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Empatia e Proteção: todas têm direito à vida

Agosto Lilás chama a atenção para o combate a este crime, infelizmente, comum

16 de agosto de 2020

“Em briga de marido e mulher, ninguém mete a colher”. Este ditado popular, repetido por anos como um mantra para justificar a inércia diante de situações de violência doméstica, pode ser uma das causas dos milhares de feminicídios já ocorridos ao longo dos anos.

Mesmo antes da pandemia atual, a situação já era grave, com 1,23 milhão de casos de violência relatados entre 2010 e 2017 (e muitos outros não notificados). Com a pandemia, a situação se agravou em todo o país. Desde o início da quarentena, em março, o número de denúncias recebidas pelo canal Ligue 180, do Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos (MMFDH), aumentou 17,9%, em todo o país, em comparação com o mesmo período de 2019. No mês seguinte, em abril, o crescimento foi de 37,6%.

Dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP) no estudo “Violência doméstica durante a pandemia de Covid-19”, apresentados em maio, demonstram que o feminicídio no país cresceu 22,2% nos meses de março e abril desse ano, se comparado ao mesmo período do ano passado. 

 

 

Em Pomerode, de acordo com dados da Polícia Militar, de janeiro a junho de 2020, foram registradas 56 ocorrências de violência doméstica na cidade, 16 a mais do que no ano passado, no mesmo período.

Segundo o comandante da PM em Pomerode, existe um outro fator que pode influencias no aumento dos casos de violência doméstica. “Com a situação do isolamento social, e as pessoas mais tempo em casa, o agressor passa a ter mais controle sobre a rotina da vítima, o que dificulta que ela consiga buscar ajuda e até mesmo fazer a denúncia”, reforça.

Com estas dificuldades, o apoio de familiares, amigos e da sociedade, em geral, é fundamental para livrar uma mulher da situação da violência doméstica e, talvez, salvar a sua vida. A psicóloga Claudete Soethe (CRP 12/10942) destaca que a luta contra a violência doméstica começa, principalmente, pela educação.

“O nosso dever, como sociedade, é garantir a segurança das mulheres, ajudando-as para que seus direitos não sejam violados. Conforme a Lei Maria da Penha (11.340/2006) a mulher tem direito à vida, direito de ser respeitada! Portanto, é responsabilidade de todos nós, enquanto sociedade cuidar, proteger e denunciar, quando for necessário. O trabalho de prevenção e orientação para extinguir a violência contra a mulher, deve ser integrado na educação, dentro das escolas e dentro das famílias. Precisamos urgentemente combater a ‘naturalização da violência’ eliminando comentários e práticas machistas, como por exemplo ‘Quem mandou usar essa roupa curta…’. Assim, vamos desconstruir preconceitos relacionados a roupas, por exemplo, ou ao direito de ir e vir, quando bem entender”, enaltece Claudete.

 

Perceba os sinais

Para que se possa ajudar uma vítima de violência doméstica, é importante prestar atenção aos sinais que ela apresenta, das agressões que está sofrendo, sejam elas verbais ou físicas. A psicóloga Claudete Soethe cita alguns sinais que uma mulher vítima de agressões pode apresentar.

“A mulher passa a ter um comportamento de introspecção. Quando ela é vítima de violência, geralmente, passa a se afastar do convívio social, familiar, porque teme dar algum indício que está sofrendo agressões, então, teme ser punida ainda mais se falar. Ela, na maioria das vezes, é impedida de sair de casa, de manter contato com pessoas que ela gosta. O agressor passa a ter um domínio sobre ela, exercendo controle sobre sua vida.  Nos casos em que a mulher é vitima de agressão, quando sai de casa , tende apresentar um  comportamento inseguro, na frente das pessoas, seu olhar é de medo, fica desconfiada, inquieta, com olhar triste, tem vergonha e medo de falar”, enumera.

Segundo Claudete, a mulher vítima de violência doméstica se sente constrangida na presença de outras pessoas e permanece em constante estado de alerta, temendo que alguém pergunte “o que está acontecendo?” e que ela possa dar um indicativo que não está bem, além, é claro, de sinais visíveis de agressão, como marcas pelo corpo.

“Quando a mulher aparece com hematomas e marcas frequentes, e dá desculpas como bater em um móvel, ou cair da escada, no banheiro, por várias vezes, podemos perceber que não é normal e pode indicar que ela esteja vivenciando o sofrimento das agressões em casa. Podemos perceber outros como, quando ela sai com o companheiro, você presencia discussões frequentes e dá para perceber um tom de intimidação, humilhação, ameaça e você percebe que a vítima fica acuada e quieta, ficando com medo de sofrer mais, além de indícios em redes sociais”, ressalta a psicóloga.

