Especiais

Entre tranças, relinchos e sonhos: a história de Camila Eduarda Samp e do cavalo Malhado

Ele chegou como surpresa, virou parte da família e hoje é companheiro de cavalgadas, ações solidárias e dos dias que moldaram a jovem que representa a cultura pomerana

9 de maio de 2026

Foto: Isadora Brehmer / JP

O portão se abre e, antes mesmo de qualquer palavra, há um reconhecimento silencioso. O som dos passos leves no chão batido, o olhar atento, a espera paciente por duas bolachinhas de leite que fazem parte de um ritual cotidiano.

No pequeno universo onde infância, tradição e natureza caminham juntas, Malhado não é apenas um cavalo — é memória viva, confidente e extensão do coração de Camila Eduarda Samp, 1ª Princesa da Festa Pomerana de 2026.

A história dos dois começa muito antes da compra, quando o animal ainda era apenas um desejo sussurrado na infância. Camila era daquelas crianças que trocavam praia por hotel-fazenda, que preferiam o cheiro do pasto ao sal do mar e que encontravam alegria no contato com galinhas, gado e trilhas de terra.

Foto: Isadora Brehmer / JP

 

Os pais, Maicon e Silvana Samp, acompanharam esse encantamento crescer como quem observa uma semente germinar.

“Ela sempre foi muito ligada aos animais. Desde pequena, quando via um cavalo, os olhos brilhavam de um jeito diferente. A gente ia para hotel-fazenda nas férias porque era isso que ela queria, era ali que ela se sentia feliz. Mas, ao mesmo tempo, existia o cuidado, o medo de colocar uma criança em cima de um animal que pudesse se assustar ou ser agitado. Quando apareceu o anúncio de um cavalo mais velho, calmo, de procedência conhecida e acostumado com crianças, a gente entendeu que era o momento certo de realizar aquele sonho que era dela, mas que já tinha virado nosso também.”

O Malhado chegou sem aviso. Foi surpresa, dessas que transformam um dia comum em marco na memória.
“Quando o caminhão encostou lá fora, a gente chamou ela sem dizer nada. Ela olhou e gritou ‘é o Malhado!’. Foi um misto de surpresa e felicidade que não tem como explicar. Ali a gente viu que tinha feito a escolha certa. Desde então, ela cuida dele com um amor que impressiona. Muitas vezes ela passa mais tempo escovando, dando banho e fazendo trança na crina do que cavalgando. É como se o tempo parasse quando ela está com ele.”

Dia em que o Malhado chegou à propriedade da família. (Foto: Arquivo pessoal)

 

O cuidado sempre caminhou junto com o sonho. A sela nova foi comprada com o dinheiro do próprio aniversário. O estribo especial, em formato de “caçamba”, foi escolhido para evitar que o pé ficasse preso em caso de queda. Nunca houve cavalgada sozinha: ou alguém caminhava ao lado, ou seguia de bicicleta.

E o Malhado, em resposta, tornou-se aquilo que toda criança precisa para crescer segura: presença. “Ele é um cavalo extremamente cuidadoso. Teve um dia que ela escorregou e caiu embaixo dele. Ele simplesmente ficou parado, esperando, sem levantar a pata, sem se mexer. Parece que ele entende que ali tem uma criança. Ele não morde, não dá coice, nunca fez nenhum movimento de agressividade. Para nós, ele não é um animal de estimação, ele é parte da família.”

Com o tempo, o vínculo ultrapassou o cercado da propriedade e ganhou as estradas de chão das cavalgadas. No Clube do Cavalo, entre outros animais e cavaleiros, Camila aprendeu sobre responsabilidade, companheirismo e tradição.
Foi ali que Malhado também se tornou instrumento de solidariedade. Nas cavalgadas de Natal, enfeitados, cavalos e carroças percorrem ruas levando brinquedos simples para crianças que esperam o ano inteiro por aquele momento.

“É emocionante ver ela participando disso. Eles arrecadam dinheiro, compram presentes e vão nas comunidades entregar. Às vezes é só uma bola, um carrinho, uma boneca, mas para quem recebe é tudo. E chegar com o cavalo, com a carroça, com as balinhas, transforma aquilo numa festa. A gente vê que não é só o passeio, é um aprendizado de empatia, de olhar para o outro.”

Foto: Isadora Brehmer / JP

 

Malhado também virou atração nos aniversários. Em meio a brinquedos infláveis e risadas, formava-se uma fila de crianças esperando a vez de dar uma volta na pequena subida da propriedade.

Pelas estradas do bairro, ele é reconhecido. Há quem espere na beira do caminho apenas para subir na sela por alguns minutos. O cavalo, paciente, parece compreender cada gesto de medo ou entusiasmo.
E há os rituais — esses que transformam rotina em poesia.

Duas refeições por dia no cocho. A espera pelas bolachinhas. A brincadeira de esconder o biscoito no bolso para que ele procure com o focinho.

Pequenos gestos que constroem uma amizade

“Ela sempre foi muito ansiosa e o contato com ele mudou isso. Quando está com o Malhado, ela se acalma, se concentra, esquece o resto. É impressionante. Tem estudos que falam desse efeito dos cavalos nas crianças, mas a gente viu isso acontecer dentro de casa. É uma conexão que faz bem para o corpo e para o coração.”

Hoje, entre compromissos escolares, aulas e a agenda da realeza da Festa Pomerana, o tempo é mais curto. Ainda assim, sempre que pode, Camila troca a rotina pelo caminho de terra que leva até o companheiro de quatro patas. Ali, longe das faixas, dos vestidos e das fotografias oficiais, está a essência da menina que representa a cultura de um povo.

Porque, no fundo, a história da 1ª Princesa não começa no palco — começa no pasto, no cheiro de cavalo molhado depois do banho, nas mãos pequenas trançando a crina com paciência, no relincho que anuncia a chegada de quem ele reconhece de longe.

Para a menina, o cavalo é muito mais do que um animal de estimação, é parte de sua família. “Eu cuido bastante dele, faço hidratação na crina, escovo bastante ele, dou comida e é muito legal fazer isso, porque é uma coisa que você sabe que você está cuidando. Eu sei que não ter todos os animais do mundo, mas os que temos, cuidamos, acolhemos e tratamos bem. Malhado é o meu melhor amigo, ele representa um amor muito grande, que eu sempre quis desde pequenininha, desde os meus cinco anos eu peço ele e com nove anos eu consegui ter essa conquista imensa”, afirma.

Notícias relacionadas