Geral

Presos da esperança

Os tons de cinza da instituição contrastavam com as calças laranja e com as camisetas brancas dos quatro adolescentes que contaram parte de suas trajetórias do crime.

1 de junho de 2015

Na quinta-feira, dia 08 de novembro, o Casep (Centro de Atendimento Socioeducativo Provisório) de Blumenau abriu suas portas e celas para que a sociedade pudesse conhecer um pouco mais sobre a história de adolescentes envolvidos no universo do crime.
Os tons de cinza da instituição, os móveis usados e gastos pela ação do tempo, contrastavam com as calças laranja e com as camisetas brancas dos quatro adolescentes que aceitaram o desafio de contar para a equipe de redação do Jornal de Pomerode parte de suas trajetórias do crime, longas demais para os poucos anos vividos.
A tensão percorria o ambiente, não somente nos olhos dos jovens, mas também, dos jornalistas que, pela primeira vez, se deparariam com autores de crimes que chocaram a sociedade através da repercussão garantida e noticiada pela imprensa catarinense.
Neste caminho que levava até o local da entrevista, portas e cadeados se abriam e fechavam, numa cena típica de confinamento relatada em filmes policiais. Contudo, de fictício a situação nada tinha. A realidade era clara e, de certa forma, reveladora, por mostrar personagens de uma sociedade: para uns, bandidos, monstros, criminosos; para outros, que acreditam na possível recuperação, apenas adolescentes, que por uma vasta relação de motivos, compreensíveis ou não, entraram por livre e espontânea vontade, ou ainda, foram aliciados, para o universo do crime.
Já na sala onde os jovens estavam aguardando a entrevista, acontecia a oficina de musicalização. Desde letras de rap até o contato com instrumentos musicais, os adolescentes expressam seus sentimentos e esperanças de um futuro melhor; outros, contam suas experiências no crime, usam gírias e palavrões para externar a grande revolta que sentem.
A tensão também era perceptível na postura do educador, Pastor Rafael Leiria, que trabalha há cinco anos, voluntariamente, na casa, ministrando também uma espécie de oficina de skate, além de pregar a fé em dois cultos semanais realizados no Casep. Era a primeira vez que ele tinha conhecimento dos crimes e das origens daqueles jovens. “Nunca havia perguntado o que eles fizeram ou por qual motivo agiram. Precisava ver em seus rostos os meninos que eles realmente são. O medo é perigoso. Nunca senti que estava correndo perigo aqui dentro, mesmo sabendo que alguns destes adolescentes eram autores de assassinatos”.
Preocupado também estava o funcionário da casa que acompanhava toda a movimentação com olhos atentos, procurando identificar qualquer postura diferente nos jovens que acompanha há dois anos. “Já vivi momentos complicados aqui dentro. Tento ser amigo deles, me aproximar, mas não posso esquecer que eles cometeram crimes, caso contrário, não estariam aqui. Os que demonstram buscar a recuperação são facilmente identificados por suas condutas. Acaba nascendo uma amizade, principalmente com aqueles que não recebem a visita de familiares. Para alguns, trago presentes, convido para almoçar na minha casa quando estão na transição do regime fechado para o aberto. Nos finais de semana, minha mãe vem aqui cozinhar voluntariamente para os meninos”.
O grupo entrevistado faz parte dos classificados “seguros” dentro da Instituição, ou seja, os que, dentro da conduta de ética deles, são considerados rejeitados por procurar uma maneira de sair da vida do crime. Respeitando a legislação, o nome dos adolescentes foi trocado nesta matéria, para que não seja possível a identificação.

