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Estenda a sua mão nesta luta

Mês de prevenção ao suicídio chama a atenção para a seriedade com que o assunto “depressão” deve ser tratado.

23 de setembro de 2019

Desânimo, cansaço fácil, isolamento, tristeza constante. Todas estas características podem ser sinais de uma doença grave e ainda considerada um tabu na sociedade: a depressão. Há quem, ainda, a considere frescura ou preguiça, mas o assunto merece ser tratado com seriedade, já que, se não tratada, pode resultar na perda de uma vida.

Não são raros os casos em que a depressão acaba em tentativa de suicídio. Adriana (nome fictício*) começou a perceber que tinha depressão com cerca de 12 anos. Nesta época, ela começou a perceber que suas tristezas não eram passageiras, que chorava por tudo, sem um motivo, vivia presa no quarto e perdia a vontade de fazer as coisas das quais gostava. O diagnóstico veio aos 16 anos.

Tal sofrimento, dor interna que suportava, fez com que a jovem perdesse a vontade de viver. “O momento mais difícil foi quando eu tentei suicídio e fiquei internada no hospital, entre a vida e a morte. Na hora, não rolou arrependimento, pois eu queria acabar, não com a minha vida, mas sim, com toda aquela dor que eu sentia, e que eu só queria colocar um fim nisso”, conta.

Felizmente, o pior não aconteceu à Adriana e ela está conseguindo, aos poucos, superar a doença. Desde de sua primeira consulta, foi instruída a tomar um remédio antidepressivo, com aumento gradativo da dosagem.

“Ao certo, ainda não achei jeitos de fugir da depressão. Eu tento me distrair, cuidando mais de mim, lendo livros de superação, vendo vídeos engraçados e ficando perto de pessoas que me fazem o bem”, comenta.

 

Mas saiba que você, por mais que sinta sozinho, em meio de tantas pessoas, muitas estão dispostas a te ajudar, por isso, não desista, é só uma fase ruim, que vai passar

 

Como a jovem sabe o quanto enfrentar a depressão exige de força, Adriana deixa um conselho para quem perceber que está passando por isso. “Busque ajuda, não sinta medo, não sinta vergonha, ninguém vai te julgar. Há vários meios de ajuda, como o 188, alguns sites com chats, psicólogos, psiquiatras, ou até mesmo, algum amigo. Mas saiba que você, por mais que sinta sozinho, em meio de tantas pessoas, muitas estão dispostas a te ajudar, por isso, não desista, é só uma fase ruim, que vai passar”, ressalta.

 

Apoio emocional é fundamental

Porém não deve ser apenas a pessoa que sofre com a depressão a responsável por buscar o auxílio por conta própria. Alguns sinais podem ajudar as pessoas próximas a perceberem que alguém está enfrentando a depressão, e, então, poder oferecer apoio. 

A psicóloga Alessandra Sopelsa Theiss, especialista em Saúde Mental, explica que há algumas alterações físicas e emocionais que podem ser observadas em quem está enfrentando a depressão.

De acordo com a psicóloga, na maioria das vezes, os primeiros sinais são relacionados à baixa autoestima, desmotivação, falta de interesse em fazer coisas que antes gostava, sentimento de culpa, inutilidade ou falta de prazer e satisfação nas atividades e nas relações. Fisicamente, pode vir um cansaço excessivo, distúrbios do sono, alteração no peso e, por vezes, algumas dificuldades cognitivas, como falta de concentração, dificuldade para pensar e tomar decisões. 

 

Girassol é símbolo da campanha para alertar sobre depressão. (Foto: Raphael Carrasco / Jornal de Pomerode)

“Por mais que os sintomas possam estar presentes, as pessoas podem confundi-los com outras situações, como estresse, cansaço ou desmotivações passageiras e não identificar em si o que está acontecendo. Caso as pessoas ao redor notem alguma mudança, é importante auxiliar na investigação e na busca pelo tratamento adequado. Em seguida, é importante permanecer junto à pessoa, disponível à suas necessidades, mas sem opinar, julgar ou banalizar o que ela está sentindo: ouvir mais e falar menos é uma boa dica. Inclusive, frases de incentivo como ‘se esforce mais’, ‘sua vida é tão boa’ podem mais prejudicar do que ajudar”, pondera a especialista. 

 

Em seguida, é importante permanecer junto à pessoa, disponível à suas necessidades, mas sem opinar, julgar ou banalizar o que ela está sentindo: ouvir mais e falar menos é uma boa dica. Inclusive, frases de incentivo como ‘se esforce mais’, ‘sua vida é tão boa’ podem mais prejudicar do que ajudar

Superar a depressão, no entanto, não é tarefa simples. O primeiro grande desafio é identificar e aceitar que precisa de ajuda, pois na maioria das vezes, não há motivo aparente e não nos identificamos como depressivos. “O segundo e, talvez, o maior desafio é lidar com os outros. Muitas pessoas vão agir com preconceito, achar que é frescura, preguiça, e falta de vontade de se ajudar. Tudo isso pode agravar ainda mais o quadro”, alerta Alessandra.

