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Recuperação do Rio Doce deve levar décadas

Regeneração de um dos principais rios do país, entre Minas Gerais e Espírito Santo, é incerta

19 de novembro de 2015

Sinônimo de vida em uma região que cresceu em função de sua existência, o Rio Doce – um dos principais afluentes de Minas Gerais e do Espírito Santo – “respira por aparelhos” e corre o risco de morrer junto com toda a fauna e flora que o cerca.

O manancial foi vítima do maior desastre ambiental da história do Brasil provocado pelo rompimento da barragem da Samarco, em Mariana, no último dia 5. Ao longo dos últimos dias, a lama proveniente da mineração contaminou a água do Rio Doce, matou milhares de peixes, desabasteceu a população, destruiu a vegetação e pode decretar o fim de pelo menos 11 espécies de peixes em Minas Gerais.

Mesmo que demore dezenas de anos, a expectativa é que natureza solucione o dano causado pelo homem. Essa é a avaliação do coordenador do Projeto Manuelzão, Marcus Vinicius Polignano. “Existem nascentes que podem abastecer o Rio Doce com água limpa, mas a longo prazo. Precisamos trabalhar para revitalizar essas nascentes e torcer para que o que ainda respira naquele rio sobreviva”, ressaltou. “O Rio Doce já vinha sofrendo há vários anos e nem por isso o governo se sensibilizou. Espero que isso abra nossos olhos para a forma como tratamos a natureza”, finaliza.

Para o professor Francisco Barbosa, do Instituto de Ciências Biológicas da UFMG, ainda é impossível mensurar o tamanho do impacto causado no manancial. “Não, o Rio Doce não morreu. Ele sofreu um impacto ambiental sem precedentes na sua história e pode levar décadas para se recuperar, mas ainda não dá pra precisar esse tempo porque a extensão do desastre pode ser ainda maior que imaginamos”, disse Barbosa.

Uma análise laboratorial encomendada pelo Serviço Autônomo de Água (SAAE) de Baixo Guandu, no Espírito Santo, encontrou na água do rio partículas de metais pesados como chumbo, alumínio e até mercúrio.

Luciano Magalhães, diretor do SAAE de Baixo Guandu, afirmou que a água não tem mais utilidade nenhuma, sendo imprópria para irrigação e consumo animal e humano. “Pelo que nós analisamos, é muito temeroso captar essa água. Não posso servir esse tipo de coisa para a população”, explicou.

Apesar disso e da desconfiança dos moradores, a captação da água do Rio Doce foi reestabelecida em Governador Valadares, desde o último domingo pela SAAE.

Desastre marinho


De fato, a contaminação do rio pode ganhar ainda mais proporção a partir do momento que chegar ao Oceano Atlântico.

“Esses dejetos do Rio Doce serão sugados por uma corrente giratória, que é o criadouro marinho, exatamente onde baleias, tartarugas e peixes grandes como tubarões e arraias se reproduzem”, afirmou o biólogo André Ruschi, diretor da Estação de Biologia Marinha Augusto Ruschi, em Aracruz, no Espírito Santo.

De acordo com o biólogo, a lama tóxica que desce no Rio Doce atingirá cerca de 10 mil Km do litoral norte capixaba. Na área há três unidades de conservação da marinha: Comboios, Área de Proteção Ambiental Costa das Algas e Refúgio da Vida Silvestre de Santa Cruz.

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