Jovens criminosos ou apenas meninos?
No início da entrevista, até para estimular que eles falassem e que se sentissem à vontade para contarem suas experiências, as perguntas foram respondidas coletivamente. E através de uma mistura de sentimentos, que versava entre o alívio de falar a respeito e a angústia do julgamento, compartilharam informações que revelam um pouco de sua rotina. “Nosso grupo sai apenas uma ou duas vezes por semana. É ruim ter que ficar no quarto. É muito pequeno, tem apenas uma ou duas camas e um banheiro. O que está há mais tempo aqui de nós vai completar três anos e o que tem menos tempo de casa está aqui há dois meses. Um ajuda o outro, mas nem todos são assim. Há uma divisão aqui na instituição. O pessoal do ‘sujeito’ e o pessoal do ‘seguro’. Sujeito são os caras que apoiam uma coisa errada, o pessoal do seguro são os que pretendem mudar e têm algumas regalias. O pessoal do sujeito acha errado a nossa maneira de pensar em sair daqui e tentar outra coisa lá fora, para não voltar mais”, disseram os adolescentes, em um coro de vozes que ia se complementando.

18 anos e 42 boletins de ocorrência criminal
João Pedro. Olhos e cabelos claros, desinibido, com desenvoltura e imposição presentes em sua fala. Um jovem que se não estivesse com o uniforme do Casep e nem tivesse o histórico de 42 boletins de ocorrência registrados na polícia, com apenas 18 anos, teria a oportunidade de emprego assegurada em qualquer lugar, além de popularidade entre amigos e meninas.
Já contabilizou sete fugas do Casep nos últimos anos, mas diz que está começando a se arrepender. “A gente foge um monte de vezes, mas sempre volta aqui. Eu já fugi daqui. Fugi sete vezes. A gente ganha dinheiro fácil e quando volta, volta pior ainda. Eu entrei com 16 boletins de ocorrência, agora eu tenho 42, em três anos”, revela.
Preso em decorrência de um latrocínio, João Pedro conta que foi praticar um roubo e entrou em confronto com a vítima, que acabou morrendo. Não explica em detalhes o que gerou a morte e nem mesmo qual arma utilizou para a prática do crime. “Agora estou começando a me arrepender, mas na hora eu não me arrependi. Estou aqui desde os 16 anos, olhando para as mesmas paredes. Sinto falta das coisas lá fora. Tinha um mundo para descobrir e agora tenho só paredes de concreto me rodeando”.
João Pedro diz que estava envolvido com o tráfico de drogas, mas que só comercializava. “Eu era traficante e cometia assaltos, mas não usava drogas. Sempre gostei da adrenalina de fugir da polícia. Nunca me faltou conselho em casa ou qualquer outra coisa que motivasse minha entrada nesse mundo. Entrei nessa vida porque eu quis. Não sei o que é passar fome. Inclusive, minha mãe trabalha em dois empregos, em Blumenau. Várias amigas dela já vieram falar comigo para me ajudar. Nunca dei muita moral para minha mãe, sempre morei em casa de amigos do crime ou sozinho”, explica João Pedro, justificando sua conduta.
O adolescente comenta que em todas as visitas feitas por sua mãe, é alertado por ela a recomeçar sua vida do zero quando sair do Casep. “Às vezes, quando eu chegava em casa, de madrugada, eu a via acordada acariciando minha foto e era muito ruim saber que eu causava essa dor nela. Quando eu chegava em casa com uma moto, ela perguntava de quem era e eu dizia que era minha. Daí ela sabia que eu tinha roubado. A polícia batia lá em casa e ela começava a chorar. Os próprios policiais falavam que da forma como eu estava vivendo, em pouco tempo, eu estaria morto. Mas eu não tinha medo de morrer”.
A última vez que João Pedro foi preso pela polícia, ele já era maior de idade. “Eu fugi, cometi outro ato infracional, depois com 18 anos fui para o presídio. Fiquei dois meses lá e depois voltei aqui, pois ainda tinha que cumprir minha medida socioeducativa”.
Seu projeto para quando sair do Casep é começar a trabalhar. “Tinha verdadeira alergia a emprego, mas agora, pela minha mãe, vou entrar na linha. É mais fácil roubar. Eu pensava que enquanto meus amigos tinham que trabalhar o mês inteiro para ganhar o salário, eu poderia roubar e ganhar a mesma grana em um dia. Meu primeiro crime foi roubar uma casa de praia. Batia de frente com todo mundo. Nem polícia, nem juiz tinha o direito de me manter preso, pelo menos era o que eu achava. Por isso eu fugia. Nem minha mãe me prende, porque vou ficar aqui? Ninguém manda em mim. Agora estou vendo que ficar aqui é ruim, e que preciso mudar”.
João Pedro tem um irmão mais velho e duas irmãs mais novas. Nenhum deles têm envolvimento com a polícia. “Meu irmão trabalha desde os 14 anos e já tem a casa dele. É casado, tem moto, carro e o serviço dele. Meu irmão não vem me visitar. Ele quer que eu mude de vida para depois me ver. Agora eu estou escutando mais os conselhos dele. Minha irmã de 17 anos também estava se envolvendo com drogas, mas minha mãe conseguiu contornar. Não culpo minha mãe, nem meu pai, nem meu padrasto. As pessoas seguem o destino que abraçam e ninguém pode impedir isso, seja para o bem ou para o mal”.

