100 anos sobre rodas e raízes em Pomerode
Fundada em 1925, a Auto Viação Rio do Testo, que depois se transformou em Transporte Coletivo Volkmann, completa um século de existência em 2025
Foto?: Isadora Brehmer/JP
De uma marcenaria ao reconhecimento nacional no turismo rodoviário, a história da Empresa de Transporte Coletivo Volkmann se entrelaça com a da cidade de Pomerode e das famílias que ajudaram a moldá-la. Fundada em 1925, a empresa completa um século de existência em 2025, atravessando gerações, transformações urbanas e tecnológicas — sempre com a missão de transportar pessoas e sonhos.
A história da Volkmann começou em Testo Rega, com Ernesto Volkmann, marceneiro de ofício e visionário por vocação. Na década de 1920, percebendo a dificuldade de locomoção dos vizinhos e clientes, decidiu adaptar bancos de madeira à carroceria de seu caminhão Chevrolet. Assim, enquanto entregava insumos para sua marcenaria, levava consigo também passageiros — iniciando o que viria a ser um dos serviços mais tradicionais da cidade.
Em 1925, as primeiras viagens regulares começaram. Duas vezes por semana, às terças e sextas-feiras, o caminhão partia de Testo Rega às 7h rumo a Blumenau, retornando às 14h. No ano seguinte, Ernesto trocou o Chevrolet por um Dodge, ao qual adaptou uma carroceria semi-fechada de madeira, construída por ele mesmo. A evolução não parou por aí: em 1927, ele criou a primeira tabela de preços para as viagens, formalizando o negócio.

A estrada como missão
Além do transporte de passageiros, Ernesto participou ativamente da infraestrutura da cidade. Em 1929, liderou uma equipe de oito a dez homens no alargamento da estrada entre Testo Central e o centro de Pomerode.
Sua esposa, Alwine, cuidava dos filhos e era também responsável por alimentar os trabalhadores com refeições preparadas em casa. A família Volkmann crescia ao lado da empresa: os filhos Herbert, Waldemar, Reimundo e Irene logo se envolveriam nas atividades da firma, criando uma tradição familiar que perdura até hoje.
Na Revolução de 1930, o terceiro caminhão adaptado de Ernesto foi requisitado para transportar revolucionários entre Blumenau e Jaraguá do Sul. Carregando a bandeira do Brasil, o veículo tornou-se símbolo de progresso e patriotismo, sendo o mais imponente da região naquele período.
Desafios da guerra, criatividade da paz
Durante a Segunda Guerra Mundial, o racionamento de combustível impôs novos desafios. Ernesto e seus filhos precisaram adaptar os ônibus para funcionarem com gasogênio, tecnologia improvisada para manter os veículos circulando. Para atravessar o posto de controle no trevo de Badenfurt, era necessário solicitar autorização — uma espécie de “alfândega” local.
Nasce a Volkmann
Com a emancipação de Pomerode em 1959, a Auto Viação Rio do Testo se tornou oficialmente a Empresa de Transporte Coletivo
Volkmann Ltda., fundada em 12 de maio daquele ano. A nova fase da empresa foi marcada pela gestão de Ernesto ao lado dos filhos Waldemar e Reimundo, que assumiram a condução dos negócios.
Naquela época, o trabalho era coletivo e multifuncional. Motoristas também eram mecânicos, trocavam pneus na estrada, lavavam os veículos, cuidavam da manutenção. O espírito colaborativo era reforçado desde cedo: os filhos dos sócios, ainda crianças, já atuavam como cobradores, lavadores, faxineiros e até motoristas — mesmo sem habilitação, como era costume nas comunidades do interior.
Turismo sobre rodas: a era dourada
A Volkmann não foi apenas transporte coletivo — foi também protagonista do turismo rodoviário em Santa Catarina e no Brasil. Por meio da agência Volkstur, a empresa operava pacotes turísticos para destinos como o Chile, o Nordeste brasileiro e até a Europa. Dois novos ônibus se integravam à frota a cada ano, num sinal do crescimento acelerado e da confiança no setor.
