Bebê Arco-Íris: quando a esperança renasce em forma de vida
Ivonete dos Santos conta sua história de renascimento enquanto mãe, com a chegada de Lorenzo, seu bebê arco-íris
Foto: Isadora Brehmer / JP
Assim como o arco-íris pode surgir depois de uma tempestade, quase como um lembrete da importância da esperança, o nascimento de um filho após a perda de outro é um presente na vida de pais e mães.
Ivonete dos Santos vivenciou a experiência de ter um bebê arco-íris em sua vida. Lorenzo dos Santos Figurski, hoje com quatro anos, veio como um sopro de leveza na vida da moradora de Pomerode, para fazer companhia, também, à filha mais velha de Ivonete, Pollyana, de 20 anos.
“Eu sempre quis ser mãe e tive inicialmente a Pollyana. Depois de alguns anos, eu tive vontade de ter outro filho, mas tinha certo receio por causa da minha idade, estava quase com 40 anos. Só que a Pollyana também me disse que gostaria muito de ter um irmão ou irmã, mesmo já com 15, 16 anos e, refletindo sobre isso, decidi ter mais um filho”, relembra Ivonete.
Em 2018 ela engravidou da segunda filha, Valentina, que nasceu no dia 08 de maio de 2019. No entanto, a bebê faleceu apenas dois dias após o seu nascimento. “Infelizmente ela nasceu com múltiplas deficiências, como mielomelingocele, microcefalia, palato, lábio leporino, problema renal, além de problemas cardíacos”, relembra a mãe.
Ivonete conta que fez todo o pré-natal com um médico especialista na área, seguindo os cuidados e que, com cerca de quatro meses de gestação, houve um dia em que passou muito mal e procurou o médico, mas ele não viu que havia estes problemas.
“Eu sentia que havia alguma coisa que não ia bem, que estava acontecendo algo que não era natural da gestação. Então eu acabei procurando outro ginecologista. Este outro médico logo me informou que minha filha tinha lábio leporino e que, provavelmente, teria palato aberto. Consequentemente, havia uma grande chance de ela ter problemas cardíacos, assim como outras deficiências. Quando ele me informou tudo isso, senti que o meu mundo desabou”, revela.
Após passar por todos os exames e confirmar os diagnósticos, Ivonete recebeu a notícia que nenhuma mãe jamais gostaria de ouvir, de que a filha poderia nascer sem vida ou então falecer poucas horas após o seu nascimento. “Mas eu queria a minha filha comigo, queria muito”, disse.
Depois do nascimento de Valentina, uma das primeiras necessidades foi a cirurgia cardíaca, mas a bebê já precisaria passar por cerca de 18 procedimentos cirúrgicos em suas primeiras horas de vida. Para a cirurgia no coração, a bebê teria de ser transferida para outro hospital, mas este processo de transferência não pôde ser feito com um helicóptero, que era o mais indicado, sendo feito via terrestre.
“Quando a Valentina chegou ao outro hospital, ela sofreu uma parada cardíaca, mas foi reanimada. Mas quando ela começou a ser preparada para a cirurgia, ela teve uma nova parada e, desta vez, não foi possível reanima-la. Eu estava internada em outro hospital e, quando minha irmã e minha cunhada vieram falar comigo, eu já sabia, porque a mãe sente este tipo de coisa”, comenta Ivonete.
A moradora de Pomerode revela o choque com a notícia e o sentimento indescritível de perda e vazio. “Eu fiquei muito mal, porque eu tive a Valentina e vim para casa sem ela. Tanto que eu não conseguia mais ficar em casa depois de um tempo, eu precisava sair, ir à casa dos meus pais. Depois de cerca de 40 dias pedi para voltar a trabalhar. Eu sentia muitas saudades da Valentina, ela era linda, com os olhinhos azuis, o cabelo loiro. Eu pedia a Deus que me deixasse sonhar com ela, já que ela não pôde ficar comigo, aqui, e todas as noites eu sonhava com a Valentina”, conta.
Depois da tempestade, vem o arco-íris
No ano de 2020 veio a notícia de que a esperança estava voltando à vida de Ivonete. Naquele ano, ela descobriu que estava grávida novamente e, em 2021 nasceu Lorenzo dos Santos Figurski, o seu terceiro filho.
