Ela encontrou uma antiga caixa da bisavó e descobriu a paixão que mudaria sua vida
A história de Luciana Bortolini revela como memórias de família, tradições passadas entre gerações e uma antiga caixa de linhas deram origem a uma trajetória marcada pela arte, pela coragem e pela reinvenção
Foto: Joana Prochera / Jornal de Pomerode / Reprodução internet
Há heranças que não cabem em documentos ou inventários. Algumas chegam silenciosas, guardadas em pequenas lembranças que atravessam gerações e esperam o momento certo para florescer. Para a artista Luciana Bortolini, de 51 anos, natural de Curitiba e moradora de Pomerode desde 2022, essa herança veio em uma antiga lata de biscoitos Aymoré, enferrujada pelo tempo, mas repleta de histórias.
Dentro dela estavam os fios de bordado de sua bisavó, uma imigrante alemã que chegou ao Brasil após a Primeira Guerra Mundial. A descoberta aconteceu quando Luciana ainda era jovem, durante uma visita à avó, em Curitiba. Sem imaginar, aquele encontro com linhas cuidadosamente organizadas mudaria o rumo de sua vida.
“Eu posso considerar aquela caixa uma herança. Foi ela que despertou em mim a vontade de aprender o bordado. Hoje, eu vivo disso”, afirma.
A emoção permanece viva em sua memória. Ao abrir a caixa, o colorido dos fios e a delicadeza com que haviam sido guardados despertaram uma curiosidade imediata. “Eu pensei: eu quero saber fazer isso.”

Foto: Joana Prochera / Jornal de Pomerode
A arte que atravessa gerações
Embora o bordado tenha ganhado força a partir daquela descoberta, a arte já fazia parte da vida de Luciana desde a infância.
Ela acompanhava a mãe nos cursos de artesanato realizados pelo Sesc, em Curitiba. Enquanto a mãe aprendia novas técnicas, a pequena Luciana observava, ajudava em pequenos detalhes e, aos poucos, desenvolvia sua própria sensibilidade artística.
Mais tarde, acompanhou aulas de pintura em porcelana e experimentou diferentes expressões artísticas. Mas foi o bordado que criou raízes mais profundas, justamente por carregar uma ligação afetiva com a família.
Sua bisavó era especialista em ponto cruz e produzia peças para a própria casa. Além disso, ela e a avó de Luciana confeccionavam juntas uma delicada renda de tricô conhecida como Spitzenstricken, tradição de origem alemã que resultava em toalhas elaboradas e muito valorizadas na época.
Esses costumes, transmitidos entre gerações, acabaram encontrando continuidade décadas depois, nas mãos da bisneta.
Aprender sozinha, ponto por ponto
Sem aulas formais e sem alguém que lhe ensinasse a técnica, Luciana começou a bordar sozinha. A primeira tentativa foi ousada: uma rosa. “Fui logo no mais difícil”, recorda, sorrindo.
Os primeiros pontos eram imperfeitos. O avesso do bordado, que segundo ela é o grande segredo do ponto cruz, não saía como gostaria. Mas a persistência falou mais alto.
Ela desmanchava, recomeçava e aprendia observando os próprios erros. Foi assim que uma curiosidade despertada por uma caixa antiga se transformou em habilidade.

Foto: Arquivo pessoal
Um recomeço chamado Pomerode
Ao longo do tempo, Luciana experimentou diferentes caminhos profissionais. Depois de anos vivendo em Curitiba, a artista decidiu buscar uma cidade menor, onde pudesse recomeçar.
Inicialmente pensou em outras localidades catarinenses, mas acabou chegando a Pomerode quase por acaso. Sem familiares na cidade, veio sozinha, guiada pelo desejo de construir uma nova vida. Logo percebeu algo que a encantou: em Pomerode, o artesanato é valorizado. “Quando cheguei aqui, vi que era realmente possível viver da arte.”
Ela passou a integrar a Associação de Artesãos do município e rapidamente encontrou espaço para seus trabalhos. Os colares bordados inspirados na cultura alemã fizeram sucesso nas festas típicas, especialmente no período da Oktoberfest. Depois vieram os ímãs de geladeira, peças decorativas e, principalmente, os delicados ovos de madeira ornamentados com bordados e tecidos embutidos, inspirados na tradição da Osterfest.
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A técnica desenvolvida por Luciana une madeira, tecidos e bordados feitos à mão, em um processo que ela própria aperfeiçoou ao longo dos anos. A inspiração surgiu justamente daquilo que herdou da bisavó: o amor pelos fios e pelo trabalho manual. “Eu pensei: por que não adaptar o meu bordado em um ovo?”, relembra.
Primeiro, produziu peças em isopor revestidas com tecidos e motivos de Páscoa. Depois, desafiou-se a levar a técnica para a madeira, criando um trabalho autoral que hoje se tornou uma de suas marcas em Pomerode.
Em cada trabalho, Luciana vê um pouco daquela antiga caixa de linhas que mudou sua vida, transformando a herança recebida em arte capaz de atravessar novas gerações.