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Viver com Aids é possível, com o preconceito não

No dia 1º de dezembro é comemorado o Dia Mundial de Combate à Aids. A data simboliza a luta de milhões de pessoas pelo mundo que batalham contra a doença e, mais do que isso, vem para conscientizar a população da necessidade da prevenção. Em virtude disso, Agnes Kloehn Jandre, resolveu compartilhar sua história e mostrar para a sociedade que a pessoa soro positivo, é merecedora de respeito.

1 de junho de 2015

No dia 1º de dezembro é comemorado o Dia Mundial de Combate à Aids. A data simboliza a luta de milhões de pessoas pelo mundo que batalham contra a doença e, mais do que isso, vem para conscientizar a população da necessidade da prevenção.
Em virtude dessa conscientização, Agnes Kloehn Jandre, resolveu compartilhar sua história e mostrar para a sociedade que a pessoa soro positivo, é merecedora de respeito, assim como o portador de qualquer outra doença, curavel ou não.
Agnes descobriu que era soro positivo há 16 anos, quando estava grávida de quatro meses da primeira e única filha, vinda do segundo casamento. A história de Agnes com a doença começou no dia 14 de agosto de 1996, e desde lá, passou por muitas etapas. Etapas de superação, de preconceito, de novas conquistas, de fuga e de adequação.
Com a confirmação da doença em um exame realizado por seu médico, Agnes viu seu mundo estremecer ao perder o apoio de grande parte de sua família. Para ela, a maior dificuldade até então. “Tenho três irmãos, apenas um deles ainda fala comigo. Meus três filhos do primeiro casamento, em nenhum momento me deixaram. E, claro, meu atual marido, também não. Sou grata a eles por tudo que fizeram por mim”, completa.
Ainda em relação ao convívio social, a mudança drástica de comportamento de parentes e amigos, fez com que Agnes refletisse sobre o verdadeiro significado da palavra amor. “Aprendi que mais vale a amizade de um estranho, do que a de um parente. Pois meus amigos de verdade não me abandonaram, já alguns familiares eu não posso dizer o mesmo”, completa.
A rejeição da família não foi a única. “Quando a informação se espalhou, as pessoas começaram a me olhar na rua. Fui apontada em muitos lugares e descobri, naquele momento, quem realmente poderia considerar para vida inteira”, relata.
Com dedos apontados e comentários maldosos tomando conta de sua rotina, Agnes e o marido resolveram sair de Pomerode para iniciar uma nova vida longe de preconceitos. “Ficamos cinco anos morando em Presidente Getúlio. Fomos procurar paz depois que meu marido foi mandado embora do emprego dele”, conta.
A menina que Agnes carregava no ventre não contraiu o vírus, mas por segurança e contra própria, realiza exames anualmente. “Minha filha não é soro positivo. Ela tem a cabeça aberta e faz o exame todos os anos”, fala a mãe.
O tratamento para a doença é eterno e Agnes alerta sobre a importância de efetuá-lo com eficiência. “O tratamento é o mais importante. Tem gente que reage a ele, mas eu, graças a Deus, nunca tive problemas de adaptação”, completa.
A adaptação a nova rotina de medicamentos também não foram um problema para Agnes. “Nunca tive problemas em aceitar a doença. Há tantas outras doenças piores e que matam. Precisei ser forte, mas isso eu sou até hoje. E não tenho vergonha alguma”, afirma.
Vergonha. Talvez para muitos soros positivos essa seja a palavra com maior impacto, depois de preconceito. Afinal, nunca é fácil assumir uma doença. Ainda mais quando ela é tão vinculada a falta de cuidado.
O número crescente de portadores do vírus é perceptível a cada novo exame realizado no Posto de Saúde do município. “Toda vez que vou ao posto realizar os exames de rotina, eu vejo gente nova. Com isso eu observo que as pessoas não se cuidam”, afirma Agnes.
Quando a conversa chega na parte da contração da doença, Agnes é enfática “nunca me interessei de onde peguei. Eu e meu marido nunca brigamos por causa disso, pelo contrário, estamos mais unidos do que nunca agora”, relata.
O maior medo de quem contrai a doença é ficar sozinho. No entanto, todo o amor e carinho, de quem realmente se importa, só tem a crescer e enaltecer a relação. “Poucas pessoas ainda conversam comigo. Vejo que algumas ainda são leigas e acham que essa doença se pega com um aperto de mão, ou abraço. Isso é ignorância”, completa.
A melhor forma de evitar o contato com a doença é a prevenção. E, de maneira simples, a prevenção pode evitar grandes riscos. “As mulheres tomam anticoncepcionais, mas isso só evita a gravidez. A camisinha é fundamental para proteção. E mais do que isso, sou completamente contra as pessoas que sabem ser portadoras da doença, mas a transmitem conscientemente para outras”, afirma.
O desabafo de Agnes pode ser acompanhado pela rádio há alguns anos, mas, pela primeira vez, Agnes sentiu a necessidade de compartilhar com um jornal impresso a sua ânsia por mais respeito e consideração da sociedade com os portadores do vírus, assim como a conscientização da população na sua prevenção.

