Cultura

Você conhece as histórias por trás dos nomes do Teatro Municipal de Pomerode?

Do legado de Rodolfo Siewert ao glamour do antigo Hotel Oásis e à trajetória internacional de Marlene Dietrich, nomes do Centro Cultural ajudam a preservar a memória de Pomerode

7 de novembro de 2026

Foto: Daniel Zimmermann

Quem entra no Teatro Municipal de Pomerode para assistir a um espetáculo talvez esteja atento ao palco, às luzes e à apresentação. Mas, antes mesmo de as cortinas se abrirem, o espaço já conta histórias. Algumas delas estão nos próprios nomes que batizam os ambientes do complexo cultural.

Inaugurado em 13 de agosto de 2009, o Teatro Municipal tornou-se um dos principais espaços destinados à cultura e às artes em Pomerode. Localizado na Rua Hermann Weege, no Centro Cultural, o teatro ocupa uma área que também carrega parte importante da história do município. E os nomes associados ao local ajudam a lembrar personagens que, cada um à sua maneira, deixaram marcas na comunidade.

Um homem ligado à cultura e à vida comunitária

O auditório do Teatro Municipal recebeu o nome de Rodolfo Siewert, tradicional cidadão pomerodense que teve participação ativa na vida cultural e comunitária do município.

Filho de agricultores e o mais velho de nove irmãos, Siewert começou cedo a assumir responsabilidades. Ainda jovem, trabalhou no departamento de venda de porcelanas da Indústria e Comércio Hermann Weege. Em 1949, casou-se com Ingrid Blank e, anos depois, mudou-se para Balneário Camboriú, onde administrou um hotel.

O retorno a Pomerode ocorreu três anos depois, em razão de problemas de saúde. Em 1958, ele e a esposa fundaram a Comercial Siewert.

Mas foi fora dos negócios que Rodolfo também construiu uma parte importante de seu legado. Membro ativo da Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil, foi tesoureiro da Paróquia Evangélica de Rio do Testo durante 18 anos.

Rodolfo Siewert em seu casamento com Ingrid (Foto: Reprodução)

Na cultura, sua atuação foi ainda mais abrangente. Siewert incentivava música, teatro, dança, grupos folclóricos e Clubes de Caça e Tiro. Também participou da organização dos primeiros festivais de bandas e bandinhas de Pomerode.

O teatro, inclusive, fazia parte da história familiar. Na juventude, foi incentivador do grupo teatral de Pomerode, do qual sua esposa Ingrid participava.

Sua trajetória também passou pela política. Entre 1977 e 1983, exerceu o cargo de vice-prefeito de Pomerode, ao lado do então prefeito Henrique Drews Filho. Rodolfo morreu em 20 de janeiro de 2004, vítima de parada cardíaca.

Hoje, seu nome está justamente onde a cultura ganha espaço: no auditório que recebe apresentações, espetáculos e diferentes manifestações artísticas.

Ele transformou um hotel em cenário de luxo

Outra história curiosa ligada ao Centro Cultural é a de Hermann Gehrmann, nome dado ao Espaço Cultural.

A trajetória do alemão que chegou ao Brasil na década de 1920 poderia ter seguido por caminhos bem diferentes. Inicialmente ligado à lavoura, Gehrmann encontrou na medicina popular uma forma de sustento. Ao chegar à região de Rio do Testo, passou a atender pessoas que buscavam seus conhecimentos como curandeiro.

Os negócios prosperaram e, com o dinheiro obtido na atividade, foi construído um prédio que posteriormente seria transformado em hotel após a perseguição às práticas de medicina alternativa.

Hermann Gehrmann (à esquerda), com os irmãos (Foto: Reprodução)

Nascia o Hotel Oásis, que abriu as portas por volta de 1946 e funcionou até aproximadamente 1963 ou 1964.

O estabelecimento se tornou sinônimo de requinte em Pomerode. Viajado e admirador de arte e gastronomia, Hermann trouxe para o município referências das festas luxuosas que conheceu em suas viagens. O hotel recebia orquestras internacionais e atraía visitantes de diferentes partes do Brasil.

