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Retratos da “Vida Noturna”

Um local escuro. Luzes vemelhas decoram o espaço conforme sua intensidade. Mesas redondas e poltronas, também vermelhas e almofadas, arrumam um ambiente reservado. Uma prefere fazer uma dança no pole dance, outra já senta ao lado de um cliente para uma conversa. Algumas preferem ficar no balcão e outras nas mesas.

1 de junho de 2015

Um local escuro. Luzes vemelhas decoram o espaço conforme sua intensidade. Mesas redondas e poltronas, também vermelhas e almofadas, arrumam um ambiente reservado. Uma prefere fazer uma dança no pole dance, outra já senta ao lado de um cliente para uma conversa. Algumas preferem ficar no balcão e outras nas mesas.
Um tema bastante complicado de tratar. Uma opção de vida ou obrigação? A prostituição já está presente no Brasil de muitas formas diferentes. Entretanto, existem muitos tabus que não permitem, muitas vezes, que o tema seja abordado com mais profundidade, o que pode gerar preconceitos infundados. O que leva alguém a entrar nesta vida? O dinheiro? O trabalho? Obrigação? A falta de opção? São muitas as justificativas que aparecem neste meio.

Uma curiosidade frequente na sociedade é tentar imaginar a vida de uma pessoa que trabalha neste ramo. Como vive uma dama da noite? Quais as dificuldades que elas enfrentam, tanto no trabalho como fora dele? Perguntas em torno desta profissão que já é regulamentada em muitos países. No Brasil, a prostituição não é crime, é uma profissão legalizada. Entretanto, ainda se busca na justiça, a criação de uma lei, intitulada Lei Gabriela Leite, proposta pelo Deputado Jean Wyllys, que visa lutar pelos direitos das profissionais do sexo brasileiras e mantê-los.

De acordo com a proposta, considera-se profissional do sexo toda pessoa capaz e maior de 18 anos que, voluntariamente, presta serviços sexuais mediante remuneração. O pagamento pela prestação dos serviços será exigível juridicamente a quem os contratou. Segundo o projeto, os profissionais poderão atuar de forma autônoma ou em cooperativa e terão direito a aposentadoria especial com 25 anos de serviço. Ou seja, de acordo com a proposta, não será admitido o trabalho forçado, e muito menos a presença de menores de idade neste meio.
Contando um pouco das experiências vividas durante o exercício da atividade, Sabrina* (nome fictício), que é profissional do sexo e trabalha em um bar e boate para adultos, conversou com a equipe do Jornal de Pomerode a respeito da profissão, sanando algumas dúvidas e explicando como funciona o meio da prostituição.

 

“Eu entrei porque neste ramo eu consigo ganhar muito mais dinheiro do que trabalhando em um escritório ou empresa” – Segundo Sabrina, muitas das mulheres que ela conhece e que trabalham, ou trabalhavam como prostitutas, entraram na atividade por escolha e consciência própria, e não foram obrigadas por ninguém a se prostituírem. “Não conheci nenhuma mulher que tenha adentrado a esta vida por obrigação. É claro que, se nós tivéssemos a possibilidade de ganhar o quanto tiramos aqui como auxiliar de escritório, por exemplo, sairíamos dessa vida, mas não conseguimos. Muitas sustentam a família desta forma, pagam suas contas, guardam um dinheiro, compram bens. É dinheiro honesto, não se ganhou através de meios fraudulentos, portanto, é válido. Não faço porque gosto, nem por obrigação, faço pela renda que me proporciona”.

