Pequena leoa: a história de Cecília, bebê moradora de Pomerode, após 235 dias no hospital
História de fé, força e união familiar marca o retorno da bebê prematura e de sua mãe, a jornalista Chirlei Kohls, após quase oito meses de internação em Joinville
Fotos: Arquivo pessoal
O fim do ano de 2025 ficará para sempre registrado na memória da família Kohls e de toda a comunidade de Pomerode. Depois de 235 dias internada na UTI do Hospital Infantil Dr. Jeser Amarante Faria, em Joinville, a pequena Cecília, carinhosamente chamada de “pequena leoa”, finalmente foi para casa nos braços da mãe, a jornalista Chirlei Kohls.
O retorno das duas foi marcado por cenas de forte emoção. Familiares, amigos, padrinhos, vizinhos e até pessoas que acompanharam a história pela internet se reuniram na rua para recepcioná-las com música de gaita e violão, cartazes coloridos, balões e uma grande faixa que abria caminho para a ambulância: “Bem-vindas, nossas guerreiras, Chirlei e Cecília”.

Fotos: Equipe JP

Um início de vida marcado por desafios
Cecília nasceu no dia 14 de abril, à 00h14min, com 1,985 kg e 44 cm, prematura de 32 semanas e seis dias, após um parto natural. Minutos depois, já começou a batalha pela sobrevivência.
Com apenas dois dias de vida, foi submetida a uma cirurgia de alta complexidade para corrigir uma hérnia cardiofragmática condição grave e rara, que afeta a região entre o coração e o diafragma. A bebê também enfrentou uma infecção hospitalar generalizada, pneumonia bacteriana, uma parada cardíaca e várias intercorrências ao longo dos meses de internação.
A cada boletim e a cada susto, a família se apoiava na fé. Chirlei, diariamente, enfrentava longas jornadas no hospital, dividida entre o puerpério, a angústia, a esperança e a força para seguir.
“Pequena leoa”: a força que inspirou centenas de pessoas
Ao longo dos meses, Chirlei transformou a rotina de hospital em relatos emocionantes publicados nas redes sociais, onde passou a se referir à filha como “pequena leoa” pela coragem demonstrada nos momentos mais difíceis.
Na chegada em casa, Chirlei leu uma mensagem de agradecimento destinada tanto aos familiares quanto aos profissionais de saúde. O texto, escrito como se fosse pela própria Cecília, tornou o momento ainda mais emocionante.
“Vocês me salvaram de tantas formas nesses quase oito meses de internação (…) Se eu conseguir vencer a prematuridade, uma cirurgia de alta complexidade, uma infecção generalizada, uma parada cardíaca e tantos outros desafios, é porque Deus colocou vocês nas nossas vidas.” As palavras arrancaram lágrimas de quem acompanhou a luta da mãe e da filha desde o início.
Ainda em nome da pequena Cecília, Chirlei escreveu: “Muitas vezes, o dia de hoje parecia distante, e muitas vezes sentimos medo, mas sempre transformamos o medo em esperança e a dor em ainda mais amor. E sempre, sempre, mantivemos a nossa fé, a cada boletim médico, a cada visita […]. Minha mamãe diz que eu sou uma pequena leoa, muito forte, corajosa e amada. Muito obrigada por todo o amor e cuidado comigo e com a minha mamãe”.
E, ao receber a notícia de que Cecília passaria o Natal em casa, a família viveu outro momento marcante. A tia e madrinha, Cheila Kohls, lembra exatamente onde estava.

Chirlei (a segunda da direita para a esquerda), com a família. (Foto: Tatiane Hansen / JP)
A Chirlei nos mandou uma mensagem chorando de alegria. Eu estava dirigindo e precisei parar o carro. Choramos juntas, porque sempre oramos muito por esse momento. Eu imaginava a Cecília finalmente deitadinha no quartinho que já estava preparado em Pomerode.”
Uma homenagem digna de um capítulo final feliz
A ideia inicial era recepcionar mãe e filha na porta do hospital. Mas a logística seria difícil, e a homenagem talvez passasse rápido demais. Foi então que Cheila, a mãe dela e as madrinhas da bebê decidiram organizar uma recepção em Pomerode.
Com o passar dos dias, a ideia ganhou forças. “As pessoas começaram a procurar a gente querendo ajudar, doar presentes, participar. Tudo foi feito com muito carinho e leveza, sempre pensando primeiro na segurança da Cecília, mantendo distanciamento.”

Familiares e amigos com cartazes especialmente confeccionados. (Foto: Tatiane Hansen / JP)
Quando chegaram antes da ambulância, a família se emocionou com a quantidade de pessoas na rua. Chirlei, sem desconfiar de nada, chorou ao ver a homenagem. Dezenas de pessoas se reuniram com cartazes trazendo mensagens de carinho e fotos da “pequena leoa”, com balões brancos e músicas de gratidão e fé.
Ao mesmo tempo, em Joinville, profissionais do hospital prepararam um corredor de carinho para a despedida da bebê, com balões, aplausos e lágrimas de comemoração.
Uma história também de acolhimento: a segunda família que surgiu no caminho
Durante toda a internação, Chirlei precisou permanecer em Joinville. E foi aí que a assistente social Mariana Fonseca, mineira moradora da cidade, entrou na história.
Ela acolheu Chirlei em sua casa por quase três meses de forma integral e continuou oferecendo apoio semanal até a alta final.
“Quando abrimos a porta de casa para a Chirlei, abrimos também o coração para a história delas. Ela vivia o puerpério na nossa casa, lidando com todos os desafios de saúde da Ceci. Seria impossível não se envolver.”
Mariana e o marido mobilizaram amigos e familiares de diferentes estados, criando uma rede de oração por mãe e filha. “Nós sonhamos com esse dia junto com ela. É uma alegria indescritível vê-las voltando para casa.”
Um desfecho compartilhado com toda a comunidade
A emoção pela vitória de Cecília ultrapassou as paredes do hospital e os limites da família. Vizinhos, amigos, colegas de trabalho, conhecidos e desconhecidos formaram uma rede de apoio que atravessou meses de boletins médicos, orações e mensagens de carinho. Cheila resume esse sentimento coletivo:
“Foram dias cansativos e de muita preocupação. Ver a Chirlei tantas vezes sem conseguir dormir doía muito na gente. Agora, ter as duas em casa enche nosso coração de paz. Agradecemos muito à comunidade, aos e vizinhos que doaram alimentos e lembranças para um café destinado aos profissionais de saúde que cuidaram de Cecília. Eles amaram e nos deixa ainda mais felizes poder ter feito este gesto de gratidão”, conta.
Uma história sobre fé, força e amor comunitário
O retorno de Cecília e Chirlei não marca apenas o final de uma longa internação. Marca o início de uma nova etapa, a adaptação em casa, o acompanhamento médico e uma nova vida que, para a família, já é um testemunho de milagres. “Chirlei e Cecília são um plano perfeito de Deus. A história delas aumentou nossa fé,” diz Mariana.
E, para a família, Cecília seguirá sendo a pequena leoa que venceu batalhas que muitos adultos jamais imaginariam enfrentar. Uma menina cuja chegada em casa fez uma cidade inteira respirar aliviada e celebra