 

Como denunciar e ajudar

Atualmente, os meios para se denunciar agressões contra a mulher são vários. É possível ligar para os números 180 e 190, além do aplicativo PMSC Cidadão, que permite, inclusive, fazer denúncias de ocorrências passadas, por exemplo de uma agressão que sofreu anteriormente e até os vizinhos podem fazer a denúncia. Nestas situações, o caso é passado para a Rede Catarina, em Timbó, que cobre a Pomerode, também. Esta Rede é específica para lidar com situações de violência doméstica contra a mulher.

“A participação de vizinhos, família e conhecidos é fundamental e indispensável para que as autoridades possam ter conhecimento e intervir. As denúncias, nestes casos, podem inclusive serem feitas pelo aplicativo da PMSC”, acrescenta o Tenente Knoener.

Mas não é só por meio de denúncias que os amigos, familiares e vizinhos podem ajudar. Quando há a certeza de que a mulher está sofrendo agressões, de acordo com a psicóloga Claudete, o mais importante é se colocar no lugar dela, fazer um exercício de empatia.

“Não podemos ficar omissos, presos no discurso de que ‘em briga de marido e mulher, ninguém mete a colher’. Se você foi a pessoa que pode salvar a vida desta mulher, não se pode ficar omisso. Se presenciar uma agressão, uma ameaça grave, é preciso ter a consciência que é necessário intervir na hora certa. Além disso, é uma excelente ideia tentar criar alguma situação que possa conversar com a vítima, se mostrar solidária a esta pessoa, para que ela confie em você, deixando claro que sempre estará ali para ajudar”, enaltece Claudete.

Também é interessante tentar trazer algumas reflexões durante esta conversa, que ajudarão a resgatar a autoestima, porque agressor diminuiu ela, fez acreditar que a mulher não tem nenhum valor. Nestes momentos de conversa, uma solução, também, é criar algum código de comunicação, com uma linguagem, uma cor, um a frase combinada.

 

Sinal vermelho para a violência

No mês de junho, o Conselho Nacional de Justiça (CNJ) com apoio da PMSC, lançou a campanha “Sinal Vermelho Contra a Violência Doméstica”, que tem como objetivo fornecer um canal alternativo de denúncias, para as mulheres que são vítimas de violência dentro de suas casas.

A campanha funciona da seguinte forma: a mulher que for vítima de violência doméstica, pode ir às farmácias credenciadas com um X vermelho pintado na mão, onde os atendentes, treinados, irão dar o encaminhamento para a Polícia. Em Pomerode, a Farmácia Farmalan decidiu aderir à campanha e tornou-se credenciada há cerca de dois meses.

De acordo com a gerente administrativa da Farmalan, Gabriele Lenzi, o local aderiu à campanha devido à importância da pauta combate à violência contra a mulher e também devido ao aumento no número de casos desta natureza. Os colaboradores da matriz e das filiais receberam treinamento, para que a Farmalan recebesse a credencial de estabelecimento participante.

 

 

“Quando uma mulher chega na farmácia, com o sinal vermelho na mão, os atendentes logo a direcionam para o serviço farmacêutico, de onde fazem o contato com a PM. Caso nossa equipe perceba que o agressor está junto com a vítima, de maneira discreta, os atendentes conseguem as informações de contato e depois repassam o caso à Polícia. A farmácia, portanto, funciona como um importante intermediário para ajudar as mulheres nesta situação”, enaltece Gabriele.

Todas as filias da Farmalan, além da matriz, estão capacitadas para prestar este auxílio às mulheres pomerodenses que necessitarem do serviço. Porém, a farmácia ainda não teve nenhum caso deste tipo.

 

Campanha Agosto Lilás

Uma importante campanha de conscientização sobre a violência contra a mulher será iniciada foi iniciada na primeira semana de agosto e se estenderá por todo o mês. Trata-se do Agosto Lilás, dedicado a ações de prevenção e combate à violência doméstica e de ampla divulgação dos direitos femininos. Coordenada pela Secretaria de Desenvolvimento Social e Habitação, a campanha Agosto Lilás busca gerar reflexões sobre a questão da violência contra a mulher, alertando para os altos índices de crimes e atos hostis contra o público feminino.

Recentemente, estudos apontaram que a situação de isolamento social, devido à pandemia de coronavírus (COVID-19), tem potencializado os casos de violência contra as mulheres em todo o mundo. Diante desta nova realidade pandêmica, a campanha Agosto Lilás é mais uma forma de levar informação às mulheres, como forma de ajudá-las a romper o ciclo de violência, e de trazer maior visibilidade sobre o assunto para toda a sociedade.

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