Da infância em Munique a Pomerode: transformando memória em miniaturas de locomotivas e navios
Hobby começou como recomendação médica em meio a um período de depressão e hoje reúne peças ricas em detalhes, feitas com madeira, material reciclado e impressão 3D
Foto: Isadora Brehmer / JP
Entre chapas de madeira cortadas milimetricamente, tubos minúsculos, adesivos produzidos sob medida e um tablet repleto de fotografias de referência, o alemão Marco Hammerand passa horas mergulhado em um universo onde o tempo corre em outra escala. Natural de Munique e morador de Pomerode há 18 anos, o gráfico e empreendedor encontrou na construção de miniaturas de locomotivas e navios muito mais do que um passatempo: descobriu um caminho de reconexão com a própria história e uma forma de cuidar da saúde emocional.
O trabalho mais recente, ainda em fase de construção, deve levar cerca de um ano e meio até ser concluído. A peça segue o mesmo padrão das anteriores: uma reprodução fiel, rica em detalhes internos e externos, baseada em locomotivas reais que marcaram sua infância na Alemanha.
As máquinas escolhidas não são aleatórias. Entre elas estão modelos como a Köf II e a Köf III — pequenas locomotivas movidas a óleo — além da W60, fabricada a partir de 1956 e que, mesmo depois de sete décadas, ainda possui unidades em operação. Outra referência é a E94, conhecida como “Crocodilo Alemão”, que circulou até o fim dos anos 1990.
Mais do que a engenharia, o que move Marco é a memória. “Eu sempre tive uma ligação muito forte com os trens porque, na minha infância em Munique, eu ia todos os dias para a escola de trem. Às vezes precisava esperar meia hora na estação e via todas essas locomotivas passando na minha frente. Aquilo ficou gravado na minha cabeça. Quando faço uma dessas miniaturas hoje, não é só um modelo histórico, é uma lembrança viva daquele tempo, das viagens, do barulho dos trilhos e da sensação de ser criança novamente.”
O contato com o modelismo começou ainda na Alemanha, com trens em miniatura e kits plásticos. No Brasil, porém, a dificuldade em encontrar materiais específicos fez com que o hobby fosse deixado de lado por um período. A retomada veio em um momento delicado da vida.
“Aqui no Brasil chegou um ponto em que eu estava trabalhando demais com a empresa, entrei em depressão e o médico me disse que eu precisava fazer alguma coisa que realmente gostasse. Aí eu lembrei dos modelos que fazia na Alemanha e comprei um kit de um veleiro. Quando terminei, percebi que aquilo me fazia bem. Então procurei um desafio maior, porque eu gosto de coisas complicadas, que exigem tempo e concentração. Foi assim que começou essa nova fase.”

Foto: Isadora Brehmer / JP
O projeto seguinte foi uma réplica do Titanic com quase dois metros de comprimento. Foram três anos de trabalho, modificando o kit original para deixá-lo mais realista. Depois vieram outras embarcações históricas, incluindo um navio que transportava passageiros até o transatlântico e que, na vida real, chegou a funcionar como restaurante sob a Torre Eiffel antes de se tornar museu.
Após anos dedicados aos barcos, Marco decidiu voltar às locomotivas — desta vez com uma abordagem completamente diferente. Sem kits prontos, passou a construir tudo do zero.
Para isso, amplia plantas compradas ou encontradas na internet, transfere as medidas para madeira e fabrica cada peça manualmente. Quando não é possível produzir determinado componente, recorre à impressão 3D. O restante nasce da criatividade e do reaproveitamento de materiais.

Primeira minuatura feita por Marco foi um barco. (Foto: Isadora Brehmer / JP)
“Quase tudo aqui é feito à mão. As chapas são de madeira, mas eu uso muito material reciclado também. Já usei latinha de tinta porque tinha exatamente o diâmetro que eu precisava para um cilindro, uso plástico de embalagem dos palitos da minha filha, cartões de crédito vencidos que têm um material excelente. Cada detalhe precisa ser pensado, porque não existe peça pronta para isso. É como montar um quebra-cabeça em três dimensões, só que você precisa fabricar as peças antes.”
A busca por fidelidade histórica é um dos pontos que mais consomem tempo. Em muitos casos, os planos disponíveis são incompletos e é preciso recorrer a revistas antigas, fotografias e arquivos de entusiastas ferroviários para reconstruir cada elemento.
O tablet que fica ao lado da bancada funciona como uma central de pesquisa permanente. Ali estão armazenadas centenas de imagens que orientam a construção de válvulas, cabines, sistemas elétricos e tubulações.
As partes inferiores das locomotivas são, segundo ele, as mais desafiadoras, devido à quantidade de canos e componentes mecânicos.
“O que sempre dá mais trabalho é a parte de baixo, com todos aqueles tubos, válvulas e sistemas. É um nível de detalhe que quase ninguém vê, mas eu sei que está lá. Eu faço porque gosto do desafio e porque quero que seja o mais fiel possível ao original. Cada eixo a mais significa repetir tudo de novo. Esse modelo que estou fazendo agora tem seis eixos, então é praticamente o dobro do trabalho.”
Apesar da complexidade, as miniaturas são desmontáveis, com portas móveis e partes internas acessíveis, reproduzindo o funcionamento das máquinas reais.
A escolha dos modelos continua sendo guiada pela memória afetiva. Marco constrói apenas locomotivas com as quais teve algum contato na infância — seja porque via diariamente nas estações, seja porque teve versões em miniatura quando era criança.
Para o futuro, ele já possui novos planos, incluindo a possível reprodução de um trem de alta velocidade dos anos 1970. Mais do que um hobby, o trabalho com as miniaturas se transformou em terapia, desafio intelectual e reconexão com as próprias raízes.
“Quando estou aqui construindo, eu esqueço completamente do tempo e de qualquer problema. É uma concentração total. Cada peça pronta é uma vitória pequena, mas muito importante. Isso me ajudou a sair de um momento muito difícil da minha vida. Hoje eu posso dizer que essas locomotivas e esses navios não são só modelos, são parte da minha recuperação e da minha história.”
Em Pomerode, cidade conhecida por preservar as tradições germânicas, o ateliê de Marco Hammerand se tornou um ponto onde passado e presente se encontram em escala reduzida. Entre madeira, cola e lembranças de uma infância em Munique, ele segue construindo — peça por peça — não apenas máquinas, mas também novos capítulos da própria vida.