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Dos esportes radicais nos anos 90 à mesa da ABNT: a bagagem mundial de um bombeiro voluntário de Pomerode

Após treinar equipes no maior polo petroquímico da América Latina e rodar o país como consultor, Eder Reinert encontrou na cultura solidária da cidade o refúgio ideal para aplicar suas quase três décadas de experiência em resgates.

2 de julho de 2026
Dos esportes radicais nos anos 90 à mesa da ABNT a bagagem mundial de um bombeiro voluntário de Pomerode

Dos esportes radicais nos anos 90 à mesa da ABNT a bagagem mundial de um bombeiro voluntário de Pomerode - Foto: Arquivo Pessoal

Quem observa a rotina de Eder Reinert como Bombeiro Voluntário de Pomerode talvez não imagine que o conhecimento aplicado nas ruas da cidade também dita as regras de segurança em todo o país. Completando 10 anos de dedicação exclusiva ao município e 28 anos de farda, ele é muito mais do que um socorrista local: tornou-se uma voz ativa nas principais mesas de decisão do Brasil.

Hoje, Eder é integrante do Comitê Técnico Estadual (COTEC), órgão da Associação dos Bombeiros Voluntários no Estado de Santa Catarina (ABVESC) responsável por padronizar normas, desde o grafismo das viaturas até os procedimentos operacionais das corporações catarinenses. Mas sua projeção vai além das divisas do estado.

Na Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT), ele integra as comissões que elaboram as normas nacionais de segurança contra incêndio (CB-24) e equipes de emergência (CE-24), e mais recentemente foi convidado a integrar a comissão sobre normas para construção de viaturas de bombeiros. Atualmente atua na elaboração da norma de Sistema de Comando de Incidentes (SCI), que são protocolos para grandes tragédias envolvendo múltiplas agências.

Na ABNT, sua presença garantiu uma vitória histórica para o estado: o reconhecimento oficial da categoria de “Bombeiro Voluntário”, separando o modelo trazido pelos imigrantes alemães das figuras do bombeiro militar e do profissional civil.

“Quem não é visto, não é lembrado. O nome de Pomerode é sempre citado nas reuniões”, avalia. “O mundo todo pratica esse modelo de bombeiros porque o Estado sozinho não conseguiria atender todos os municípios. É característica do nosso povo se mobilizar, se organizar em prol de um bem comum, e os voluntários são a essência do altruísmo, e doamos os bens mais preciosos que temos, que são o nosso tempo e conhecimento”, afirma.

Eder Reinert está há 10 anos no Corpo de Bombeiros Voluntários de Pomerode - Foto: Arquivo Pessoal

Eder Reinert está há 10 anos no Corpo de Bombeiros Voluntários de Pomerode – Foto: Arquivo Pessoal

O sonho do colete laranja

O peso dessa caneta normativa, no entanto, foi forjado no barro, nas pedras e no cansaço extremo. Natural de Joinville e morador de Blumenau desde os 18 anos, Eder iniciou sua vida profissional entre 1994 e 1995 lidando com o perigo constante como guia de ecoturismo e instrutor de esportes radicais, como rapel, canyoning, trekking e escalada.

A necessidade de dominar primeiros socorros em áreas remotas e o trabalho constante com cordas e alturas o empurraram, em 1998, para a primeira turma de Bombeiros Comunitários de Blumenau: “a gente tinha aquele desejo de vestir aquele colete na época laranja e poder usar o brevê, o distintivo que te identifica como um socorrista. Aquilo ali era um sonho, ter direito de usar”, relembra. A paixão foi imediata: ele não apenas vestiu a farda, como fundou a associação local e ajudou a criar a Federação Catarinense de Bombeiros Comunitários (FECABOM).

O mundo como sala de aula

O conhecimento técnico logo exigiu novos horizontes. Um convite o levou a morar na Bahia, onde passou oito anos e meio desbravando o Polo Petroquímico de Camaçari — o maior da América Latina, que concentra cerca de 60 mega indústrias petroquímicas e uma frota de aproximadamente 30 caminhões de combate a incêndio e 20 ambulâncias. Lá, especializou-se em proteção respiratória, tornou-se instrutor de bombeiros do Centro de Treinamentos de Controle de Emergências (CTCE), sob gestão da dinamarquesa Falck Nutec e lecionou Segurança do Trabalho no SENAI.

Sua expertise chamou a atenção no exterior. Viajou aos Estados Unidos para realizar dois treinamentos de especialização para a área de bombeiros e embarcou para a Venezuela, onde treinou bombeiros e a brigada da SIDOR, principal empresa Siderúrgica do país. A paixão por viagens não ficou por aí e já foram 17 países visitados.

No Brasil, a rotina beirou o limite físico e mental. Contratado como consultor nacional de tecnologias de emergência por uma empresa do Rio de Janeiro, Eder passou anos vivendo com a bagagem na mão. Viajava de 15 a 20 dias a bordo de uma caminhonete totalmente equipada para demonstrações, percorrendo batalhões de todos os estados brasileiros e apresentando-se em portos, mineradoras e aeroportos.

“Cheguei até a ficar doente de tanto viajar. Teve oportunidade em que eu fiz 12 trechos de voo na semana. Estava em Chapecó, a empresa pedia para ir a São Luís do Maranhão, depois para João Pessoa, Campina Grande, Florianópolis. Foi uma loucura”, confessa.

Eder decidiu voltar para Pomerode para fugir da criminalidade em Salvador e ficar mais próximo da família - Foto: Arquivo Pessoal

Eder decidiu voltar para Pomerode para fugir da criminalidade em Salvador e ficar mais próximo da família – Foto: Arquivo Pessoal

O retorno para casa e a corrente do bem

O freio de arrumação aconteceu em 2016. Exausto do ritmo insano e acuado pela escalada da violência urbana em Salvador (BA), ele e a esposa decidiram que o filho merecia um ambiente mais seguro. O destino escolhido foi Pomerode, perto da família e dos amigos. Na cidade, encontrou uma cultura onde o altruísmo e o associativismo são engrenagens que realmente funcionam.
Além de se envolver rapidamente com a Associação de Moradores, Círculo de Orquidófilos e a Associação Pomerana de Beneficência, mergulhou no quartel local.

Na última década, auxiliando membro da diretoria, viu a corporação evoluir tecnologicamente, adquirindo ambulâncias 4×4 e equipamentos caríssimos, como compressores torácicos mecânicos, sustentados por doações comunitárias, pela tradicional feijoada e por convênios.

Quando questionado no passado por parentes sobre o que ganharia financeiramente dedicando sua vida a ser voluntário, a resposta sempre foi uma aposta no invisível: “ainda não sei, mas acho que vou ganhar alguma coisa”, afirmava.

Hoje, ao olhar para a frota moderna na garagem e para as normas nacionais que ajudou a escrever, o resultado é evidente: “se hoje eu não estiver mais lá, amanhã a corporação continua, e continua com muita qualidade”, reflete. Acima de tudo, Eder enxerga na farda uma ferramenta de resistência moral: “Na nossa passagem por aqui, a gente tem uma obrigação: inspirar outras pessoas. Porque o mal se espalha muito fácil, mas o bem também se espalha”, afirma.

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