Schwester Anita: A história que se confunde a do HMRT
Noventa anos de história traçadas por um começo, o dia oito de julho de 1920. E o começo de duas histórias se encontram no mesmo lugar: a casa da parteira Rosa Borck. O Hospital e Maternidade Rio do Testo surgiu no exato momento em que a pequena Anita nascia, isso…
Noventa anos de história traçadas por um começo, o dia oito de julho de 1920. E o começo de duas histórias se encontram no mesmo lugar: a casa da parteira Rosa Borck.
O Hospital e Maternidade Rio do Testo surgiu no exato momento em que a pequena Anita nascia, isso porque, seu nascimento foi o ponto chave para que Rosa começasse sua carreira, que duraria ainda muitos anos.
Ao longo dos anos, a parteira continuou seus trabalhos, auxiliando várias crianças que nasciam na cidade, dando os primeiros passos para a fundação oficial do Hospital. Já Anita, iniciou suas atividades como voluntária no Hospital de Santa Catarina, em Blumenau, quando tinha 22 anos. Em entrevista ao Jornal de Pomerode, há dois anos, a Schwester afirmou que a decisão não era a mesma que seus pais desejavam, mas ela viu que se sentia feliz e realizada ali.
Passou, em 1944, pela Casa matriz da Irmandade das Diaconisas de São Leopoldo, RS. ?No início éramos quatro moças e recebemos o nosso traje no mesmo mês em que começamos a ter aulas diversas desde o estudo bíblico, ética profissional e enfermagem. Adorávamos onde estávamos?, recorda Schwester Anita.
Após esse período, por ter noções de enfermagem, foi transferida diversas vezes para auxiliar comunidades gaúchas. Em todos os locais em que trabalhou Anita não conseguiu separar o lado profissional do sentimental. Ela conta que, ?em cada despedida seu coração sofria como se fosse a primeira vez?.
Voltar para a cidade de Pomerode foi primeiramente inesperado, depois, insistência. O Pastor Liesenberg enviou uma carta solicitando que ela retornasse urgentemente para o município para assumir a diretoria do HMRT. Nesta época, a instituição enfrentava problemas administrativos que resultaram em divergências entre a diretoria, Pastor e Irmãs. Nesta ocasião, as Irmãs Frieda Klaus e Ilse Krieck abandonaram o trabalho no lugar e, Schwester pensou bem antes de voltar. ?Fiquei na dúvida, pois sabia que a Casa Matriz jamais permitiria que outra Irmã fosse enviada para um local onde outras Irmãs tiveram problemas. Eu me senti chamada a ajudar o Hospital da minha terra natal. Pedi à direção da Casa Matriz para me liberar e recebi um ?não? como resposta?.
Mas a resposta contrária dada pela direção da Casa Matriz serviu para que a irmã desobedecesse pela primeira vez na sua vida as ordens. Segundo ela, tirar o hábito, sair da Casa, tudo foi grandes obstáculos que teve q superar. ?Pedi a Deus para que me desse um sinal de que eu estava no caminho certo?. Neste momento, a enfermeira Sélia Gruhle disse que se ela voltasse a Pomerode, a mesma iria junto. ?Foi a resposta que Deus me deu. Foi uma decisão muito difícil, mas às vezes nos deparamos com situações em nossas vidas que temos que escolher entre obedecer à Deus ou aos homens?.
O retorno à cidade natal foi em 30 de outubro de 1967, 47 anos após o seu nascimento no mesmo local. Na época, o Hospital era pequeno e contava com poucos recursos. A luta era diária, mas Anita e Sélia enfrentavam essa luta cotidianamente, a fim de melhor atender os pacientes.
Uma grande conquista foi a construção do Centro Cirúrgico, da Pediatria, do prédio onde se encontra o aparelho de Raio-X e de um salão Comunitário. Além de ser administradora do Hospital, Schwester Anita tinha várias outras atribuições, era presidente do grupo de OASE, orientadora paroquial de seis grupos, conselheira da Fundação Cultural, conselheira da diretoria da Comunidade Evangélica, fundadora e orientadora do Grupo Folclórico Pomerano, entre outras tarefas. Foi de Anita a ideia e a liderança para a realização da festa ?Frühlingsfest?.
No dia oito de julho do corrente ano, Anita Guenther, comemorou seu aniversário de 90 anos. Atualmente, já desligada das funções administrativas e de enfermagem, ela reside no próprio Hospital, na mesma área onde nasceu e onde a história do HMRT também teve início, afinal, além de ser a primeira criança a nascer no local, Anita foi uma das grandes incentivadoras do mesmo, que poderia ser muito diferente sem a presença dela pelos corredores do ambiente.
Histórias que o tempo não apaga
Das várias lembranças de Anita, algumas ela não esquece. Ela pode até não lembrar quantos partos já fez, nem de todas as crianças que passaram pelos seus cuidados, mas duas histórias relatadas são inesquecíveis.
O primeiro deles foi quando acompanhava um grupo de crianças que seriam batizadas. Em meio a tanta felicidade dos pais e dos presentes, uma mãe jovem, com seu bebê no colo, afastada dos demais, chamou sua atenção. A mãe solicitou ao Pastor que batizasse seu filho, e emocionada relatou que o pai da criança havia sumido e que não cumpria com as suas responsabilidades. Contou também que não conhecia mais ninguém que pudesse ser padrinho ou madrinha de seu filho. Schwester Anita, com os olhos cheios de lágrimas, conta que neste momento, uma das outras mães presentes passou seu bebê para o pai, tomou o filho da jovem nos braços, e pediu para batizar a criança. Saindo da Igreja o casal levou a jovem mãe e seu filho para a residência deles, onde o batismo foi duplamente comemorado e a família havia aumentado com a presença diária de mais duas pessoas.
Outro momento de grande emoção foi quando schwester Anita, ao acompanhar uma cirurgia de estômago, informou aos médicos responsáveis Dr. Horst e Dr. Hans, que os sinais vitais do paciente estavam cada vez mais fracos. Foi neste momento, na urgência de salvar uma vida, que os médicos decidiram literalmente abrir o paciente e massagear com as mãos o coração, fazendo uma espécie de batimento manual. Aos poucos Schwester Anita sentiu com sua mão, que apertava o pulso do paciente, que o mesmo voltava à vida.