Alimentação: uma questão de saúde corporal e mental
Nutricionista Aline Pruner ressalta importância da orientação profissional quando o assunto é alimento e nutrição
Atualmente, mais do que nunca, a busca pela alimentação saudável e prática de exercícios tem se tornado uma constante. No entanto, um ponto ainda pouco analisado, mas muito preocupante, é a questão da incessante busca pela imagem perfeita.
Para a nutricionista Aline Pruner, as pessoas são únicas e, assim como elas, as avaliações alimentares também devem ser. “O acréscimo da demanda que busca o corpo ideal leva a múltiplos recursos para alcançar tal objetivo, mesmo que, estatisticamente, o resultado possa causar danos à saúde do indivíduo. Além disso, o fácil acesso aos blogs e outras mídias que passam dicas, orientam e sugerem dietas restritivas podem ser muito prejudiciais. Cada ser humano responde de uma forma à uma dieta. Sendo assim, é preciso conhecer seu corpo para, então, com ajuda profissional, elaborar um plano para atingir seu objetivo”, ressalta.
E neste ponto entram as redes sociais. “As informações chegam muito rápido até nós. O desejo pelo corpo perfeito, alimentação saudável, dicas de emagrecimento ou aquisição de massa magra estão disponíveis através de diversos perfis. Porém, como já mencionei, cada pessoa é única e é preciso preocupar-se muito mais com a saúde, como um todo, do que apenas com o peso. Reitero, no entanto, há perfis de pessoas responsáveis que levam informação de qualidade à população. É de fundamental importância “usar o filtro””, afirma.
E muito se engana quem pensa que as questões alimentares são única e exclusivamente preocupação das mulheres. “Podemos, como profissionais, observar que o número de homens e adolescentes que buscam alcançar estas propostas, às vezes, inatingíveis, é crescente. Com isso, além de prejudicar a saúde corporal, a mental também é atingida”, revela.
E quando a obsessão atinge a mente, os danos podem ser ainda mais profundos. “Eu acredito que o equilíbrio seja fundamental. A partir do momento em que se ultrapassa os limites em busca do corpo ideal, a mente trabalha contra nós. Como resultado disso, a frustração e os transtornos alimentares”, completa Aline.
Transtornos alimentares – As palavras dietas e regime estão presentes em nosso cotidiano. Porém, o excesso de preocupação pode causar doenças, como os transtornos alimentares. “Pacientes com transtornos alimentares têm em comum a preocupação exagerada com o peso e a forma do corpo, o que os leva a atitudes extremas para controlar a imagem corporal, como dietas radicais. A soma disso pode gerar grande prejuízo à saúde física e mental”, explica a nutricionista.
As disfunções mais conhecidas são: a bulimia, a anorexia, a obesidade e a desnutrição. Mais recentemente tornaram-se também ameaças a ortorexia e a vigorexia. “A ortorexia é a obsessão por alimentos biologicamente puros, por uma alimentação saudável, enquanto a vigorexia é a obsessão por um corpo perfeito. Esta última tem atingido mais aos jovens do sexo masculino, os quais, para atingir tal objetivo, acabam por utilizar suplementos alimentares e esteróides, associados a uma atividade física intensa. A ortorexia, apesar de ainda pouco conhecida, é preocupante, pois ameaça a saúde do corpo e a saúde mental e emocional das pessoas. A preocupação exagerada com o que irá comer desvia a maior preocupação, que deveria ser com a saúde do corpo”, ressalta a profissional.
Alimentação saudável – Para a nutricionista Aline, alimentação saudável é alimentação equilibrada. “O grande problema está no excesso. A receita de uma alimentação saudável é o equilíbrio de todos os nutrientes que o corpo requer, sendo variada e, acima de tudo, prazerosa”, reitera.
Alimentar-se, porém, vai além do consumo. “Alimentação é muito ampla, não é apenas para nutrição, mas interfere em todo o seu cotidiano. Além disso, eu acredito que a própria alimentação abrange a questão da sustentabilidade, quando consumir produtos orgânicos, de nossa região, também faz a diferença. Está sendo óbvio que o consumo mundial está ficando maior do que a produção natural, por isso é importante dar valor à cultura também”, explica.