Mesmo tendo tudo, falta a adrenalina de cometer um crime
As histórias de João Pedro e André são parecidas. Não foi a necessidade que os levou a entrar na vida do crime, mas sim, a adrenalina de cometer algo que é errado e conseguir escapar da polícia.
André cometeu um assalto na cidade de Brusque, quando tinha 17 anos. “Não foi por necessidade, sempre tive tudo, inclusive o amor da minha família. Meus pais nem acreditaram quando eu fui preso. A facilidade em receber dinheiro é o que nos move, é o que faz com que adolescentes cometam crimes. Pensar em trabalhar o mês todo para ganhar o salário e saber que você pode ganhar isso num dia? É muita facilidade. A gente pensa, poxa, posso ganhar R$ 100 mil, R$ 200 mil, e vou estar com a vida feita”.
Quando questionado do que ele sente mais falta estando no Casep, ele diz sem pensar duas vezes: “Da minha família. Eles vêm me ver muito pouco, não sei se ainda não aceitam o que aconteceu ou se é por morarem longe, mas sinto a falta deles. Causo sofrimento para a minha família, mas para mim é sossegado ficar aqui. Sei que quando sair, vou ter a minha família de volta e vou querer mudar de vida sim, mas às vezes é mais fácil a outra vida, a do crime”.
André disse também sentir falta de sua namorada, e quando questionado sobre a frequência de visitas dela, diz de forma descontraída, tendo o sorriso estampado no rosto, que só um adolescente pode ter. “Ela pode vir me visitar, mas não vem. Uma eu acho que está sofrendo bastante sim, mas a outra não”.

“Tirei a vida de alguém com minhas próprias mãos”
Henrique, um menino com ar indefeso, com estrutura franzina e um passado marcado por um homicídio. “Espanquei um cara em Joinville. Tirei a vida de alguém com minhas próprias mãos. Estávamos numa festa, todo mundo bebendo e ele jogou um copo no meu rosto. Não me arrependo muito porque ele quis tirar minha vida, mas me arrependo por causa da minha família. Meu pai, minha mãe”.
O pior sentimento encarado atualmente por Henrique é saber que sua família foi ameaçada. “Tem pessoas que estão revoltadas pelo que fiz. O filho de alguém não vai voltar nunca mais para casa e isso é difícil de aceitar. Entendo a revolta da família do jovem que eu matei. Quem sou eu para tirar a vida de uma pessoa? Mas estava de cabeça quente, aconteceu”.
Iniciando sua trajetória criminal com furtos, Henrique também afirma que não se envolveu com drogas. “Estou aqui há dois meses. Já ‘puxei’ sete meses em Joinville. Estava em semiliberdade, mas voltei. Tenho 18 anos agora. Acredito que eu seja liberado em dezembro. Quero então começar vida nova, trabalhar com meu pai. Voltar a estudar. Entrei nessa vida, porque eu quis. Meu pai sempre me deu tudo que eu queria. Entrei nisso por causa das amizades, das más companhias. Se eu tivesse estudado, teria seguido os conselhos do meu pai e hoje não estaria aqui”.
Assim como os outros adolescentes entrevistados, Henrique também tem irmãos bem diferentes dele. “Meu pai vem me visitar, mas minha mãe não. Eles são separados e ela não tem muita condição de vir. Meu pai sempre me dá conselhos e pede para eu mudar de vida, para me espelhar em meus irmãos. Ele diz que quando eu sair daqui tenho emprego garantido com ele, é só eu querer. Desta vez eu vou mudar. Serviu e está servindo de exemplo. Não existe nada melhor do que liberdade. Estar preso, ficar andando pra lá e pra cá, sem ter o que fazer, é ruim”.