A doença
A sigla Aids significa Síndrome da Imunodeficiência Adquirida. O vírus da Aids é conhecido como HIV e encontra-se no sangue, no esperma, na secreção vaginal e no leite materno das pessoas infectadas pelo vírus. Objetos contaminados pelas substâncias citadas, também podem transmitir o HIV, caso haja contato direto com o sangue de uma pessoa.
Após o contágio, a doença pode demorar até dez anos para se manifestar. Por isso, a pessoa pode ter o vírus HIV em seu corpo, mas ainda não ter Aids. Ao desenvolver a Aids, o HIV começa um processo de destruição dos glóbulos brancos do organismo da pessoa doente. Como esses glóbulos brancos fazem parte do sistema imunológico (de defesa) dos seres humanos, sem eles, o doente fica desprotegido e várias doenças oportunistas podem aparecer e complicar a saúde da pessoa. A pessoa portadora do vírus HIV, mesmo não tendo desenvolvido a doença, pode transmiti-la.

Prevenção
A prevenção é feita evitando-se todas as formas de contágio citadas acima. Com relação a transmissão via contato sexual, a maneira mais indicada é a utilização correta de preservativos durante as relações sexuais. Atualmente, existem dois tipos de preservativos, também conhecidos como camisinhas : a masculina e a feminina. Outra maneira é a utilização de agulhas e seringas descartáveis em todos os procedimentos médicos. Instrumentos cortantes, que entram em contato com o sangue, devem ser esterilizados de forma correta antes do seu uso. Nas transfusões de sangue, deve haver um rigoroso sistema de testes para detectar a presença do HIV, para que este não passe de uma pessoa contaminada para uma saudável.

Transmissão
A Aids é transmitida de diversas formas. Como o vírus está presente no esperma, secreções vaginais, leite materno e no sangue, todas as formas de contato com estas substâncias podem gerar um contágio. As principais formas detectadas até hoje são : transfusão de sangue, relações sexuais sem preservativo, compartilhamento de seringas ou objetos cortantes que possuam resíduos de sangue. A Aids também pode ser transmitida da mão para o filho durante a gestação ou amamentação.

Tratamento
Infelizmente a medicina ainda não encontrou a cura para a Aids. O que temos hoje são medicamentos que fazem o controle do vírus na pessoa com a doença. Estes medicamentos melhoram a qualidade de vida do paciente, aumentando a sobrevida. O medicamento mais utilizado atualmente é o AZT ( zidovudina ) que é um bloqueador de transcriptase reversa. A principal função do AZT é impedir a reprodução do vírus da Aids ainda em sua fase inicial. Outros medicamentos usados no tratamento da Aids são : DDI ( didanosina ), DDC ( zalcitabina ), 3TC ( lamividina ) e D4T ( estavudina ). Embora eficientes no controle do vírus, estes medicamentos provocam efeitos colaterais significativos nos rins, fígado e sistema imunológico dos pacientes.
Cientistas do mundo todo estão trabalhando no desenvolvimento de uma vacina contra a Aids. Porém, existe uma grande dificuldade, pois o HIV possui uma capacidade de mutação muito grande, dificultando o trabalho dos cientistas no desenvolvimento de vacinas.

Palavra de quem vive a doença
Hoje não existem mais grupos de risco, estamos todos no mesmo barco. Hoje sou eu. Amanhã pode ser você, seu filho, seu neto. Por isso, peço-lhe que tente se colocar em meu lugar, apenas por alguns minutos e reflita sobre o quanto é difícil para nós, buscar emprego e as pessoas fecharem a porta dizendo que não há vagas, mesmo tendo um placa de “admite-se” na entrada; imagine-se entrando em um lugar público e as pessoas te olharem como se fosse uma pessoa estranha; pense em como é duro embarcar num ônibus, sentar-se ao lado de alguém e esse alguém levantar-se só porque você se sentou; já pensou em como é dolorido vermos nossos filhos chegarem em casa dizendo que foram discriminadas só porque seus pais são portadores do HIV?
Pensou? É isso que nós, portadores do HIV, vivemos e lutamos todos os dias da nossa vida. Mas mesmo assim seguimos em frente, porque sabemos que somos iguais a vocês. Agora, é preciso que vocês façam sua parte. Deixem o preconceito e a discriminação, tratem-nos com respeito, porque assim como vocês, somos humanos e queremos ser tratados iguais a vocês. Isso, com certeza, fará uma grande diferença em nossas vidas. Fará cm que vivamos mais felizes e melhor. E não se esqueça, amanhã poderá ser alguém que você ama ou até você mesmo.
O nosso maior desafio não é aprender a viver com a doença, mas com o preconceito.

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