Entre riscos e entrega de sonhos: a rotina dos motoboys em Pomerode
Luciano de Oliveira e Geovane Beier falam sobre os desafios da ocupação profissional
Foto: Isadora Brehmer/Eliane Cristina / JP
Em meio ao barulho dos motores, às buzinas do trânsito e às pressões do relógio, os motoboys enfrentam mais do que ruas e entregas: lidam com desafios diários que exigem coragem, resiliência e, sobretudo, paixão pela profissão.
Em Pomerode, dois profissionais com trajetórias diferentes — mas com o mesmo compromisso — compartilham suas experiências sobre trabalhar sobre duas rodas.
Do carpinteiro ao motoboy: a história de Luciano
Luciano de Oliveira, de 46 anos, carrega em sua bagagem décadas de trabalho em diversas áreas: carpintaria, almoxarifado, pintura e montagem de móveis. Natural de Itaí, encontrou em Pomerode um novo lar desde 2005, mas foi só nos últimos dois anos que assumiu a rotina como motoboy.

Foto: Isadora Brehmer /JP
“Deixei a minha profissão de carpinteiro para entrar nessa área de entrega. E, olha, eu gosto do que faço”, conta. A escolha veio da necessidade, mas também do desejo de trilhar algo diferente. Hoje, Luciano realiza entregas para comércios diversos, como floriculturas, farmácias e fábricas de chocolate. “Trabalho todo dia, faça chuva ou sol. É cansativo, mas é gratificante.”
Entre os maiores desafios, Luciano destaca o trânsito e a falta de respeito. “Tem muita imprudência, principalmente com eventos e turistas. Pouca gente respeita as faixas para motos ou os limites de velocidade”, relata. Ainda assim, ele segue firme. “Já caí numa estrada de terra ao lado de uma lagoa e pensei em desistir. Mas a gente segue, porque também gosta disso aqui.”
Mais do que entregas, Luciano construiu relações. “Tem cliente que te trata como da família. Às vezes, um bom dia para um idoso já muda o dia dele — e o meu também. É uma troca”, afirma emocionado.
Geovane Beier: paixão por motos transformada em missão
Com apenas 27 anos, Geovane Beier acumula quase uma década na profissão. Morador de Blumenau e apaixonado por motos desde criança, começou fazendo pequenas entregas após o expediente de outro trabalho. Hoje, com CNPJ próprio há cinco anos, transformou o que era hobby em carreira.

Foto: Eliane Cristina / JP
“Eu acordo cedo e começo as entregas às 7h. Faço de tudo: retirada de exames, serviços de banco, entregas para lojas e oficinas. Já percorri mais de um milhão de quilômetros e fiz mais de 20 mil entregas. A mais longa durou 13 horas, com 1.200 quilômetros de trajeto”, revela.
Para ele, o maior desafio também é o trânsito. “As pessoas estão cada vez mais apressadas, impacientes. Todo dia é preciso ter atenção redobrada. Sempre que saio, faço minhas orações e peço a Deus proteção”, conta.
Mais do que prestar um serviço, Geovane acredita que sua missão vai além do simples ato de entregar.
“Acelero com responsabilidade, sirvo com excelência e caminho sempre guiado por Deus. No asfalto da vida, minha missão é entregar mais que encomendas… é espalhar fé, compromisso e honestidade por onde eu passo.”
Ambos os profissionais relatam situações em que são mal compreendidos por atrasos que não são culpa deles. “Às vezes o comércio demora pra liberar o pedido e quem leva a culpa somos nós”, comenta Luciano.
Outro problema é a baixa valorização financeira.
Ainda assim, tanto Luciano quanto Geovane seguem firmes na profissão, motivados não apenas pelo sustento, mas pela satisfação de fazer um bom trabalho. Para eles, cada entrega é uma oportunidade de construir vínculos e fazer a diferença no dia de alguém — mesmo que isso não esteja nos registros do GPS.