Maio Laranja: notificações de violência sexual contra crianças e adolescentes triplicaram em Pomerode após 2021
Ministério Público e Polícia Civil do município alertam para sinais de mudança de comportamento e reforçam canais de denúncia durante a campanha
Foto: Envato Elements / Imagem ilustrativa
O mês de maio carrega uma cor e uma missão de extrema importância para a sociedade: o Maio Laranja, período dedicado à conscientização e ao enfrentamento ao abuso e à exploração sexual de crianças e adolescentes. Em Pomerode, as ações ganham ainda mais relevância diante de um cenário local que exige atenção contínua e esforços integrados das autoridades e da comunidade.
De acordo com dados epidemiológicos do Sistema de Informação de Agravos de Notificação (SINAN), entre os anos de 2017 e 2025, o município registrou um total de 235 notificações de violência sexual envolvendo o público infantojuvenil.
O histórico local revela uma mudança drástica no comportamento desses registros. Entre 2017 e 2020, Pomerode mantinha uma média anual de aproximadamente 15 casos, variando entre 13 e 16 ocorrências. No entanto, a partir de 2021, os números sofreram um salto expressivo. O ápice da série histórica ocorreu em 2023, com 49 notificações — praticamente o triplo da média de anos anteriores. Após uma queda para 26 casos em 2024, o ano de 2025 voltou a registrar tendência de alta, fechando com 33 notificações. Até o momento, não há registros lançados no banco de dados referentes ao ano de 2026.
O perfil das ocorrências em Pomerode
Os dados estatísticos fornecidos pela Vigilância Epidemiológica traçam um perfil claro e preocupante sobre quem são as maiores vítimas e onde mora o perigo:
- Gênero: As meninas e adolescentes do sexo feminino são a ampla maioria das vítimas. Das 235 notificações totais, 196 envolveram vítimas femininas e 39 masculinas.
- Faixa etária: O grupo mais atingido se concentra na idade entre 10 e 14 anos, seguido pelas crianças na faixa de 5 a 9 anos.
- Os agressores: Os autores das agressões são predominantemente homens. Na maioria dos casos, são pessoas conhecidas da vítima ou integrantes do próprio núcleo familiar e de convivência — como pai, padrasto, namorado e irmãos —, além de pessoas com vínculo institucional ou de confiança.
Dra. Rejane Gularte Queiroz Beilner, promotora de Justiça da comarca de Pomerode, explica que esse aumento expressivo nas estatísticas não significa necessariamente apenas o crescimento real da violência, mas também reflete uma melhora na percepção social do problema.
“Esse crescimento pode estar relacionado tanto ao aumento efetivo das ocorrências quanto ao fortalecimento da rede de proteção, da conscientização social e dos mecanismos de denúncia e notificação obrigatória”, pontua a promotora.
Ela acrescenta que a experiência forense e as discussões em rede — que unem o Ministério Público, o Poder Judiciário e demais órgãos — confirmam que a ampliação das denúncias e o surgimento de mais relatos espontâneos evidenciam uma população mais consciente e encorajada a quebrar o silêncio.

Promotora de Justiça da comarca de Pomerode – Dra. Rejane Gularte Queiroz Beilner (Foto: Jornal de Pomerode)
Como identificar os sinais de alerta
Muitas vezes, a criança ou o adolescente não consegue verbalizar o abuso que está sofrendo, principalmente quando o agressor é alguém próximo ou de confiança. Por isso, a atenção aos sinais comportamentais é a principal ferramenta de descoberta.
O delegado da Polícia Civil de Pomerode, Jhon Endy Lamb, destaca que as mudanças emocionais e comportamentais se manifestam de formas diferentes conforme o desenvolvimento do jovem.
“Os sinais de abuso podem manifestar-se por alterações comportamentais e emocionais, como isolamento social, queda brusca no rendimento escolar, irritabilidade, agressividade e comportamentos regressivos. Em adolescentes, são frequentes as condutas de risco, incluindo fugas do lar, abuso de substâncias, atos infracionais e ideação suicida”, detalha o delegado.
