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Heinz Briese, o homem por trás do alvo

Fundador do Clube Primavera, Heinz Briese dedicou quase cinco décadas ao tiro esportivo e à vida associativa, ajudando a construir, com trabalho voluntário e perseverança, uma das mais tradicionais entidades culturais de Pomerode.

21 de março de 2026

Foto: Isadora Brehmer / JP

A história do tiro esportivo em Pomerode se confunde com a própria história de homens que ajudaram a construir, com paciência e perseverança, os clubes que até hoje mantêm vivas tradições herdadas dos antepassados. Entre esses nomes, um se destaca não apenas pelo tempo dedicado, mas pelo compromisso silencioso e constante com o Clube Esportivo, Recreativo e Cultural Primavera: Heinz Briese. Um dos fundadores da entidade, ele teve seu nome eternizado no estande de tiro do clube, um reconhecimento que carrega décadas de trabalho, voluntariado e paixão pelo esporte.

A relação de Heinz Briese com o tiro começou de forma simples, quase lúdica, muito distante da estrutura que hoje existe no clube. “Quando nós começamos a atirar, a primeira arma não era arma de fogo”, relembra. Era uma arma rudimentar, de munição pequena, usada mais como brincadeira do que como competição. Ainda assim, desde o início, havia ali algo que iria além da diversão: o desejo de melhorar, de acertar um pouco mais longe, de superar o próprio limite. Um espírito que acompanharia Heinz por toda a vida.

Com o passar do tempo, veio o contato com armas de fogo, como as carabinas utilizadas nos clubes de tiro. Ainda aprendendo, sem domínio técnico, Heinz e outros companheiros foram se aperfeiçoando pouco a pouco,de uma semana para outra, de um mês para outro, até que se tornou necessário investir em equipamentos adequados e, principalmente, em estrutura. O estande de tiro, por lei, precisava atender a exigências rigorosas, com distância mínima de até 50 metros, autorizações formais e regras claras de segurança. Tudo precisava estar documentado, organizado e dentro da legalidade.

Foi nesse momento que Heinz assumiu um papel ainda mais decisivo. Com poucos recursos em caixa, buscou apoio entre amigos e conhecidos que já tinham experiência com o tiro esportivo e acreditavam na ideia de um clube forte e estruturado. “Tinha pouco caixa. Mesmo assim, o projeto avançou graças à confiança mútua entre os envolvidos”, disse. Heinz, que também atuava como tesoureiro, organizou empréstimos, prestou contas e garantiu que tudo fosse pago corretamente, mesmo quando o dinheiro era escasso.

Fundado em 23 de setembro de 1978, o Clube Primavera nasceu de esforço coletivo, mas contou com a dedicação quase ininterrupta de Heinz Briese. Na época da fundação, ele tinha 40 anos. Hoje, aos 87, completando 88 no dia 03 de maio, ele é uma das memórias vivas da entidade. Ao longo de 47 anos de história do clube, participou ativamente da diretoria, ocupando cargos como tesoureiro, presidente interino e, principalmente, diretor de tiro, função que exerce até hoje.

Foto: Isadora Brehmer / JP

No estande, Heinz não apenas organiza equipes e define escalas de competição. Ele cuida das anotações, das fichas de pontuação, do controle das provas e do rigor que o esporte exige. Outros ficam responsáveis pela parte operacional das armas, mas é ele quem garante que tudo esteja devidamente registrado. “Esse é o meu serviço”, resume, com a simplicidade de quem nunca precisou de holofotes para se sentir parte fundamental de algo maior.

O funcionamento das competições segue tradições preservadas há décadas. “Nas competições de realeza, o primeiro tiro é o que vale. É ele que define o rei, a rainha, os cavaleiros e as princesas. Não importa se um tiro posterior seja melhor: a regra é clara, e o respeito a ela é parte do espírito do tiro esportivo”.

Heinz conhece cada detalhe dessas normas, pois ajudou a mantê-las vivas ao longo do tempo, tanto nos treinos do clube quanto nas grandes festas, como a Festa Pomerana e os eventos municipais.

Embora nunca tenha sido oficialmente coroado rei do tiro, Heinz teve momentos memoráveis nas competições. Em uma das disputas entre clubes, manteve-se como o melhor atirador durante quase toda a tarde. Apenas no fim do dia foi superado por outro rei, de um clube vizinho. “Acontece”, diz, com naturalidade. Para ele, o esporte sempre esteve acima do título.

A esposa, Rovena, é a fiel companheira em todas as competições. (Foto: Isadora Brehmer / JP)

 

Além do tiro, Heinz Briese foi um dos pilares administrativos do Primavera. Durante os primeiros anos, esteve à frente da tesouraria por longos períodos, chegando a cumprir sete anos consecutivos. Em outros momentos, afastou-se formalmente da diretoria, mas nunca deixou de ajudar.

Ao longo dos anos, tornou-se quase uma condição para novos presidentes: aceitar o cargo somente se Heinz permanecesse como tesoureiro. A confiança em seu trabalho era tamanha que seu nome se tornou sinônimo de segurança financeira e responsabilidade. Mesmo quando outros dirigentes assumiam oficialmente, ele seguia orientando, ajudando e garantindo que as contas fechassem.

Esse histórico de dedicação foi reconhecido de forma especial com a inauguração da nova parte do estande de tiro do clube, que recebeu seu nome. A homenagem foi uma surpresa. Heinz não sabia que seu nome estaria na placa. Ao chegar ao local com a esposa, foi convidado a subir primeiro. Recebeu flores, ouviu discursos e, ao olhar para a parede, viu seu nome gravado duas vezes. A emoção foi imediata. “Fiquei tão emocionado que até as flores caíram”, conta.

O momento foi compartilhado com autoridades, dirigentes e amigos. O prefeito fez questão de registrar o encontro em fotos. Para Heinz, mais do que o gesto em si, a homenagem simbolizou décadas de pertencimento. “O clube é como a minha casa. É a segunda casa”, define.

Mesmo com a idade avançada, Heinz segue atirando. Enquanto pode, não pretende parar. Recentemente, fechou uma série com 50 pontos e 0,3, desempenho que muitos atletas mais jovens gostariam de alcançar. Já conquistou algumas medalhas, poucas, como faz questão de frisar, mas o reconhecimento maior vem do respeito dos colegas e da alegria compartilhada no estande.

Sua esposa também fez história no tiro esportivo, tendo sido rainha e princesa em diferentes ocasiões. Juntos, o casal participou de desfiles, marchas e festas municipais, representando o clube em praticamente todos os eventos do calendário cultural de Pomerode.

Hoje, ao olhar para o estande moderno, bem estruturado e movimentado, Heinz reconhece o quanto tudo custou. “Tudo é trabalho e tudo custa dinheiro”, resume. Mas também reconhece que valeu a pena. O Clube Primavera segue ativo, respeitado e forte, resultado direto de uma trajetória construída com esforço coletivo e dedicação individual.

A história de Heinz Briese não é apenas a de um atirador ou dirigente. É a história de alguém que acreditou em uma ideia quando ainda havia pouco mais do que vontade e companheirismo. Um homem que ajudou a erguer, alvo por alvo, conta por conta, um clube que hoje carrega seu nome em uma de suas estruturas mais simbólicas. Uma homenagem que não marca um fim, mas celebra uma vida inteira dedicada à tradição, ao esporte e à comunidade pomerodense.

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