Lama, tradição e liberdade: uma vida no universo off-road
Criada dentro de um jipe em Pomerode, Nicole Oestreich transforma herança familiar em estilo de vida e reforça o protagonismo feminino no mundo 4×4
Foto: Isadora Brehmer / Jornal de Pomerode
Desde antes de dar os primeiros passos, Nicole Oestreich já estava inserida em um universo pouco comum para muitas crianças: o off-road. Filha de um entusiasta dos jipes, ela cresceu acompanhando trilhas, encontros e aventuras que, com o tempo, deixaram de ser apenas passeios em família para se tornarem parte essencial de sua identidade.
O jipe, comprado pelo pai há 28 anos, sempre esteve presente — firme, resistente e carregado de histórias. Mais do que um veículo, ele se transformou em um símbolo de união familiar e de continuidade entre gerações.
“Meu pai tem o jipe há 28 anos. Desde que nasci eu faço parte dessa história. Então, desde meu nascimento ele esteve comigo, me apresentou, juntamente com a minha mãe, esse mundo off-road, mundo 4×4, onde tem muito barulho, muita lama, muita diversão com os amigos. A emoção de extrema alegria. Não tem outra coisa que me faça mais feliz do que andar de jipe.”
Mais do que um hobby, um estilo de vida
Para Nicole, o contato com o universo 4×4 vai muito além da adrenalina. É uma experiência sensorial e emocional, que envolve liberdade, conexão com a natureza e momentos de convivência com amigos.
Cada saída com o jipe carrega uma mistura de sentimentos difíceis de descrever, mas fáceis de reconhecer por quem compartilha da mesma paixão.
“Sentir o cabelo voando, o vento batendo no rosto, toda aquela energia que o ronco do jipe traz é algo muito emocionante, porque é uma sensação que só quem vive sabe. A gente se reúne com os amigos, faz um churrasco, toma uma cervejinha. É um momento de muita harmonia, de muita confraternização. E é algo que, como eu falei, é desde o início da minha vida. Então, faz parte do sangue.”

Foto: Isadora Brehmer / Jornal de Pomerode
Tradição que atravessa gerações
A história da família Oestreich com o jipe também se entrelaça com a cultura e as tradições de Pomerode. O veículo participa há mais de duas décadas da Festa Pomerana, sendo presença constante nos desfiles que celebram as raízes da cidade.
Mesmo diante de imprevistos, como períodos de manutenção, a tradição nunca foi interrompida, prova do quanto esse legado é valorizado.
“São 28 anos dentro da família. Meu pai comprou o jipe há 28 anos atrás, nunca saiu da família, sempre se manteve o mais original possível. Na Festa Pomerana ele participa, se eu não me engano, já há mais de 25 edições. Quando o jipe estava na reforma, ele pegou um emprestado para fazer o desfile. Então é algo que se mantém na nossa tradição de família. Se não existe Festa Pomerana, tem algo de errado no início do ano.”
Além da Festa Pomerana, o jipe também marca presença em eventos como os desfiles de 7 de setembro, reforçando o papel do veículo como parte da identidade cultural da família.
O protagonismo feminino no off-road
Em maio de 2025, Nicole deu um passo importante ao se tornar sócia do Jeep Clube de Pomerode. A decisão, incentivada pelo pai, representou mais do que uma formalização: foi uma afirmação de espaço dentro de um ambiente ainda predominantemente masculino.
“Meu pai falou assim, ‘vamos lá, você é uma mulher forte, você vai conseguir’. Então, como ele me convidou, eu aceitei o convite. Entrei no Jeep Clube no ano de 2025, no mês de maio. Foi extremamente importante para mim, que foi um passo mostrando que a mulher, sim, pode estar dentro de onde ela quiser, ela pode fazer o que ela quer, pode sentir as emoções que ela quiser e não tem barreiras para a mulher.”
Determinada, Nicole faz questão de reforçar que o off-road também é um espaço de pertencimento feminino e que essa realidade precisa ser cada vez mais visível.
“Muito menos para uma mulher que quer fazer parte dessa parte que é o ‘clube do bolinha’, que é a parte que sempre dizem que é só homem que pode fazer isso. Eu vim para mostrar que não, que mulher pode estar sim onde ela quer e fazer o que ela quiser.”

Foto: Arquivo pessoal
Solidariedade sobre quatro rodas
Além da aventura e da tradição, o jipe também se transforma em ferramenta de solidariedade. Nicole participa de ações sociais promovidas pelo clube, levando alegria a diferentes públicos, especialmente em datas comemorativas.
Esses momentos, segundo ela, são alguns dos mais marcantes de sua trajetória.
“No final do ano levei o jipe durante a noite para fazer as entregas das balas do Jeep Noel. A gente foi no hospital, nos bombeiros e na casa dos idosos. Foi uma coisa que mexeu muito comigo, porque eu sempre vivi com o meu pai, agora eu posso viver sozinha esse sentimento de estar trazendo a felicidade sozinha, com o jipe para todo mundo.”
Entre o motor e o coração
Hoje, ao assumir o volante, Nicole não carrega apenas a responsabilidade de conduzir um veículo antigo, mas também o peso simbólico de uma história construída ao longo de décadas.
Cada saída é um ritual que mistura expectativa, emoção e conexão profunda com o jipe.
“Primeiro eu entro dentro do jipe e já penso se ele vai ligar, porque é sempre uma incerteza (risos). Mas quando liga, a felicidade vem junto. Eu já me sinto uma mulher mais empoderada, mais forte. O vento batendo no rosto, essa sensação de liberdade, escutar o barulho do motor, traz uma sensação de pertencimento. Assim como o motor tem suas batidas, o nosso coração também tem.”
E quando o trajeto chega ao fim, fica a sensação de que ainda há muito caminho pela frente, dentro e fora das trilhas. “Quando eu preciso sair de dentro do jipe, vem uma tristeza, porque eu penso: já acabou, o rolê já acabou. Essa emoção, quem vive sabe. Quem não vive dentro disso, está perdendo.”
Entre lama, ronco de motor e encontros ao ar livre, Nicole Oestreich segue escrevendo sua própria história no off-road, mantendo viva uma tradição familiar e mostrando que, no volante ou na vida, não existem limites para quem escolhe seguir em frente.