Especiais

O sucesso da descentralização chinesa – Artigo

Na segunda metade do Século 19, o advogado francês Alexis de Tocqueville percorreu os países das três Américas. Como resultado das suas observações, publicou a obra clássica “A Democracia na América”, onde prevê, com grande clareza, que os Estados Unidos seriam uma grande potência mundial porque adotara um sistema descentralizado…

19 de dezembro de 2012

Na segunda metade do Século 19, o advogado francês Alexis de Tocqueville percorreu os países das três Américas. Como resultado das suas observações, publicou a obra clássica “A Democracia na América”, onde prevê, com grande clareza, que os Estados Unidos seriam uma grande potência mundial porque adotara um sistema descentralizado de governo. Por outro lado, ao optar pelo modelo de gestão imperial, centralizada, o Brasil sofreria atraso no seu desenvolvimento.
Para ele, descentralização administrativa é o caminho do avanço na direção da prosperidade, enquanto a centralização é a via do atraso e da pobreza.
O emérito chanceler Henry Kissinger publicou “Sobre a China”, um livro indispensável para quem quer compreender o incrível êxito econômico dos chineses, suas relações com os diversos países, especialmente os Estados Unidos.
Olhando superficialmente, a gente pensa que a China tem um governo altamente centralizado. Partindo da premissa de que tem no Comunista seu partido político único, adotando decisões verticais, de cima para baixo, somos levados à conclusão de que a estrutura do governo chinês seja também centralizada.
Na verdade, o que explica a explosão econômica chinesa, além da abertura promovida por Deng Xiaoping, é a descentralização.
Kissinger, no livro acima citado, cita o pensamento de Mao Zedong, que já pregava, antes de Deng, que “A China deve aprender com o modo como a América se desenvolveu. Descentralizando e espalhando a responsabilidade e a riqueza entre cinquenta Estados. Um governo centralizado não pode fazer tudo. A China precisa depender de iniciativas regionais e locais. Ela (a China) não deseja deixar tudo a cargo dele (Poder Central)”.
As reformas idealizadas por Mao foram executadas por Deng. Com a descentralização, a China deu um salto. Lembro bem que, em 1978, quando estive lá pela primeira vez, o Produto Interno Bruto chinês era a metade do do Brasil. Pequim (ou Beijin) era um favelão. Oito anos depois, levei um choque. Os altos edifícios residenciais substituíram os barracões. A cidade ganhou avenidas decuplicadas, elevados, viadutos. Era uma nova cidade. Uma Calcutá virara quase uma Los Angeles. Isso em apenas 8 anos.
Mas não foi apenas em Pequin e Xangai onde a China teve essa progressão geométrica de desenvolvimento. Nas viagens que fiz pelo interior do território chinês encontrei obras e construções por todos os lados.
A descentralização fez a China crescer como um todo, no campo e na cidade. Embora ainda tenha imensos desníveis regionais e setoriais, toda a população chinesa beneficiou-se da descentralização.
Kissinger assinala que “entre 1978 (ano em que as primeiras reformas econômicas foram promulgadas) e 1984 — ou seja, em apenas seis anos – a renda dos camponeses chineses dobrou.” E vai mais longe: “Quando Mao morreu, o volume de comércio dos Estados Unidos com a China era de 336 milhões de dólares, ligeiramente abaixo do nível de comércio norte-americano com Honduras, e um décimo do comércio norte-americano com Taiwan, que tinha aproximadamente 1,6% da população da China.”
O Brasil poderá rapidamente dar outro salto como demos, em apenas oito anos, em Santa Catarina. É só descentralizar-se!

Luiz Henrique da Silveira – Senador da República

Notícias relacionadas