 

“O trabalho não é como muitos pensam, nós podemos escolher o que fazer e o que não fazer” – Sabrina diz que, pelo menos na boate onde trabalha, as profissionais são respeitadas e podem escolher o que querem fazer e o que não vão se submeter. “Nas boates geralmente é assim, tem sempre um gestor que cuida da segurança das meninas, para que elas não sejam obrigadas a nada. Elas só fazem o que elas querem fazer. Se não querem fazer o programa com o homem, não precisarão fazer. Quem manda são elas. Na rua já é diferente, torna-se mais perigoso pois se está mais sucetível e desprotegida. Já ouvi muitos casos sobre estupro, sobre golpes, assaltos e coisas do tipo. Mas aqui não, toma-se o maior cuidado. Inclusive com a higiene. Recebemos sempre a visita de um ginecologista, além de serem realizadas várias palestras sobre o assunto e a vigilância sanitária estar sempre fazendo vistorias. Tudo é muito certinho e regularizado. Tomamos muito cuidado”.

 

“Já lidei sim com situações constrangedoras, mas faz parte” – Conta Sabrina que existem sim, algumas situações que são complicadas e que a profissional tem que saber lidar ou contornar. “Mesmo estando em uma boate, estamos sujeitas também a todo tipo de homem. Então podem aparecer, por exemplo, homens sujos, que não tomam banho há dias e querem fazer programa. Então, por uma questão de higiene, e com papo, eu os levo para o chuveiro para poder dar um banho e assim, ter relações com ele. Existem muitos casos, mas para tudo se arruma um jeito de contornar a situação, ou pelo menos, melhorá-la”.

 

“Profissionalismo é tudo” – Saber respeitar o cliente é fundamental em qualquer negócio, e com as profissionais do sexo, a regra também se aplica. “Se eu atendo alguém aqui, mesmo se ele for conhecido, não vou levar para fora. Cada um sabe da sua vida e o que é feito dentro da boate, fica dentro da boate. Se eu esbarro com um dos meus clientes na rua, não vou falar com ele a respeito do que fizemos, isso não é profissional. No máximo, um cumprimento discreto se ele a fizer. Temos que ter profissionalismo em todos os momentos e em qualquer circunstância”, diz Sabrina.

 

“O preconceito existe, isso é fato. Ser contra ou a favor é uma questão pessoal, mas há de se respeitar” – Como todo assunto que é tido como tabu na sociedade, acaba gerando muita polêmica e opiniões contra e a favor. De acordo com Sabrina, é perceptível o preconceito das pessoas com as profissionais do sexo. “Por poucas pessoas saberem de minha profissão, acabo por não sofrer tanto preconceito, mas é normal, quando alguém descobre, que fique com um pé atrás. Há casos de agressões a prostitutas, assassinatos, violência sexual, não pode ser assim. Deve-se respeitar. Respeito é bom e todos gostam. Mas a nossa sociedade ainda é muito conservadora, e por isso enxerga com maus olhos o que fazemos. Mas se formos parar para pensar, estamos fazendo um bem para ela. Com a prostituição, o homem tem a possibilidade de procurar sexo consensual, o que ajuda a diminuir a violência doméstica, estupro, abuso de menores, entre outros crimes. A prostituição proporciona o que ele quer sem esforço, e, sem que outras partes se machuquem. Por isso, defendo a regulamentação da profissão, com todas as responsabilidades que são necessárias”.

 

“Tenho sonhos e almejo conquistas como outras pessoas. Pretendo continuar estudando e poder crescer na vida” – Sabrina explana que a profissão não a impede de estudar e buscar outros caminhos. “Eu posso sair a hora que quiser. Tenho liberdade para isso. Eu estudo, e desejo, mais para frente sair dessa vida e seguir a área que eu escolhi. Recebo inclusive incentivos para isso. Quero crescer na minha vida. Almejo coisas novas e maiores. Assim como eu, existem muitas meninas que também pensam assim. Não estamos presas a este mundo. Para muitas, até mesmo, é passageiro”.

Ainda não se tem uma lei que garanta direitos para as profissionais do sexo. O assunto continua sendo de grande discussão e divisor de opiniões. Um tema delicado que precisa ser abordado com cuidado em qualquer instância para não ofender a ninguém. Polêmico e abrangente. Despertador de grande curiosidade. Finalizando, Sabrina faz um desabafo. Por mais que as pessoas não concordem, deve-se haver respeito. É a base de toda sociedade. Pois somos, acima de tudo, seres humanos.

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