a Escola de Cães-Guias Helen Keller é a primeira escola de cães-guia do Brasil e a única escola da América do Sul certificada pela IGDF – Internacional Guide Dog Federation. Ao longo de 23 anos, a instituição já formou cerca de 60 cães-guias, da raça Retriever Labrador, a escolhida pela Escola, pela capacidade de aprender e pela aptidão de servir que estes cães têm. A sede fica em Balneário Camboriú e a instituição atende um raio de 200km, a partir daí.

Ao todo, são necessários cerca de dois anos e meio de trabalho para formar um cão-guia e a presidente da Escola, Elis Busanello, enaltece que, mesmo identificando nos exames prévios algum motivo que impeça o cão de seguir a carreira, seja ele comportamental, ou técnico ou físico, o cão terá aptidão para seguir outra carreira.

“Entendemos que temos uma missão nobre, um legado do fundador, o filantropo Dr. Augusto Luiz Gonzaga. A transformação na vida da pessoa cega e, na vida de outras pessoas e famílias que são beneficiadas pela presença dos cães de assistência, compensa todo o esforço de manter a escola, e de ampliar o programa para ter mais cães trabalhando em hospitais, em escolas especiais, em lares de idosos, em creches e escolas regulares e, acompanhando autistas”, destaca.

Inclusive, há um cão que foi graduado, cumprindo todas habilidades e responsabilidades de um cão guia, mas por um leve problema físico, não pode seguir como cão guia. E hoje ele faz parceria com um jovem garoto que tem um leve grau de autismo, em Pomerode.

Notícias relacionadas