Buscando forças na fé
Tiago foi encaminhado ao Casep após se envolver em um assalto, portar arma de fogo e ter um vasto antecedente criminal no tráfico de drogas. “Foi difícil quando fui preso, mas quando vim para cá, mudou bastante coisa na minha vida. Estou com 17 anos e cheguei aqui há quatro meses. Já mudei bastante. Eles me ajudaram muito, o pastor, o pessoal do culto. Hoje em dia eu vou para a Igreja. O que eu desejava antes, não desejo mais”.
Quando viu seu pai ser internado em uma clínica de recuperação por causa do vício em drogas, o mundo de Tiago desmoronou. Nesta época, aos 14 anos, acabou ficando sozinho e viu no crime a oportunidade de prover seu sustento. “Não gosto nem de lembrar tudo o que fiz e por tudo que passei. Antes eu sentia falta do que o crime me proporcionava, hoje não sinto mais. O que realmente me aperta o peito é a saudade que tenho do meu filho. Ele tem somente um aninho. E assim como eu, também não tem o pai ao lado”.
Mas de forma consciente, Tiago acredita que, por certo lado, é positiva a separação. “Pra mim é bom até ficar longe dele agora. Porque quando eu sair vou poder dar o exemplo, mas agora não. Penso em mudar de vida por ele também. Seria complicado se quando ele crescesse o pai estivesse aqui ou preso. Não sei como me sentiria”.

Mais de dez anos na direção do Casep
O Casep é o órgão responsável pela execução, no âmbito do Estado de Santa Catarina, da política de atendimento ao adolescente envolvido em ato infracional e em cumprimento das medidas socioeducativas de semiliberdade e internação. É reconhecido como entidade governamental, que tem como objetivo principal a proteção dos direitos dos adolescentes, de acordo com o art. 227 da Constituição Brasileira.
Acolhe adolescentes entre 12 e 21 anos incompletos, realizando o Atendimento Socioeducativo em consonância com o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA). Conforme explica o diretor do Casep de Blumenau, João Carlos Auersvaldt, “só o juiz pode privar um adolescente de liberdade. O Ministério Público (MP) não tem esta competência. O MP vai ouvir o adolescente e analisar se o que ele cometeu foi grave, representando ao juiz, que poderá ou não solicitar a internação”.
João Carlos complementa explicando que 45 dias é o prazo que o juiz tem para julgar o processo do adolescente. “Se acontecer do juiz não conseguir julgar o ato infracional dele nesses 45 dias, é obrigado a liberá-lo e ele o responderá em liberdade. Mas o processo continua. São 45 dias para julgar o processo do adolescente. O que acaba acontecendo é que o juiz condena o adolescente, e ele pode pegar, no máximo três anos, aí não tem vaga no Estado e ele acaba permanecendo no CASEP. Seis meses, oito meses, um ano”.
Para o diretor do Casep o ideal seria, assim que condenado, que o adolescente fosse transferido para o CASE (Centro de Atendimento Socioeducativo), para cumprir a medida que o juiz condenou a ele. “Mas no caso de não haver vagas ele acaba ficando aqui. A idade mínima para o acolhimento no Casep é de 12 anos e a máxima é de 18 anos. Por sua vez, as meninas acabam sendo direcionadas para a unidade em Florianópolis”.
A antiga estrutura do Casep de Blumenau abrigava até 2005 meninas, mas a demanda era muito inferior aos custos de manutenção, já que, no máximo, duas internas por ano utilizavam as dependências.
Atualmente estão internados na unidade blumenauense 24 adolescentes, sendo esta a lotação máxima. “Para isso contamos com educadores, técnicos, cozinheiras, contabilizando em torno de 19 funcionários. Dentro da instituição existem algumas atividades, como aulas de rap, skate, violão, teclado e alfabetização de jovens e adultos através do CEJA. São atividades internas. Aquele adolescente que já recebeu a medida de internação pode ser retirado para atividades externas. Só podemos oferecer este benefício para jovens de determinado perfil. Não podemos tirar um adolescente que apresenta sinais de que vai fugir ou aprontar lá fora. O que está quase preparado para ir embora realiza atividades externas”, complementa do diretor.
O interno mais jovem da unidade está com 14 anos e o mais velho, tem 19 anos, sendo que tinha 17 quando cometeu o ato infracional e ficará no local até os 21 anos. “Cada um deve ser olhado de maneira diferente, pois são pessoas distintas. Uns realmente se arrependem do que fizeram, outros estão ali passando uma temporada, e quando saírem, vão seguir no crime. A unidade de Blumenau tem 18 anos e eu estou na direção há mais de dez anos. Quando a gente entra na instituição não pode ver o adolescente relacionado ao que ele fez. O que interessa é o adolescente daqui para frente. Se eu começar a olhar o adolescente de acordo com o que ele fez, eu vou trabalhar com medo e receio. Não posso me ater a julgamentos, com raiva ou com ódio”, explica João Carlos.
Questionado quanto à estatística de reincidência dos jovens com o perfil do Casep em novos crimes, João Carlos é enfático: “Em anos anteriores, havia apenas um ou dois casos que se recuperavam a cada 100. No ano retrasado nós tivemos seis adolescentes. No ano passado oito. Estamos conseguindo avançar. Talvez seja apenas oito ou dez por cento, mas estamos conseguindo subir essa quantia. Isso é muito bom. Eu não me apego a casos, estou há tanto tempo dentro do sistema. Minha preocupação é em recuperá-los. Eles entram na instituição e a família, às vezes, não tem mais controle ou não se preocupa mais”.