A partir do momento em que são identificados os sinais, a pessoa deve procurar ajuda com um médico de confiança ou com um psicólogo, para que avaliem o caso e deem as orientações necessárias para um tratamento completo e adequado.

 

Assunto ainda é tabu

A especialista em Saúde Mental acredita que a depressão ainda é tratada como tabu pelo perfil exigido pela sociedade, em que estamos, o tempo todo tentando ser produtivos, ativos, comunicativos e sociáveis. Este perfil precisa estar, o tempo todo, sendo vendido como capazes e pessoas de sucesso, em todas as áreas. 

“Quando algo não vai bem, temos dificuldade de assumir e parece que apenas nós é que passamos por frustrações. Exigimos isso dos outros também, tanto quanto exigimos de nós. A depressão, para muitos, está associada à fraqueza, à perda de rendimento e só, à falta de vontade de seguir essa onda. Ainda entendemos pouco sobre depressão, de que não tem a ver com isso. Quando alguém tem alguma doença física, não temos tantas dificuldades de enxergar e de assumir que a possuímos, mas quando é algo emocional, se torna mais difícil”, afirma Alessandra.  

Ela alerta, ainda, que a doença não tem um perfil de pessoas que sofrem com ela, mas sim, que atinge homens e mulheres, adultos, idosos e, inclusive, crianças. “Existe depressão infantil. Alguns perfis têm mais dificuldade de assumir e buscar ajuda do que outros, mas a demanda é igual a todos”, declara.

Na depressão, muitas vezes, os pensamentos negativos surgem sem um motivo aparente. A psicologia vem no intuito de identificar as causas, a história e resignificar o que pode estar causando os sintomas, o que não é possível fazer sozinho, de acordo com Alessandra. “O processo de autoconhecimento contribui muito para a evolução”, finaliza. 

 

Números alarmantes

De acordo com os dados da Organização Mundial da Saúde, a cada 40 segundos, uma pessoa se suicida no mundo e estima-se que, anualmente, mais de 800 mil pessoas morrem por suicídio. 

Neste ano, a Diretoria de Vigilância Epidemiológica de Santa Catarina (Dive/SC) divulgou dados do Boletim Epidemiológico de Tentativas e Óbitos por Suicídio no Brasil, do Ministério da Saúde, que apontaram a grave situação relacionada ao suicídio em Santa Catarina.

A região Sul, da qual nosso estado é parte, apesar de concentrar apenas 14% da população do país, concentra 23% dos registros de suicídio. Por mais que o cenário atual seja alarmante, o suicídio pode e deve ser prevenido.

 

No período de 2012 a 2017, foram notificados no SIM, 3.759 óbitos por suicídio. Desse total, 2.897 casos são referentes ao sexo masculino e 862 casos do sexo feminino (Tabela 1); caracterizando, neste cenário, um percentual de óbitos por suicídio de 23% entre as mulheres e 77% nos homens, entre os anos de 2012 e 2017.
Em Santa Catarina, no período de 2012 a 2017, foram notificados no Sinan 16.694 casos de violência autoprovocada. Desse total, 5.933 (35,5%) foram relativos à prática de lesão autoprovocada entre os homens e 10.761 (64,5%) casos em mulheres.

Em Pomerode, segundo dados da Polícia Civil, no ano passado houve oito casos de pessoas que tiraram a própria vida e, até agosto deste ano, foram cinco casos de suicídio, até o momento.

 

Prevenção é o melhor caminho

De acordo com a Organização Mundial da Saúde, os suicídios podem ser evitáveis, atribuindo à prevenção do suicídio uma alta prioridade, independentemente da posição atual do país em termos de taxas ou atividades de prevenção do suicídio. 

Os programas, segundo a OMS, devem incluir intervenções oportunas e eficazes, baseadas em dados científicos, tratamento e apoio. No Brasil, uma das instituições que trabalha para este fim é o Centro de Valorização da Vida (CVV), de âmbito voluntário, que oferece apoio emocional para pessoas que passam por momentos difíceis. 

A instituição permite entrar em contato por meio do telefone 188, por e-mail, atendimento pessoal e chat virtual, para conversar anonimamente com voluntários treinados para conceder apoio às pessoas que cogitam o suicídio.

À frente da campanha Setembro Amarelo, o CVV realiza um trabalho contínuo de apoio às pessoas que precisam de ajuda. Sem fins lucrativos, a entidade presta serviço voluntário e gratuito, oferecendo, diariamente, ações de apoio emocional para combater o suicídio no Brasil.

O site do CVV oferece atendimento por e-mail, telefone e nos centros físicos, sempre mantendo o anonimato dos usuários. É possível entrar em contato pelo número 188, por e-mail – a partir do site da instituição -, ou comparecer ao posto mais próximo de você. No caso de Pomerode, há um CVV próximo na cidade de Blumenau, no bairro da Velha, e em Jaraguá do Sul, na Rua Antônio da Cunha.

 

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