Saúde

Por que o fim e o início do ano mexem tanto com nossa mente? Psicóloga de Pomerode explica

Entenda por que essa época movimenta emoções tão variadas e como cuidar da saúde mental nesse momento.

11 de janeiro de 2026

Foto: Arquivo pessoal / Envato Elements

Durante a transição do antigo para o novo anoPesquisas apontam que, sim, o fim do ano e o início de um novo ciclo podem gerar uma sobrecarga emocional significativa. , surge uma sensação ambígua: alegria pelo que virá, inquietude pelo que ficou para trás, pressão para celebrar. É comum que, nesse período de transição, algumas emoções e pensamentos “apareçam” de formas mais intensas — e não é apenas questão de gostarmos ou não das festas. Pesquisas apontam que, sim, o fim do ano e o início de um novo ciclo podem gerar uma sobrecarga emocional significativa. Por exemplo: segundo a American Psychological Association, cerca de 89 % das pessoas dizem que se preocupam com dinheiro, pessoas queridas que estão faltando ou conflitos familiares nesse período festivo.

Há ainda dados mais específicos: reflexões sobre o ano que se encerra; frustrações com metas não alcançadas; o ritmo social e festivo que acelera. Estes fatores, combinados, tornam esse momento emocionalmente complexo, tanto para quem está bem quanto para quem vive já alguma vulnerabilidade.

Conheça a profissional

A entrevistada para esta matéria é a psicóloga Victória Baumann, de 24 anos, que atua em Pomerode há quase dois anos, com atendimentos clínicos na clínica MultiTherapy.

Antes, trabalhou com instituições educacionais no município. Sua abordagem é a da teoria cognitivo-comportamental, na qual analisa como nossos pensamentos e emoções se relacionam e geram comportamentos, sempre com acolhimento afetivo e a ressignificação como parte da transformação pessoal.

Por que o fim de ciclo intensifica as emoções

Victória aponta que “o final de ano é visto como o fim de um ciclo, o que pode gerar sentimentos conflitantes. Finais de ciclo podem resultar em mudanças, novos desafios ou o desejo de recomeçar, de modo que muitos podem se sentir animados diante destas expectativas, ou então se sentirem temerosos por estas possibilidades. Novidades podem ser motivo de comemoração, mas também causam inseguranças diante deste caminho que irá se iniciar, mesmo para aqueles que costumam se organizar e planejar, a vida tem o costume de surpreender.”

Quais sentimentos costumam surgir?

Entre os mais comuns, conforme Victória: ansiedade, angústia, frustração, previsivelmente junto com alguma expectativa de alegria ou renovação.

Ela afirma: “É comum ouvir relatos de maior ansiedade nessa época de festividades, tanto pelo ritmo mais agitado que a maioria das pessoas pode vir a enfrentar, como pela angústia frente a um novo ano, ainda desconhecido.

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Culturalmente, espera-se que o ano novo traga mudanças para a vida, e nos vemos pressionados a nos planejarmos e definirmos novos objetivos, para não sentir que estamos ‘repetindo o mesmo ciclo’. A angústia também pode surgir devido à análise deste ano que está por acabar, percebendo que gostaríamos de ter tomado outras decisões ou concluído metas que ainda não foram alcançadas, o que pode causar desesperança ou frustração. Essas sensações se explicam também quando olhamos para pesquisas: reflexões sobre o ano que passou e expectativas para o futuro ativam um tipo de “balanceamento emocional” — nem só alegria, nem só tristeza, mas uma mistura — e, segundo especialistas, isso pode gerar ruminação — ficar pensando repetidamente em “eu devia ter feito isso” ou “eu preciso começar aquilo”.

O impacto das expectativas sociais, familiares e das redes

Victória chama atenção para as pressões externas e internas: “As expectativas sociais podem surgirdentro de diversos espectros, tanto dentro do ambiente familiar e de trabalho, como a partir das redes sociais. Muito é compartilhado sobre as comemorações entre família, amigos, viagens e passeios nesta época do ano, o que faz com que muitas pessoas comparem sua realidade com aquilo que é exposto pelas telas, sentindo-se aflitas ou descontentes.

Expectativas podem ser impostas por parentes, pelo contexto social e, inclusive, por nós mesmos, portanto é essencial avaliar de que modo estabelecemos nossas prioridades e definimos o que é realmente importante para nós.”
É uma verdade que o “ideal de celebração” circula muito. Quando nos sentimos desalinhados — por exemplo, se não temos como viajar ou se não conseguimos estar com toda a família — pode surgir um sentimento de “não estar à altura”, que compõe o desgaste emocional desse período.

Solidão, conflitos familiares e momentos difíceis: como lidar

Para quem enfrenta luto, distância, ou relações familiares complexas, Victória sugere estratégias práticas: “reconheça e valide suas emoções, evitando autocríticas por não se sentir bem nesta época. Procure priorizar atividades que sejam importantes para você e use o tempo disponível para lazer e descanso, visto que é comum o sentimento de sobrecarga após o ano completo.”