Perfil dos internos e rotina da casa
Os internos têm direito, durante o período de internação, a uma visita semanal, que pode ser feita apenas por parentes, com duração de uma hora, sendo previamente agendada com os técnicos do Casep. “Muitos choram de saudade, sofrem mesmo. E não podemos esquecer que eles são retirados das ruas e internados aqui. Assim, temos toda a questão da abstinência das drogas, que é bem complicada. O correto deveria ser estes jovens passarem por uma clínica para desintoxicar, mas isso acaba não ocorrendo. Digo, sem sombra de dúvidas, que mais de 90% dos jovens que aqui estão, tem envolvimento com drogas. Entre os crimes que têm se destacado nas atuais internações estão os relacionados ao consumo de drogas, como o tráfico, latrocínio e homicídio”.
Os 24 adolescentes da casa são divididos em 17 quartos, sendo no máximo, dois adolescentes em cada um. O critério de distribuição leva em conta a periculosidade e estrutura física. “Problema disciplinar sempre acontece. Acabamos usando os quartos para que isso seja minimizado. A nossa equipe de funcionários também melhorou muito e isso contribui para a pacificação do Casep. Existe respeito mútuo. Se houver uma agressão física, é feito um registro na polícia. Já aconteceram, em tempos anteriores, fugas. Atualmente não temos mais registrado evasões. Às vezes acontecem evasões quando acabamos liberando o adolescente para as atividades externas. Mas faz mais de seis meses que não registramos isso”.
Para o controle da entrada de drogas e aparelhos celulares na unidade, os jovens passam por uma criteriosa revista, antes e após a liberação para o recebimento de visitas. “Já recebi várias ameaças, de que pessoas iriam vir aqui para resgatá-los. Mas sabemos quando são verdadeiras ou não. Se acreditamos, fazemos um relatório e comunicamos o juiz. Ameaça com familiares, não. No ano passado houve uma pequena rebelião”.
João Carlos reforça que quando os adolescentes entram neste sistema necessitam de medidas socioeducativas e não punitivas. “Quando os pais são bem presentes existe chance de recuperação, mas os pais têm que ser presentes e acompanhar, sem passar a mão na cabeça. A família também é trabalhada. O adolescente é preparado para voltar para a família, mas a família também é trabalhada para recebê-lo. Quando ele é liberado também recebe acompanhamento através da liberdade assistida, por mais de seis meses”.
O trabalho com as famílias destes adolescentes, em muitos casos, é comprometido em decorrência da distância, já que são residentes em localidades distintas, como Florianópolis, Jaraguá do Sul, Balneário Camboriú e Guaramirim. “Os que são de fora, às vezes, a família tem dificuldade em visitar. E o que é pior, muitos não têm ninguém, já que os pais, os irmãos, parentes mais próximos, estão presos”.
Segundo o diretor da unidade, é muito raro um jovem de classe média alta no Casep, sendo a maioria enquadrada no perfil socioeconômico de classe média baixa. “O perfil do adolescente com relação à escolaridade é de quinta, sexta ou, no máximo, sétima série. Muitos estão mais de dois anos afastados da escola. E a grande maioria tem entre 15 e 17 anos. Grande parte tem parentes com passagens criminais ou que estão presos”.
O café da manhã é servido às 8h, depois é feita a manutenção da casa, na parte interna. O almoço acontece às 11h30mim e às 15h, os adolescentes recebem um lanche, nos intervalos das atividades. “Mesmo sendo filiados a uma ONG de Joinville, respondemos ao estado. Estamos estudando a possibilidade de ampliação da unidade. Começamos atendendo seis jovens, passamos para dez, depois 12 e agora recebemos 24 adolescentes. A alimentação é muito boa, ninguém pode reclamar”.
Quanto à segurança, João Carlos diz que em casos de conflitos, os adolescentes são mobilizados e encaminhados aos seus quartos, sem a utilização de armamento por parte dos técnicos. “Um dos momentos mais difíceis que passamos foi quando conseguiram entrar com uma arma aqui na casa. O adolescente não foi agressivo, apenas disse que queria sair, e por estar armado não podemos evitar que ele fugisse. Ficamos atentos a qualquer atitude suspeita, como carros e motos rondando a instituição. Contamos com câmeras de monitoramento que nos auxiliam”.
Em datas comemorativas, a direção do Casep promove uma ceia ou atividade especial para não deixar a data passar em branco. Quando a família visita pode trazer bolachas e guloseimas. “Alguns vão somando pontos, permitimos que eles tenham um radinho no quarto e posteriormente, de acordo com o comportamento, um pequeno aparelho televisor. Trabalhamos com limites: vacilou, cortamos tudo”, explica João Carlos.