“Era muito bom comprarmos dois ônibus novos por ano, isso nos deixava muito feliz. Fazíamos até confraternização com os funcionários e convidados para comemorar”, Iria Volkmann, nora do fundador, Ernesto. Com fornecedores como Marco Polo e Nielson (hoje Busscar), a empresa mantinha relações comerciais sólidas e negociava os veículos sem financiamento: “Pagava seis parcelas adiantadas, recebia o ônibus e depois pagava o restante, sem juros.”
Em 2013, o reconhecimento veio de forma oficial: a Volkmann foi homenageada como empresa de destaque nacional no setor de turismo e fretamento, durante evento da ANTTUR, realizado em Recife (PE).
A serviço da comunidade
A Volkmann também prestava serviços essenciais à comunidade local. Antes da existência de transporte público regular, a empresa oferecia fretamento para grandes indústrias como Karsten, Malwee e Porcelana Schmidt. Por volta dos anos 2000, o serviço foi aberto a toda a população de Pomerode, garantindo mobilidade urbana e inclusão.
Em tempos anteriores, era comum até fretar ônibus para cerimônias fúnebres. Como poucos possuíam automóveis, a empresa era procurada para transportar familiares e amigos até os cemitérios da região. Assim, tornou-se parte do cotidiano das pessoas, não apenas nos momentos de lazer, mas também de dor e despedida.
A força do feminino nos bastidores
Por trás do sucesso da empresa, houve mulheres que desempenharam papéis fundamentais. Iria começou cozinhando para os motoristas e mecânicos na antiga oficina de madeira. O café das 9h, o almoço do meio-dia, o lanche das 15h e até o último lanche às 17h30 para o motorista da rota noturna eram preparados com cuidado e carinho.
Com o tempo, assumiu a parte administrativa da empresa, após um convite do sogro. Enfrentou os desafios de uma contabilidade feita à mão, com controles em cadernos e pagamentos em dinheiro vivo. “Era tudo anotado à mão, os motoristas levavam o dinheiro junto, pagavam hotéis no destino. A gente ia atrás de licenças em Joinville, São José, datilografava os documentos. Era trabalhoso, mas gostava muito.”
Pioneirismo registrado
A empresa ostenta com orgulho o registro número 39 do Deter (atual SIE), sendo uma das mais antigas do estado no setor de transporte coletivo. Sua trajetória também inclui o pioneirismo em infraestrutura: Ernesto construiu sozinho a ponte próxima ao Reinicke, ligando sua marcenaria à casa do outro lado do rio, onde havia uma represa com roda d’água para mover as máquinas.
Legado familiar e futuro em movimento
Hoje, dois dos filhos de Waldemar, Elke Steuck e Gunther Volkmann, continuam como sócios da Volkmann, juntamente com Iria, esposa de Reimundo. Atualmente, a empresa é administrada por Peter Volkmann, bisneto de Ernesto, dando continuidade ao legado iniciado há 100 anos.
Frank começou na empresa como de cobrador de ônibus, depois motorista, até ser o diretor, cargo que ocupou até 2016, sendo sucedido pelo filho, Peter.
“Trabalhei em todos os setores, até mesmo porque comecei muito cedo, eu tinha 11 anos. Hoje atuo na área comercial, mas o que eu gosto mesmo é dirigir os ônibus, e estar em contato com nossos clientes, acompanhando nas viagens, e nos momentos de lazer deles. Para mim é um momento de descontração também, embora esteja a serviço, mas é sempre muito gratificante”, disse.
O filho Peter, atual diretor, reforça o orgulho em dar continuidade a este legado cheio de história. “Sou muito grato em fazer parte dessa história, como a 4ª geração a administrar a empresa e poder deixar a minha contribuição para esse legado”.
A empresa, que começou como uma marcenaria e se transformou em transporte, turismo e centro comercial, mantém-se fiel às raízes familiares e ao compromisso com a comunidade.
A história da Volkmann é, antes de tudo, uma história de resiliência, trabalho coletivo e visão de futuro. Uma semente plantada por Ernesto em 1925, que germinou, floresceu e seguiu rodando — transportando gerações, conectando caminhos e deixando uma marca permanente nas estradas e corações de Pomerode.
