Transposição didática
O que é? Há planejamento, preocupação, interesse, durante o processo de ensino e aprendizagem em levar aos alunos o conteúdo programático escolar, dentro de uma transposição didática? Há? O ambiente educativo traduz essa intenção? Busco, inicialmente, a definição para a transposição didática em Philipe Perrenoud “a essência do ensinar, ou…
O que é? Há planejamento, preocupação, interesse, durante o processo de ensino e aprendizagem em levar aos alunos o conteúdo programático escolar, dentro de uma transposição didática? Há? O ambiente educativo traduz essa intenção?
Busco, inicialmente, a definição para a transposição didática em Philipe Perrenoud “a essência do ensinar, ou seja, a ação de fabricar artesanalmente os saberes, tornando-os ensináveis, exercitáveis e passíveis de avaliação no quadro de uma turma, de um ano, de um horário, de um sistema de comunicação e trabalho”.
Já Yves Chevallard amplia o conceito e diz que a transposição didática é composta por três partes distintas e interligadas: o savoir savant (saber do sábio), que no caso é o saber elaborado pelos cientistas; o savoir a ensigner (saber ensinar), que no caso é a parte específica aos professores e que está diretamente relacionada à didática e à prática de condução de sala de aula; e por último o savoir ensigné (saber ensinado), aquele que foi absorvido pelo aluno mediante as adaptações e as transposições feitas pelos cientistas e nós professores.
Para Chevallard, há, portanto, sim, diferenças entre aquilo que se elabora nos espaços puramente científicos e aquilo que é desenvolvido nos ambientes estritamente educativos. Não se trata de diferenças conceituais, mas de diferenças “textuais”, pois elas estão no campo semântico e léxico e, por isso, precisam ser consideradas, porque as transposições as levarão em conta por demais.
Entre os teóricos (Philipe Perrenoud e Yves Chevallard) há uma diferença de décadas, assim, fica claro o porquê da ampliação de um em relação ao outro: a didática, assim como tudo o que a rodeia, é um organismo vivo, com vida independente dentro do corpo escolar. Ela se modifica, se transforma, se (re)faz à medida que a sociedade vai elaborando suas transformações. Não há outra dimensão escolar mais dinâmica que a da didática. Afinal, qualquer que seja o conteúdo a ser ensinado ou absorvido, ele necessariamente terá de passar pela didática.
As reflexões acerca da transposição didática têm de ser entendidas dentro dessa concepção multiforme e ininterrupta. Ela será organizada e proposta no sentido mais amplo dos ambientes educativos e, como tal, levando-se sempre em consideração as transformações teóricas, as transformações de estrutura e os recursos educativos, principalmente os que envolvem as mídias interativas, os equipamentos de informática, os softwares e os hardwares.
Nenhum sistema de ensino, nenhum método de ensino conseguiu provar que ele pode existir em si próprio. Ou seja, jamais os livros, as apostilas, os módulos, os computadores e os laboratórios conseguirão educar, construir uma experiência verdadeira em relação à escola. Todos esses elementos são importantes para a construção do processo educativo. No entanto, sozinhos eles não querem dizer nada. Sozinhos eles perdem força, diluem-se, desaparecem. Isso quer dizer que, qualquer que seja o material, o recurso didático, ele é equivalente ao software. É o software que irá dar vida a todo o processo.
É o software que humaniza os objetos e os deixa à disposição, a serviço da interação, que é onde realmente se dá a educação, na imbricação homem-objetos-meio. Assim sendo, é o professor o melhor software de todos. Ele é o elemento de maior força. Por sua inteligência, sua capacidade de raciocinar com base em fontes diversas, suas várias experiências, ele segue garantindo que o seu sistema “natural” de informações elabore respostas e saídas pertinentes à realidade de cada sala de aula. É o software chamado PROFESSOR que faz movimentar, que dá vida a um hardware chamado escola. Sem a presença dele, não há escola. Ele faz acontecer à transposição didática.
Partindo dessa constatação, precisamos pensar que os recursos, assim como as estruturas físicas, necessitam de uma harmonização e de uma humanização que lhes são muito caras. Uma sala de aula precisa ser um organismo vivo, precisa ter conflitos, precisa ter negociações, precisa ter clima de aprendizagem. Para a existência desse clima, a dúvida é uma questão fundamental, pois onde há dúvida, ou onde ela pode existir sem medo, há pesquisa, há vontade de buscar.
Vale listar que um ambiente educativo pode ser um zoo (aonde o professor leva os seus alunos), uma praça, um cemitério, uma estação de tratamento de água, uma feira de livros, um museu, uma igreja, um campo,… Mas, para existência de um ambiente educativo é necessário que o professor saiba reconhecer cada potencialidade e o objetivo daquele espaço. É preciso fazer uma visita técnica ao local, percorrê-lo por completo com olhar técnico, com um olhar explorador e observador. Só assim será possível perceber quanto pode ser absorvido dali e qual é a melhor abordagem para que essa absorção aconteça. Isso é transposição didática.
É uma dinâmica em que a palavra exagero é a lei. Somente depois de exagerarmos na exploração da composição do ambiente é que ele salta aos nossos olhos. Funciona como um corante colocado em uma célula. Ele é colocado não para destruí-la, mas para ressaltar detalhes de sua composição. Assim é uma aula que tem como objetivo explorar o máximo um conteúdo programático, um ambiente, um objeto de estudo.
Ver o óbvio o aluno já vê diariamente. A transposição didática vai além, ela irá aclarar o ambiente educativo, que é composto pelas junções das estruturas, das habilidades pedagógicas (quase todas subjetivas), das pessoas, das atividades de aprendizagem, dos atos e dos objetivos que permeiam tudo.
Para concluir, o planejamento é importante para que a transposição didática possa acontecer. Esse, lança o olhar para os conteúdos que são definidos para aquele momento e traduz, em seguida, quais são os pontos fortes, as prioridades e, principalmente, com que objetivo lidar ao trabalhar com eles.
Pense nisso!