E quando o assunto é alimentação infantil, Aline reitera que o exemplo é a melhor forma de aprendizado. “Ninguém aprende por demagogia. Crianças, então, são o reflexo de nossos exemplos. É preciso que, nas escolas, o conceito da alimentação saudável, rica em nutrientes e variada, repassada em sala, seja aplicada nas merendas. Em casa, desde pequeno, os pais também devem construir esse hábito saudável, oferecendo possibilidade. Um exemplo de educação nutricional é ensinar seu filho a cozinhar, para que ele acompanhe o processo e, quando crescer, já conheça as inúmeras possibilidades que a cozinha oferece, fugindo assim dos alimentos industrializados”, finaliza.
“A mudança deve ocorrer de dentro para fora”
Muito mais importante que conquistar medidas perfeitas é a busca pela qualidade de vida
A mudança dos hábitos alimentares é, sem sombra de dúvida, a maneira mais correta de controlar o peso a longo prazo. Existem milhares de dietas disponíveis na internet, porém, jogar-se de cabeça em qualquer uma delas, além de ser perigoso à saúde, nem sempre oferece, na prática, os resultados prometidos.
Na semana em que se comemorou o Dia da Nutricionista, o Jornal de Pomerode conversou com a profissional da área, Daiane Schneider, graduada em Nutrição pela Faculdade Metropolitana de Blumenau (FAMEBLU) e pós-graduada em Gestão de Segurança de Alimentos pelo Senac e ainda, em Nutrição Esportiva pela instituição Unilas, que respondeu alguns questionamentos sobre o tema. Confira a entrevista:
JP – Para as pessoas que estão acima do peso, mudar de vida, é uma decisão que requer muita dedicação e força de vontade. É preciso, primeiramente, mudar a forma de pensar e depois os hábitos alimentares em si?
Costumo dizer que a mudança deve ocorrer de dentro para fora. Quando uma pessoa procura o auxílio de um nutricionista, normalmente o primeiro objetivo ou resultado desejado é estético (emagrecimento e perda de medidas, no caso de uma pessoa com excesso de peso) e a busca deste resultado é dito como uma vontade imediatista, na maioria dos casos.
No consultório, o primeiro item a ser trabalhado é a percepção que o paciente tem sobre o alimento e o que o mesmo representa para ele, pois o indivíduo que busca o emagrecimento remete, diretamente, a perda de peso ao fato de restringir a comida de sua vida. Normalmente o alimento é visto por esse indivíduo como inimigo do emagrecimento, sendo que, na verdade, o alimento quando utilizado da forma adequada em um plano alimentar equilibrado passa a ser uma peça fundamental para o bem-estar do mesmo.
Em seguida, as mudanças dos hábitos deste indivíduo devem ser modificadas, seja alimentar ou comportamental. Aprender a fazer trocas inteligentes na alimentação e incluir atividades físicas no seu dia a dia fazem parte da estratégia utilizada para obtenção deste objetivo.
Sendo assim, o primeiro passo é modificar o pensamento para depois ter ações que reflitam essa mudança de vida.
JP – O que faz com que as pessoas iniciem dietas e as interrompam sem finalizar o processo por desistência?
Mudanças não são fáceis e exigem muita dedicação e paciência do indivíduo que se propõe a realizá-las. Muitas pessoas buscam resultados imediatistas quando o assunto é emagrecimento, procurando seguir a “dieta da moda”, buscando agregar “medicamentos milagrosos”, se submeter a atividades físicas extremistas, restringir ao extremo a ingestão alimentar, pensando ser essa a melhor forma de alcançar o seu objetivo. É quando ocorre a maioria das desistências às dietas.
Os indivíduos que se restringem ao extremo irão suportar esta situação por um tempo, até que surja a primeira chance de se autossabotar e levar tudo a perder. O fato de o indivíduo dizer que “está de dieta” já remete ao pensamento de restringir tudo que possa ocorrer fora daquele momento que está passando.
