Por meio da delicadeza para filetes em ouro, uma vida construída na Porcelana Schmidt
Vitor Goede, ex-funcionário da Porcelana Schmidt do setor de pintura de filetes de ouro, fala sobre os desafios do ofício e o orgulho em ter feito parte da história da empresa
Foto: Isadora Brehmer / JP
Uma vida construída graças ao trabalho em uma das principais empresas da história de Pomerode. Vitor Goede foi funcionário da empresa por 35 anos e atuou em um dos setores que mais exigiam precisão e talento para uma boa entrega do resultado final.
A sua trajetória na Porcelana Schmidt começou em 1º de março de 1958, com o número de registro 3.014, para trabalhar no setor de pintura, no grupo responsável por fazer os filetes de ouro nas peças produzidas pela empresa.
Neste setor, Vitor trabalhou por mais de 20 anos, atuando com maestria em uma das mais complicadas e desafiadoras etapas da produção de uma peça de primeira linha da Porcelana Schmidt.
“Era um trabalho difícil e delicado, que exigia muita prática. Para aprender, era um processo demorado, de cerca de seis meses, até que realmente você pudesse começar a produzir algumas peças. O trabalho era bem artesanal, nós recebíamos a tinta com ouro de forma líquida, importada do Japão, assim como os pinceis, que eram bem finos para que se pudesse fazer a linha perfeita”, conta Vitor.
Por este motivo, conseguir realizar o trabalho da melhor forma não era uma tarefa que todos conseguiam executar. Segundo o aposentado, eram necessários cerca de seis meses até que o funcionário aprendesse exatamente como deveria ser feito o filete de ouro e conseguisse fazê-lo de forma perfeita.
Quando Vitor chegou à equipe da Porcelana Schmidt, eram cerca de 12 funcionários no setor de pintura. E, para quem conseguia aprender o ofício da pintura com filete de ouro a valorização era boa.
“Nem todas as pessoas conseguiam aprender a fazer o filete de ouro, pois era muito difícil, então quem conseguia aprender era porque tinha talento. Nosso setor era muito valorizado, pela dificuldade do trabalho feito, e nós atuávamos por trabalhos feitos. Quanto mais era produzido, mais se ganhava. No fim já tínhamos tanta prática, que se tornou natural, mas as pessoas que vinham conhecer ficavam impressionadas, por perceberem o quanto era um trabalho difícil”, reforça o ex-funcionário da Porcelana Schmidt.

Detalhe do filete e dos carimbos em ouro, nas peças. (Foto: Isadora Brehmer / JP)
Além da pintura com filetes de ouro, algumas peças tinham detalhes feitos com carimbos, também com tinta de ouro, que resultavam em peças que eram verdadeiras obras de arte. Por este motivo, muitas delas tinham um valor mais elevado.
Em fevereiro de 1978, Vitor foi promovido a mestre do setor de pintura e, em março de 1985 passou à função de supervisor de formação, decoração e expedição.
Pensando em parte de sua trajetória na Porcelana Schmidt, Vitor cita uma figura muito especial, que é lembrada com carinho. “Lembro com muita gratidão do Sr. Ludwig Basthen, que era supervisor do setor que depois eu assumi e foi como um pai para mim. Tínhamos uma amizade devido ao futebol, pois eu jogava no Floresta e ele foi muitos anos presidente do Floresta. Mas na empresa tínhamos muito respeito a nossa relação de funcionário e chefe do setor. Tudo o que era necessário na pintura era ele quem providenciava e sempre pensei nele com um pai dentro da empresa”, comenta.

Peças da Porcelana Schmidt guardadas com carinho pela família. (Foto: Isadora Brehmer / JP)
O ex-funcionário relembra que, na época em que integrou o quadro de colaboradores, a empresa era o Grupo Schmidt, com outras duas fábricas em Campo Largo (PR) e Mauá (SP). E, mesmo com o declínio e a manutenção da produção apenas no Paraná, a Porcelana Schmidt segue sendo considerada uma das maiores do Brasil e da América Latina. E na fábrica de Campo Largo, ainda existe o maior forno contínuo para a passagem da porcelana para queima do verniz do mundo.
Vitor encerrou a sua jornada na Porcelana Schmidt em fevereiro de 1993. O aposentado também comenta sobre o sentimento de tristeza ao pensar o declínio da empresa em Pomerode, com o passar dos anos.
“A Porcelana Schmidt sentiu muito a mudança na moeda do Brasil e também sentiu a mudança no mercado, pois enquanto outros locais, principalmente Europa deixavam de produzir algumas peças que tinham custo maior de produção, na Porcelana seguiu se fazendo. Peças mais simples como pratos e xícaras são torneados, e outras como cafeteiras, sopeiras, peças grandes, são fundidas, o que torna o trabalho mais complicado e, portanto, mais caro”, explica.
Mesmo assim, o sentimento em ter feito parte de uma história tão rica e importante é de orgulho para Vitor, já que Pomerode ganhou notoriedade também pela existência da fábrica e da marca na cidade.
“Foi uma jornada longa e muito positiva para minha vida. Hoje em dia, quando falamos na Porcelana, eu sinto muito orgulho de ter trabalhado lá uma vida inteira, praticamente construí a minha vida lá, além de ter feito muitos amigos queridos ao longo daqueles anos. É um orgulho poder dizer que trabalhei uma vida toda na Porcelana Schmidt, porque, na empresa, pude construir a minha vida, conquistar tudo o que temos hoje. Hoje estamos aposentados e sempre agradeço a Deus, todos os dias, pelo que Ele me deu e a forma como me guiou. Tudo o que sou eu devo a Porcelana Schmidt, graças a esta empresa que conquistamos tudo o que temos em nossa vida, então existe a gratidão com certeza”, finaliza.
