Reality Show sobre duas rodas
Atletas não profissionais em busca do objetivo de superar um desafio. ?Os Predadores de Distância? cruzaram do Atlântico ao Pacífico, alimentados pelo prazer de percorrer mais de Três mil km.
Janeiro de 2008 marca o início de um trajeto singular, não só no percurso. Foram 27 dias superando limites mentais e físicos sobre duas rodas. Isso é possível? Para quem ousa ser um “Predador de Distância”, não há nada difícil, mas “tarefas menos fáceis”. É assim que o Superintendente da Fundação Municipal de Esportes de Balneário Camboriú e Promotor de Eventos, Sandro Bernardoni, descreveu a aventura dos “Predadores de Distância”, na qual ele e mais seis integrantes, percorreram 3.180 km. A viagem teve como ponto de partida Balneário Camboriú e terminou em Antofagasta, no Chile, conhecido como Portal do Sol do Pacífico.
Segundo Bernardoni, o fato dos integrantes praticarem o triathlon serviu como impulso para desenvolver o projeto. “Como este é um atleta que geralmente treina em longos percursos, pensamos, a partir disso, fazer um documentário de uma pessoa com vida normal, que busca alcançar um objetivo”, comenta.
O primeiro passo foi procurar uma produtora de vídeo, a Trotamundos Filmes, localizada em Balneário Camboriú. Foi nesse encontro que o produtor Santiago Ramos sugeriu realizar uma travessia do Atlântico ao Pacífico, por possuir uma característica desafiadora.
O grupo, que inicialmente era composto de cinco rapazes e uma mulher, acatou a sugestão e começou a se organizar. Nesse período, houve modificações e surgiu, então, uma nova equipe de sete pessoas.
Por que ser um predador de distância? Bernardoni conta que antes de realizarem o filme, o grupo já comentava entre si que todos se alimentavam dos quilômetros que percorriam. “Nós sentimos essa necessidade. E quem se alimenta ou caça alguma coisa é um predador. E dessa forma, o nome acabou se firmando.”
Com o passar do tempo, o projeto foi conseguindo alguns patrocínios de marcas como Nissan, Anasol e Mormaii. “A busca não foi tão difícil, pois desde o primeiro momento, as pessoas apostaram na ideia”, explica.
Mais do que apenas pedalar, os Predadores de Distância buscam também o conhecimento. “A intenção em fazer um projeto como esse é conhecer outras culturas, outros continentes fazendo um intercâmbio a partir das experiências que vamos adquirindo no meio do caminho.”
Iniciando a jornada
A partida ocorreu em Balneário Camboriú, que é o ponto de referência e de origem dos Predadores de Distância. “Fizemos questão de frisar que somos catarinenses em sua maioria e temos orgulho disso. Então, é de Balneário para qualquer lugar do mundo”, frisa Bernardoni.
Até chegar ao Pacífico, o grupo passou por algumas cidades catarinenses, como Blumenau, Rio do Sul, Campos Novos e Chapecó. Pisando em solo argentino, passaram por Posadas, Corrientes, San Antonio de Los Cobres; no Chile, o grupo conheceu o deserto mais seco do mundo, o Deserto de Atacama, localizado ao norte e também vilarejos vizinhos, como San Pedro de Atacama, localizado a 2.400 m de altitude; antes de chegar ao destino, o grupo também passou por Tatio, que possui a maior mina a céu aberto do mundo até chegar a Antofagasta, localizada a mais de 1.300 km da capital do Chile, Santiago, e popularmente conhecida como Pérola do Norte.
Não havia rotina para o descanso. A própria equipe de apoio, composta por cinegrafista, fotógrafo, dois relações públicas, um médico e um mecânico de bicicleta, buscava lugares para o grupo dormir. Na maioria das vezes, a equipe ficava em pousadas, faziam as refeições nos restaurantes, mas houve momentos em que dormiram dentro de igrejas e em barracas em pleno deserto, onde enfrentaram temperaturas abaixo de zero.
Um dos atletas, Fábio da Silva Tavares, não conseguiu completar o percurso. Já no Chile, quando o grupo saiu da cidade de Salta e iniciou a subida à Cordilheira dos Andes, o atleta teve uma crise renal. A medicação, à base de morfina, não foi suficiente e Fábio acabou voltando de carro para Salta, com a equipe de apoio, e de lá, retornou ao Brasil, sem completar a viagem.