“Foi uma gestação que também teve as suas dificuldades e eu sentia ele convulsionar, tanto que ele possui convulsões até hoje, além de outras dificuldades que enfrentei. Ele nasceu em 18 de fevereiro de 2021, com cesárea, porque ele era muito grande, assim como foi com a Pollyana e a Valentina. O Lorenzo veio em um momento difícil para mim, mas me trouxe muita alegria”, declara a mãe.
Ivonete admite que os primeiros meses foram difíceis, pois Lorenzo chorava muito e precisava do colo constantemente. Mesmo assim, o amor pelo filho sempre foi incomparavelmente maior do que isso, e a mãe afirma que, hoje, o filho é a sua companhia constante.
“Ele é muito apegado a mim, quer estar comigo a todo o momento. Mas ele tem um coração muito bom, é inteligente, esperto e extremamente amoroso. Ele conhece de tudo, sabe diferenciar materiais, O Lorenzo ainda tem episódios de convulsão, que ainda não descobrimos o motivo para acontecerem, mas estamos monitorando”.
Apesar da dor da perda, Ivonete encontrou em Lorenzo uma luz em meio à escuridão. Desde pequeno, o menino se mostrou diferente: afetuoso, intuitivo e surpreendentemente inteligente para a idade.

Foto: Isadora Brehmer / JP
“Ele é super esperto, muito inteligente. Você conversa com ele, você vê o menino que ele é. Com quatro anos, já reconhece modelos de carro só de olhar. Ele olha e diz: ‘Mãe, esse aí é um Jeep Renegade’. Eu nunca precisei ensinar isso”, conta Ivonete, com um sorriso orgulhoso.
A ligação entre os dois é profunda. “Ele fala: ‘Mãe, eu te amo, eu nunca vou te abandonar. Mas você, também, nunca me abandona, tá?’”, relembra, emocionada. Onde ela vai, ele quer estar junto — seja no supermercado, seja em uma simples ida à loja.
Mas há algo mais em Lorenzo que chama a atenção. Um senso emocional aguçado e uma conexão espiritual inexplicável. Ivonete acredita que a filha falecida, Valentina, deixou com ele um legado. “Desde que engravidei do Lorenzo, nunca mais sonhei com ela. É como se ela tivesse passado o bastão. Entregou pra ele a missão dela”, relata.
Lorenzo, mesmo sem conhecer a irmã, demonstra uma sensibilidade que surpreende. “Ele diz que sente saudade dela, que vai visitar a Valentina no céu. Se vê um arco-íris, fala: ‘Olha mãe, eu sou aquele arco-íris’. Eu nunca falei isso pra ele. Vem dele”, conta Ivonete, com os olhos marejados.

Foto: Isadora Brehmer / JP
Hoje, a rotina é dividida com a ajuda da filha mais velha, Pollyana com a sogra dela, que cuidam de Lorenzo em alguns dias da semana. A relação entre os irmãos é de muito carinho. “Ele dorme agarrado nela. E em casa também não quer ficar longe de mim. À noite, sempre acaba vindo dormir do meu lado. Desde que nasceu, sempre dormiu em cima de mim pra ficar mais quentinho. Aí acostumou, né?”
Mesmo com todo o amor que sente, Ivonete reconhece que seu coração ainda carrega uma ausência. “A gente não tá completa enquanto não completa o ciclo de mãe. Sempre quis ter dois filhos. Como a Valentina faleceu, pedi a Deus mais um. E Ele me deu o Lorenzo, meu filho iluminado. A Valentina é meu raio de luz, o pouco que passou comigo na UTI, me fez forte e guerreira. Preciso lutar e nunca desistir. Meus filhos precisam de mim, e muito”.
Para a filha mais velha, Pollyana, Ivonete também deixa uma mensagem de amor.
“Agradeço muito por ser você, a razão pela qual nunca parei de lutar. Eu sei que trouxe você a este mundo quando ainda tinha muito para curar e lamento que você tenha enfrentado desafios crescendo, enquanto eu estava crescendo também. Obrigado por ser meu alicerce, minha companheira e meu primeiro amor infinito”, finaliza.