Outro forte sinal de alerta é o comportamento sexualizado inapropriado para a idade, como brincadeiras eróticas com objetos e um conhecimento sobre sexo incompatível com a fase de infância. Na parte física, familiares devem ficar atentos a lesões, queixas de dores ou gravidez precoce.
Diálogo em casa e o perigo no ambiente virtual
Tanto o Ministério Público quanto a Polícia Civil convergem em um ponto fundamental: a informação e o diálogo aberto dentro de casa são as melhores formas de prevenção. Os pais e responsáveis precisam se posicionar como “adultos-referência” para que os filhos se sintam seguros para relatar qualquer desconforto sem medo de punição ou julgamento. Desde cedo, deve-se ensinar noções de autonomia corporal, mostrando que ninguém pode tocar em suas partes íntimas.
Além disso, as autoridades fazem um alerta rigoroso sobre o ambiente virtual. Grande parte das situações atuais de aliciamento e exploração ocorre na internet.
O delegado Jhon Endy Lamb orienta que as famílias gerenciem regras rígidas de privacidade. É preciso evitar o compartilhamento de fotos de crianças sem roupas ou com referências de localização (como a fachada de casa ou uniformes escolares) que permitam identificar onde moram. A educação digital deve equilibrar o dever de vigilância dos pais com o respeito à autonomia progressiva dos jovens.

Delegado da Polícia Civil de Pomerode – Dr. Jhon Endy Lamb (Foto: Jornal de Pomerode)
A atuação dos órgãos de proteção em Pomerode
A cidade conta com uma rede de proteção ativa e que tem se articulado para intensificar o combate ao crime neste Maio Laranja por meio de diversas frentes:
- Conselho Tutelar: Está realizando palestras em todas as escolas do município, nos períodos matutino e vespertino, voltadas aos estudantes a partir do 4º ano do Ensino Fundamental. Os encontros abordam a proteção infantil e ensinam os alunos a identificar os canais de ajuda.
- CRAS (Centro de Referência de Assistência Social): Promove oficinas, palestras e faz a produção de materiais educativos focados em conscientizar toda a comunidade local sobre o tema.
- Grupo de Trabalho Intersetorial de Prevenção às Violências nas Escolas: Instituído no presente ano (2026), o grupo realiza reuniões mensais com o objetivo de elaborar e implementar estratégias específicas de enfrentamento ao abuso sexual e a outras formas de violência no ambiente escolar.
Apesar da articulação, a rede ainda enfrenta grandes desafios estruturais. De acordo com a promotora Dra. Rejane Beilner, além do desafio de rastrear os crimes praticados na internet, romper a barreira do silêncio familiar continua sendo o obstáculo mais complexo.
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“Muitos casos permanecem ocultos porque a violência ocorre dentro do ambiente familiar ou envolve pessoas próximas da vítima, o que gera medo, vergonha e dificuldade de revelação”, afirma. Ela também destaca a necessidade constante de capacitação continuada das equipes técnicas e o cuidado em garantir uma escuta qualificada e humanizada para evitar a revitimização da vítima durante os atendimentos.
Como denunciar?
Qualquer suspeita ou confirmação de violência sexual contra crianças e adolescentes deve ser comunicada imediatamente. A notificação de suspeitas é obrigatória por lei, conforme estabelece o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA).
As denúncias podem ser feitas nos seguintes locais:
- Presencialmente: No Conselho Tutelar, no Ministério Público ou diretamente na Delegacia de Polícia de Pomerode.
- Online: Por meio da Delegacia de Polícia Virtual de Santa Catarina, acessível no site oficial da Polícia Civil.
- Telefone: Através dos serviços tradicionais de disque denúncia (como o Disque 100).
O que acontece após a denúncia?
Assim que o caso chega ao conhecimento das autoridades, é aberto de forma obrigatória um Inquérito Policial para a investigação criminal e responsabilização dos envolvidos. Simultaneamente, os órgãos de proteção adotam medidas de intervenção interdisciplinar para proteger a vítima. Isso pode incluir o afastamento imediato do agressor do convívio, o acolhimento da vítima em abrigo (se necessário), encaminhamento para exames médicos e acompanhamento psicológico especializado.