Adolescentes de Pomerode
O diretor do Casep afirma que houve uma época em que adolescentes de Pomerode eram constantemente internados na instituição, no entanto, essa fase passou e atualmente não há nenhum adolescente do município no local.
De acordo com o número de procedimentos efetuados na Delegacia de Pomerode, as ocorrências envolvendo adolescentes estão crescendo. No entanto, o crime cometido por eles é de pequenas causas.
No ano de 2009 foram 18 procedimentos. Em 2010, 35. No ano passado, 29. E, até o início de novembro, já haviam sido registradas 34 ocorrências.

Quando não se envolver é impossível
João Carlos diz que, por mais que não queira, em muitos casos acaba se envolvendo com os adolescentes. “Lembro sempre que sou um profissional, mas fico sensibilizado com os jovens que não recebem atenção de suas famílias. Alguns choram de arrependimento. No começo existe uma barreira, mas depois eles se abrem. Alguns estudavam fora e trabalhavam, mas dormiam aqui. Viviam aqui. Hoje em dia a maioria sai somente para a Igreja. Tem um adolescente que faz academia e curso de inglês. Ele vai e volta de ônibus, sozinho, mas o custeio das atividades é subsidiado pela família”.
O diretor acredita que 45 dias não é tempo suficiente para promover uma melhora na vida do adolescente. “Gostaria que todos eles se recuperassem. Cobramos que nos chamem pelo nome. Nós os chamamos pelo nome para tirar os apelidos de ruas, porque isso os fortalece nesse mundo do crime. Sou pai, tenho filhos, não posso deixar de ver nestes adolescentes, crianças sem oportunidade, que comprometem seus futuros em nome da criminalidade. O que é um caminho sem volta”.