“Se momentos em família tendem a gerar conflitos, defina um tempo de permanência nestes eventos e tópicos que não deverão ser discutidos, estabelecendo limites que preservem sua saúde emocional. E, lembre-se, a família não é a única rede de apoio possível, muitas pessoas podem passar esta época longe de parentes, mas contam com a presença de vizinhos, amigos e colegas, vinculando-se a outros grupos sociais de companhia”, acrescenta a psicóloga.

Para quem está em luto: “Os eventos festivos podem trazer uma carga emocional forte para pessoas que estão enfrentando uma perda ou questões conflituosas, então procure estabelecer prioridades, não deixe de fazer aquilo que tenha sentido para você nestas datas, mesmo que não sejam rituais que você costumava ter em anos anteriores. Manter antigas tradições pode se tornar desconfortável, de modo que, se necessário, crie rituais.… E este momento de aflição não irá definir o ano que está por vir.”

A cobrança de metas não cumpridas

Outro tema forte é esse: “não fechei tudo”, “vou começar de novo”, “preciso me reinventar”. Victória explica: “Entenda que nunca é tarde para começar, só porque não foi possível realizar algumas metas dentro do prazo que foi idealizado, não quer dizer que elas perderam a importância. Reflita: estas metas que criei foram baseadas na minha realidade, ou foram influenciadas pelo que vejo que outras pessoas estão alcançando? Não use parâmetros irreais, tenha em mente que você deve ser flexível. Não estabeleça prazos rígidos para seus objetivos, a vida acontece sem conseguirmos nos planejar para tudo, e precisamos nos preparar para eventualmente mudar de rota. Caso não seja possível cumprir com tudo o que foi idealizado, esteja aberto a reavaliar no futuro se as metas que você havia estabelecido ainda fazem sentido com sua vida atual. É preciso reconhecer que muitas metas foram impostas por nós mesmos, de modo que a pessoa responsável por aliviar a pressão desta cobrança somos nós, é preciso autocompaixão e reconhecer aquilo que já foi possível realizar e conquistar.”

Como identificar quando a ansiedade deixa de ser “normal”

Victória ressalta: “A ansiedade pode trazer vários prejuízos emocionais e, inclusive, sociais. Perceba como essa ansiedade tem se manifestado em sua vida, ela tem impedido que você tenha momentos de lazer, tem prejudicado sua rotina, seu sono, alimentação e disposição física? Se a resposta for afirmativa, é preciso reavaliar como você tem vivido este período, se você tem antecipado preocupações ou se tem procurado ser resolutivo, estando aberto a procurar ajuda.”

Práticas de autocuidado

Para navegar este período com mais equilíbrio, segue uma “caixa de ferramentas” prática, inspirada nos apontamentos da Victória e por estudos de bem-estarmos:

– Desconecte-se das redes sociais por períodos, para evitar comparações automáticas e ruminativas.
– Inclua atividades manuais ou criativas: desenho, pintura, escrita terapêutica — práticas que ajudam a manter o foco no presente e a liberar tensões.
– Preserve a rotina de sono e alimentação: alterações no ritmo favorecem maior vulnerabilidade emocional.
– Reflita sobre suas metas: quais foram escolhidas por você, quais foram impostas? O que ainda faz sentido?
– Estabeleça limites claros: para visitas, festas, “obrigação de estar feliz”. Reconheça que descansar também é legítimo.
– Permita-se sentir aquilo que vier: alegria, cansaço, tristeza, alívio — não critique seus sentimentos.
– Reforce sua rede: amigos, vizinhos, grupos de companhia. A “família” pode se estender além do laço sanguíneo.

Se os sintomas se intensificarem, busque ajuda: “Psicoterapia não serve apenas para ‘apagar incêndios’, mas para proporcionar autoconhecimento, auxiliar no desenvolvimento pessoal e nos ajudar a definir caminhos que sejam autênticos e alinhados aos nossos princípios e valores”, explica Victória.

“Tenha paciência consigo mesmo. Boa parte da pressão que você sente pode ser fruto de sua autocrítica e do desejo de atender a expectativas alheias. Apesar de toda a carga emocional que este período pode trazer, a vida vai continuar seguindo seu ritmo. Tente se afastar um pouco dos pensamentos e idealizações, e aproxime-se mais da realidade. Lembre-se, essa angústia não vai durar para sempre, respeite esse processo e tenha autocompaixão, busque por companhias leves, mas também se torne uma companhia agradável a si mesmo. Encare um novo ano como o começo de novas possibilidades, mas que não apagam aquilo que foi conquistado por você até agora. Reconheça sua história e seu mérito de concluir mais este ciclo de vida, e não tenha medo de pedir ajuda ou compartilhar o que você vem passando com outras pessoas, permita-se ser acolhido”, finaliza a psicóloga.

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