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Entre mosaicos e memórias: mãe e filha transformam corvos em arte

Aos 90 anos, Ruth Gasparek une inspiração, memória e parceria com a filha Elizabeth na criação de esculturas em mosaico que ganham vida em voo simbólico.

15 de fevereiro de 2026

Foto: Joana Prochera / JP

As obras de arte criadas por Ruth Gasparek, de 90 anos, e por sua filha, Elizabeth Gasparek, transformaram o quintal da família em um pequeno ateliê de imaginação, técnica e afeto.

Mãe e filha, ambas de Pomerode, apresentam agora seu terceiro conjunto de esculturas, três corvos em mosaico, sendo um deles apoiado em uma estrutura metálica que simula o movimento do voo. O conjunto levou cerca de seis meses para ficar pronto, contando todo o projeto.

A criação integra uma série de trabalhos que têm se tornado quase rituais familiares: cada nova obra ganha um dia especial para ser inaugurada, celebrada e compartilhada com amigos, artistas e convidados.

A relação de Ruth com a arte começou muito antes dos mosaicos. Ainda jovem, dedicava-se a recolher pequenas flores, deixá-las secar e montá-las em quadros que, até hoje, ela relembra com carinho. A chegada do mosaico, porém, surgiu por influência da filha, que vivia em São Paulo e trazia, além de cursos na área, um olhar renovado sobre possibilidades criativas.

“O mosaico surgiu pela minha filha, que veio de São Paulo e já tinha feito cursos sobre isso. Eu sempre gostei de mexer com a natureza, então quando ela disse que seria interessante trabalhar com ‘pedrinhas’, eu aceitei. Gostei desde o começo e fui me apaixonando. Antes, eu fazia quadros com flores secas, mas aí veio o mosaico e ficou. E agora é isso: é o que preenche o meu tempo, o que faz sentido para mim, porque mesmo com 90 anos eu quero continuar fazendo alguma coisa, nem que seja só para dar de presente, sem pensar em vender.”

Ruth Gasparek. (Foto: Joana Prochera / JP)

 

A idade, aliás, é um detalhe constantemente celebrado pela família. Dentro e fora do ateliê que mantém em casa, Ruth segue ativa, curiosa e disposta a experimentar, mesmo quando a precisão exigida pelo mosaico começou a se tornar mais difícil. Foi justamente essa limitação que levou Elizabeth a sugerir um novo caminho artístico, que abriu espaço para esculturas mais volumosas e menos dependentes de simetria.

“Há cerca de dois anos, a mãe começou a dizer que não conseguia mais fazer o mosaico tão lisinho, tão perfeito. E eu pensei: então vamos tentar algo diferente, no qual ela não precise dessa delicadeza. Criamos esculturas para que ela aplicasse o mosaico, começando por galinhas, depois peixes e agora corvos. A brincadeira virou tradição: cada vez que saía uma obra nova, fazíamos uma celebração, com café, brinde e homenagem.”

O novo conjunto de esculturas marca o capítulo mais desafiador dessa jornada conjunta. São três corvos, todos revestidos de mosaico, sendo um deles elaborado a partir de uma complexa estrutura metálica fabricada especialmente para simular o movimento de voo. O processo exigiu paciência, retorno ao serralheiro e longas discussões estéticas entre mãe e filha, todas resolvidas com humor, afeto e persistência.

Foto: Joana Prochera / JP

 

“Esse trabalho foi o mais demorado, porque precisávamos de toda a estrutura de metal. O primeiro suporte não deu certo, tivemos que voltar ao serralheiro Jefferson, que foi extremamente paciente e entendeu exatamente o que queríamos. A ideia era criar algo diferente, porque eu adoro corvos. Não queria passarinho, queria corvo e a mãe topou. Ela sempre topa, e isso é o mais bonito: essa abertura para tentar, para adaptar, para mudar junto comigo.”

A inspiração para as formas e volumes vem de artistas do mundo todo. Ruth e Elizabeth consomem vídeos e referências, especialmente de criadores alemães que trabalham com mosaicos em grandes proporções. A influência estrangeira, porém, é sempre reinterpretada com traços locais, memórias afetivas e a ajuda de amigas artistas que contribuem com desenhos, ideias e sugestões.

“A criação, hoje, é mais adaptação. Nos inspiramos muito em uma artista alemã que faz animais grandes em mosaico, tiramos modelos de livros e também assistimos a muitos vídeos da Alemanha, porque a mãe gosta de ouvir em alemão. Mas é sempre uma troca: uma amiga nossa do Canadá mandou folhas desenhadas à mão para ela transformar em arte. Aqui em Pomerode criamos laços com muitos artistas, e isso faz toda a diferença.”

Elizabeth e Ruth, mãe e filha criaram os corvos com mosaico. (Foto: Joana Prochera / JP)

 

A série de esculturas inauguradas nos últimos anos sempre carrega também um simbolismo afetivo. A dos peixes homenageou o pai de Elizabeth e marido de Ruth, grande admirador de pescarias. Agora, na inauguração dos corvos, a homenagem será dedicada aos médicos que acompanham Ruth: um agradecimento pela longevidade, pela saúde preservada e pelos cuidados que permitiram que ela chegasse aos 90 anos ainda produzindo arte.

“Sempre que fazemos a celebração, escolhemos alguém para homenagear. Quando fizemos os peixes, o homenageado foi o pai, por todo o amor que ele tinha pelos rios e pescarias. Agora, com os corvos, decidimos homenagear os médicos da mãe. Porque são eles que ajudam a mantê-la firme, saudável e cheia de energia. E convidamos todos eles para estarem presentes.”

Além do tributo emocional, os eventos organizados pelas duas funcionam como encontros de partilha, celebração e reconhecimento da evolução artística da dupla. A cada obra, torna-se clara a fluidez com que Ruth se adapta às novas formas de criar, mostrando disposição pouco comum para quem já completou nove décadas de vida. Para Elizabeth, essa jornada representa reencontro, afeto e parceria.

Foto: Joana Prochera / JP

 

“A facilidade da mãe para se adaptar sempre me impressionou. Muitas pessoas, com uma certa idade, dizem: ‘Sempre fiz assim e quero continuar assim’. Mas ela não. Ela tenta, experimenta, muda se precisar. Eu vim de outra área, totalmente diferente, mas mergulhei nisso para estar com ela. E ver o que ela consegue fazer, é extraordinário.”

O resultado desse caminho conjunto é mais que um conjunto de obras: é uma história de cumplicidade, persistência e criatividade que se renova a cada processo. E, neste domingo, quando o corvo de asas abertas finalmente ganhar o mundo aos olhos do público convidado, mais uma vez o quintal de Ruth e Elizabeth se tornará palco de arte e de vida.

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