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Um direito (até agora) negado

Toda mãe quer o bem do seu filho. A frase é comum entre as mães e quem já passou pela experiência da maternidade garante que isto é fato comprovado.

1 de junho de 2015

'Toda mãe quer o bem do seu filho'. A frase é comum entre as mães e quem já passou pela experiência da maternidade garante que, realmente, a frase é fato comprovado. Como o bem-estar do filho é colocado em primeiro lugar na vida de cada mãe, com as mamães de primeira viagem não seria, obviamente, diferente.
Deise Küster, é mãe da pequena Samanta, de apenas dois meses. Por ser sua primeira filha, ela achava, inicialmente, que o choro constante, vômitos e diarreia, além de uma notável irritação do bebê eram normais. O pediatra que a tratava inicialmente, segundo a mãe, dizia que era normal, mas a criança continuava com os sintomas preocupantes. Aos poucos, essas crises foram preocupando cada vez mais a mãe, que já não via mais normalidade no choro de desespero da filha. A solução foi trocar de médico pediatra.
Todo o histórico da pequena menina foi contado ao novo profissional, particular, que aos poucos foi indicando outros tipos de leite, que não fosse o do peito. Depois de alguns testes e recorrentes crises, o médico receitou um leite sem lactose, cuja lata de 400g custa cerca de R$50,00. Ao iniciar o 'tratamento' com esse novo produto, segundo a mãe, a menina teve uma transformação. 'Eu logo liguei para o pediatra, no outro dia e disse que minha filha havia se transformado, da noite para o dia. Ela ficou calma, não teve crises de vômito e diarreia e claro que meu coração de mãe se acalmou ao ver minha filha melhor. E o médico ainda frisou que ela não poderia, de jeito algum, ficar sem este tipo de leite', conta a mãe.
Só que aos poucos, os pais da menina foram fazendo a contabilidade e constataram que cerca de R$1.000,00 mensais eram destinados apenas ao leite. 'Eu preciso de cinco a seis latas por semana para fazer as mamadeiras dela. Ela mama de duas em duas horas e eu não posso deixá-la sem esse leite, só que apenas o salário do meu marido não é suficiente', desabafa Deise.
Para tentar aliviar a situação, a família recorreu ao Serviço Público de Saúde, na Unidade de Saúde da Família Alwin Klotz, no Centro. Deise conta que no local passou por dois profissionais, um nutricionista e um pediatra, para tentar conseguir o leite pelo Governo Municipal.
'Eu fui à consulta, levei a receita que o pediatra particular passou e o nutricionista disse que o procedimento não era simplesmente pedir o leite, que precisa ser feita toda uma avaliação do caso e depois ver se o bebê precisa realmente do leite sem lactose. Que o papel que eu levei não passava de uma receita médica. Eles ainda disseram, que aos poucos eu preciso inserir o leite ‘normal' na dieta da Samanta, caso contrário, ela não vai se acostumar com esse leite com lactose', relata a mãe.
Segundo ela, ao chegar em casa, mais uma vez resolveu tentar fazer as mamadeiras com o leite 'normal', mas os dias e noites de angústia tornaram a acontecer. A solução foi excluir esse alimento da rotina do bebê e só alimentá-lo com os leites sem lactose.
Mas aos poucos, o orçamento tem pesado cada vez mais. Janete Kopsch Müller, mãe de Deise, alega que a situação da família está muito complicada financeiramente. 'Meu marido teve câncer e tivemos que fazer um empréstimo para pagar todo o tratamento, nossa casa ficou debaixo d'água na enchente de 2011 e fizemos mais um empréstimo para a reforma, e o leite da Samanta é caro. A gente dá um jeito como pode, mas está cada vez mais difícil e ela não pode ficar sem esse leite, é muito sofrimento para ela', relata a avó da menina, com lágrimas nos olhos.
Depois de vários contatos, Deise tornou a marcar uma consulta com a pediatria do Sistema Público de Saúde de Pomerode. Desta vez, outro profissional a atendeu, e segundo ela, não apresentou novidades ao caso. 'Ele reforçou que era preciso ter um laudo de um gastropediatra, para saber se a menina realmente precisa desse tipo de leite, que sem exames comprobatórios não tem como liberar o alimento. Ele ainda disse que não era qualquer pessoa que podia ir lá e simplesmente ficar pedindo o leite, que existem pessoas que têm mais necessidade que a minha filha. Eu fiquei muito nervosa e meu marido e eu chegamos a discutir sim, com o médico. Eu não tenho mais como comprar esse leite e sou cidadã de Pomerode, pago meus impostos como qualquer outra pessoa e quando preciso do atendimento público, eu não tenho o retorno que preciso; eu só quero ajudar minha filha', desabafa.
Além disso, Deise conta que o profissional alegou que caso ela conseguisse um parecer favorável para a compra desse leite, a Secretaria de Saúde ainda não poderia fazer nada, antes de uma avaliação de todos os bens e renda da família e que ela deveria continuar tentando inserir o leite com lactose na dieta do bebê. 'Teve até um médico que falou que esta era uma questão de teimosia da nossa família em não dar o outro leite e que se a criança não perdeu peso, não precisa do leite sem lactose, porque não tem problema nenhum; que só precisa acostumar o bebê'.

A outra versão – O caso já foi levado ao conhecimento da Secretária de Saúde do município, Kelly Dallmann e também do prefeito Rolf Nicolodelli. Nossa equipe tentou contato com Kelly, mas foi informada de que ela estava em uma capacitação em Joinville e não poderia nos atender.
Porém, segundo o médico e diretor técnico em saúde do município, Roberto Amorim Moreira, 'a Prefeitura não está se negando em fornecer este leite, porém precisa se ater ao sistema que existe, mesmo que ele pareça burocrático'.
Ele explicou que a mãe da menina já passou pelas consultas com os médicos pediatras da Rede Pública e com o nutricionista. Mas que eles cumprem os procedimentos e não podem dar um laudo sem o exame que comprove a intolerância à lactose.
'Se a criança não apresentou perda de peso, e apenas diarreia e vômitos, esse não é um sinal exclusivo da intolerância. Pode ser uma bactéria que está no organismo do bebê, ou algum outro tipo de situação, que precisa ser averiguada antes de liberar o leite sem lactose. Pensamos no bem para o bebê e por isso fazemos todo o procedimento que é exigido. Ninguém está negando o benefício, mas não podemos ser negligentes com a questão. A perda de peso não é o único sintoma de intolerância à lactose, mas diarreia e vômito também não são fatores determinantes', explica.
Dr. Roberto disse ainda que a criança foi encaminhada a uma consulta com o gastroenterologista pediátrico, através da unidade pública de saúde de Pomerode. Mas a mãe se recusou a ter que ir a mais uma consulta. 'Foi enviado dessa vez pelo Correio, um documento que diz que é preciso esse encaminhamento. Vamos encaminhar a criança à Blumenau, se não houver como, à Joinville ou até Florianópolis se for o caso; mas é preciso um laudo técnico dessa doença, caso ela exista', explica.
'Nossos profissionais relataram a revolta dos pais e até alguns momentos irritação. Entendemos que os pais querem resolver esse problema com a filha, mas existem meios corretos para que isso seja feito; e sem essa consulta com o especialista, não há como ter uma avaliação profissional do assunto. Só o gastropediatra, através de exames, poderá dizer se há ou não algum tipo de doença', completa.
Antes do fechamento desta edição, a mãe de Samanta entrou em contato com a redação e informou que levou os documentos necessários para o encaminhamento a um gastropediatra e que agora precisa aguardar um retorno da Secretaria de Saúde.

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