Por cerca de 15 anos, o Oásis ocupou um lugar especial no imaginário da comunidade. As roupas sociais de Hermann, o cuidado com os móveis, cortinas, toalhas e pratos ajudavam a construir uma atmosfera que contrastava com a realidade cotidiana da época.

Após a morte da esposa, em 1963, os negócios perderam força. Hermann deixou Pomerode no final da década de 1960 e passou a viver em Joinville. Morreu em 1º de março de 1981, aos cuidados do Ancionato Bethesda.

Hoje, seu nome permanece associado a um espaço cultural de Pomerode, mantendo viva a lembrança de um personagem que ajudou a construir um dos capítulos mais peculiares da história local.

Hotel Oasis (Foto: Reprodução / Internet)

Uma estrela alemã que conquistou Hollywood

Se os dois primeiros homenageados têm uma ligação direta com a história de Pomerode, o nome da Praça Cultural Marlene Dietrich remete a uma personalidade de projeção internacional.

Nascida em Berlim, em 1901, Marie Magdalene Dietrich começou sua trajetória artística dividindo-se entre o teatro e o cinema. A carreira ganhou projeção internacional a partir de 1930, quando interpretou Lola Lola em O Anjo Azul.

A parceria com o diretor Josef von Sternberg a levou a Hollywood, onde participou de outros filmes. Entre eles, Marrocos, que lhe rendeu uma indicação ao Oscar de melhor atriz, e O Expresso de Xangai, um dos grandes sucessos de sua carreira.

Marlene tornou-se cidadã norte-americana em 1939, depois de recusar um convite para retornar à Alemanha e trabalhar para a propaganda nazista. Ao longo da carreira, atuou em 55 filmes e também se destacou como cantora.

Sua relação com o Brasil aconteceu em 1959, quando esteve no Rio de Janeiro e gravou o álbum Dietrich in Rio. Seu último grande papel no cinema foi em Julgamento em Nuremberg, de 1961.

Marlene Dietrich morreu em Paris, em 6 de maio de 1992, e foi sepultada em Berlim, sua cidade natal.

Marlene Dietrich foi recebida pelo presidente Juscelino Kubitschek no Brasil (Foto: Reprodução)

Nomes que ajudam a contar a história

Mas, afinal, qual a importância de manter esses nomes vivos? Para o secretário de Turismo, Cultura e Desenvolvimento Econômico de Pomerode, Manfredo Goede, as homenagens cumprem justamente o papel de preservar a memória do município.

“Preservar os nomes das pessoas que foram homenageadas nos espaços do nosso Teatro Municipal é também preservar a história de Pomerode. Cada nome registrado no auditório, no espaço cultural e na praça cultural representa pessoas que, em diferentes momentos, contribuíram para a construção da nossa cultura e da nossa identidade. Manter essas homenagens vivas é uma forma de reconhecer esse legado e, ao mesmo tempo, permitir que moradores e visitantes conheçam as pessoas que ajudaram a escrever a história do município.”

Segundo Goede, a própria estrutura cultural ganha significado quando associada às pessoas e às histórias que fazem parte dela.

“Um espaço cultural não é feito apenas de sua estrutura física; ele é feito de memória, de histórias e, principalmente, de pessoas. Valorizar esses nomes é garantir que essa história continue sendo contada às próximas gerações.”

Foto: Daniel Zimmermann

Mais do que nomes

A escolha desses nomes transforma o Centro Cultural em algo maior do que um endereço para espetáculos. Cada espaço carrega uma história diferente: a dedicação de um empresário à cultura e à comunidade, o glamour de um hotel que marcou uma época e a trajetória internacional de uma artista que se tornou símbolo do cinema.

O próprio local onde o teatro está instalado também ajuda a contar essa história. O atual Centro Cultural ocupa a área do antigo Complexo Weege, um dos marcos industriais do Vale do Itajaí. Em 2003, a área foi desapropriada pelo município, diante da possibilidade de leilão e da intensa especulação imobiliária.

Se hoje o palco recebe artistas, músicos, atores e diferentes manifestações culturais, os nomes espalhados pelo espaço funcionam como pequenas placas de memória.

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