Alguns equipamentos quebraram durante o percurso, até pelo esforço feito durante toda a viagem. Foram utilizados dois modelos: a bicicleta de estrada, conhecida como spinning e a Montain Bike, geralmente utilizada para pedalar em cascalhos, estradas de terra ou regiões onde é pouco indicado trafegar de bicicleta.
Oportunidade de renovação
A maior dificuldade não foi o clima ou o percurso em si. Mas a do ser humano como um todo, pois são atletas levados ao extremo da exaustão física, com idades, limites físicos e temperamentos distintos. “Cada integrante estava vivendo um momento diferente nos quilômetros percorridos. Isso fez com o grupo amadurecesse e aprendesse muito uns com os outros e mesmo assim, ainda tivemos momentos de estresse,”afirma.
Da mesma forma como um bando, alguém em determinado momento da viagem tinha que liderar o grupo. “No início foi difícil, mas depois cada um entendeu as regras e a escolha ocorria naturalmente”, conta Bernardoni.
Gratificante não foi apenas explorar cada lugar novo, mas sentir o que este proporcionava. Bernardoni cita a passagem pelo Deserto de Atacama como uma experiência à parte. “Localizamos no meio do absolutamente nada, uma família vivendo numa casa minúscula, com apenas duas ou três lhamas do lado de fora. É inacreditável o nível de singularidade que essas pessoas vivem. Aí, quando você chega na cidade, dá de cara com um contraste, e isso é o que torna a viagem interessante.”
Mais do que o choque de culturas, houve momentos para cada um que proporcionaram uma reflexão como ser humano. “O silêncio do deserto é um silêncio absolutamente diferente de todos. Você escuta tua respiração, teu coração bater, a tua pisada no cascalho, o barulho da roda da bicicleta. São essas situações que fazem da aventura algo muito bom para se viver.”
A ida ao vulcão Licancabur, (5.200 metros de altitude) foi outra passagem singular. Na ocasião, o grupo estava em San Pedro de Atacama, a 4.980 metros de altitude. Quando chegaram ao topo, se sentiram renovados. “Você faz uma introspecção pessoal que só em alguns momentos a vida te permite. A viagem proporciona uma mudança de comportamento. Não mudamos de personalidade, mas sim, o perfil dela, que te permite interpretar e encarar determinadas situações da vida de um outro modo”, ressalta.
Cruzando novos continentes
As aventuras não param por aí. O projeto Predadores de Distância tem programado mais quatro edições, todas com um desafio em comum: cruzar um continente com uma marca de pelo menos 3 mil km. Neste momento, a aventura está sendo o “Inside África”, que teve início dia 11 de junho, data de abertura da Copa do Mundo.
A aventura pela África tem alguns diferenciais. A começar pelo grupo que é maior. Em 32 dias, 18 pessoas irão percorrer aproximadamente 3860 km. O ponto de partida foi em Casa Blanca, no Marrocos, com passagens por Marrakech, Argélia, Tunísia, Deserto da Líbia, até chegar ao Cairo, no Egito. Três árabes acompanham todo o percurso, para facilitar a comunicação durante as paradas nas cidades ou aldeias.
A melhor estruturação também ocorreu financeiramente. O “Inside África” está amparado pela Lei de Incentivo Federal, e a viagem será custeada efetivamente.
Para 2011, estão programados o Crossing Austrália, com início em 03 de janeiro, onde partirão de Adelaide ao Sul para chegar em Darwin, ao norte; em julho do mesmo ano, está programado o Predadores de Distância 4, cujo objetivo é cruzar o continente asiático, partindo da Sibéria até a China.
O Brasil também se encontra nos planos da equipe. Bernardoni conta que, ainda em 2011, estão programando uma aventura na Amazônia. A saída será de Porto Velho e o destino é chegar ao Monte Roraima, que tem toda uma cultura da região. Esta será a viagem com menos quilômetros percorridos: 2700. “Isso ocorre pela dificuldade das estradas naquela região, o que pode fazer deste um dos trajetos mais difíceis para nós”, ressalta.
A primeira viagem já rendeu um documentário, que viajou para França. E tudo indica que as outras terão o mesmo sucesso. Os predadores de distância estão prontos para se alimentarem de novos quilômetros.