No consultório, a melhor estratégia para conquistar o paciente e fazer com que o mesmo consiga aderir a um plano alimentar é realizar uma adaptação alimentar que se encaixe ao seu dia a dia, buscando estratégias viáveis, de forma que atenda aos seus horários e suas necessidades específicas, isso é possível com reeducação alimentar e planejamento por parte do paciente. O equilíbrio alimentar está acima de tudo.
JP – “Efeito sanfona”, como é conhecido popularmente o efeito em quem engorda e emagrece com facilidade, é algo que, além de outros transtornos, gera prejuízo à saúde?
Já se sabe que dietas restritivas e mirabolantes facilitam o emagrecimento, mas tem como resultado posterior o efeito sanfona. Quando privamos o nosso corpo de algum nutriente essencial ou mascaramos o apetite, ele considera que deve se proteger e se preparar a um eventual problema que possa ocorrer, pois não sabe até quando esta restrição irá se estender e está sempre tendo que se readaptar as situações básicas para seu normal funcionamento.
Na verdade, o indivíduo não é apenas o que come, mas sim o que come, absorve, utiliza e excreta, pois a falha de um destes processos trará consequências maléficas à saúde, e muitas vezes o que era para ser apenas o “desejo ao corpo dos sonhos”, se transforma em tratamento a uma patologia consequente deste desejo de emagrecer.
Por isso é necessário um planejamento alimentar individualizado feito por um nutricionista, observando os objetivos e necessidades do paciente, respeitando e melhorando seus hábitos alimentares baseados na ciência da Nutrição que rege o equilíbrio na quantidade, qualidade, variedade e moderação.
JP – Hoje em dia, com a internet bem mais acessível que antigamente, várias dietas são despejadas àqueles que buscam o corpo perfeito. Porém, cada pessoa tem suas particularidades. Existe um perigo real em se sujeitar às dietas que não se conhece a origem, especificidade e que não oferecem um acompanhamento?
Com a disponibilidade desta ferramenta que é a internet, muita informação é despejada para quem quiser utilizar. Vai de uma simples opinião de um blogueiro a um diagnóstico médico. Por isso, toda informação deve ser analisada com muita atenção antes de ser reproduzida e, se possível, solicitar auxílio de um profissional capacitado sobre o assunto.
No que diz respeito à alimentação, dietas e nutrição, não é diferente. Muitos estudos científicos comprovam que estratégias antes de serem reproduzidas em humanos são realizadas em cobaias para após verificar o real efeito para a saúde do indivíduo.
Então, reproduzir uma dieta ou restrição alimentar em um indivíduo adulto e sadio terá um efeito diferente se aplicado em um indivíduo adolescente que possua alguma patologia, ou seja, haverá resultados diferenciados.
Não existe uma fórmula de bolo pronto para se obter o corpo desejado em um mês. Na nutrição toda particularidade é levada em consideração, então o que muitas vezes têm efeito positivo para seu corpo, não necessariamente será o melhor para seu colega de academia.
Procure um nutricionista para lhe auxiliar e realizar um tratamento nutricional individualizado.
JP – Dietas que trabalham com grupos limitados de alimentos: à base de carboidratos, proteínas, fibras ou líquido, somente, trazem alguma espécie de deficiência nutricional?
A nutrição é baseada no equilíbrio entre quantidade, qualidade, variedade e moderação. Cada indivíduo possui necessidades diferenciadas, de acordo com faixa etária, sexo, aporte físico, doença concomitante e estado nutricional.
A restrição alimentar é realizada somente em casos objetivos ou quando o indivíduo possui alguma necessidade alimentar específica e se faz obrigatória a limitação, por exemplo, indivíduo que restringe por vontade própria proteína animal (vegetariano), que substitui a proteína animal pela de origem vegetal, o déficit de alguns nutrientes ocorrem em decorrência a esta escolha. Além da substituição via alimento podem ser realizadas via suplementação, porém, cada caso deve ser estudado isoladamente.
É importante manter o consumo de cada grupo alimentar, pois cada um atende a necessidades específicas, sendo assim, se houver restrição de um grupo, haverá ausência de um determinado nutriente.