O auxílio missionário
Os adolescentes participam de cultos internos realizados por pastores de uma igreja missionária. A participação é facultativa e aqueles com bom comportamento, podem sair para participar dos cultos externos. Através da fé os adolescentes acabam se deparando com uma realidade desconhecida. Prova disso é que quatro ex-internos já recuperados, estão se preparando para virarem pastores.
Neste contexto, uma pessoa em especial desempenha um papel de suma importância, que é o pastor Rafael Leiria. “Não venho aqui fazer apenas um trabalho social, eu venho acompanhar esses meninos. Vivo na prática aquilo que prego. Entre os meninos, o Tiago é o que está mais próximo de mim no momento. Ele vai para a Igreja nos finais de semana. E daqui, já tem uns cinco meninos que estão na igreja conosco agora. Temos uma casa ministerial. Não trabalhamos com drogados, trabalhamos com o caráter das pessoas. Nosso intuito é trabalhar com misericórdia. É a nossa diferença”, explica o pastor.
Durante a entrevista, quando os adolescentes contavam para a equipe de redação do Jornal de Pomerode um pouco de suas histórias, Rafael prestava atenção em cada palavra, com sua cabeça apoiada em suas mãos cruzadas, como se estivesse orando, ou refletindo sobre tudo que escutava. “Hoje eles abriram para vocês algo que nem eu sabia. Não estou aqui para saber o que cada um fez ou para condenar. Eu vim aqui para dar aula. Trabalho há cinco anos aqui dentro e nunca tive problemas com nenhum adolescente, de me ameaçar ou algo assim”.
Complementando suas palavras, Rafael diz que os jovens o conhecem e o respeitam. “O respeito foi conquistado porque eu mostro o outro lado para eles. Estou aqui para mostrar uma vida diferente, uma vida ao lado de Deus. Estou aqui praticamente todos os dias, me envolvo com eles. Nosso maior objetivo foi isso, olhar para um núcleo de pessoas que a comunidade não quer olhar. Eles são tratados como vagabundos, as pessoas dizem que eles devem ser tirados das ruas, que devem morrer. Mas será essa a solução?”, questiona o pastor.
Rafael diz que olha para os adolescentes e vê meninos. “Hoje, dos meninos que moram comigo, alguns nem título de eleitor têm ainda. A gente ensina a viver o certo. O que mais falta aqui, que eu vejo, é a paternidade. Não é nem a ausência da mãe, já que muitos tatuam seus nomes com a mensagem dizendo que amor, só de mãe. O pai muitas vezes é um bandido, tanto que quando eles têm o acompanhamento dos pais, se recuperam muito mais facilmente”.
Para trabalhar com os meninos, o pastor não recebe remuneração, age voluntariamente, por acreditar que seja esta sua missão de vida. “Ouvir suas histórias, sentar com eles, instruir, conversar, nada disso é em vão. Pregamos pela verdade, pregamos por Cristo. Procuro lidar com eles pelo nome, não pelo apelido. Os apelidos os associam à vida antiga. Muitos usaram crack, têm transtorno de bipolaridade. Todos usaram drogas, por mais que digam que não. A realidade do pessoal do ‘seguro’ é bem diferente”.

Educador e não carcereiro
Arthur é educador no Casep há cerca de dois anos. O caminho do educador e da instituição se cruzaram dado o fato dele ser segurança em casas noturnas da cidade de Blumenau. “Eu entrei aqui por ser segurança e ter disponibilidade de horário. Quando cheguei aqui, entrei para abrir e fechar cadeados, mas não tem como não se apegar a esses adolescentes. Afinal, são isso que eles são: crianças”, completa.
Como em todos os lugares, há pessoas boas e outras nem tanto. No Casep essa realidade se repete. “Aqui dentro da instituição temos dois grupos bem divididos, os ‘sujeitos’ e os ‘seguros’. Dentro da conduta de ética deles, esses quatro adolescentes aqui são os rejeitados, pois querem um futuro diferente e longe do crime”, relata Arthur.
Atualmente são 24 adolescentes internados na instituição. Com a separação em dois grupos, metade deles não procura por outro tipo de vida. “Teve época em que todos faziam as aulas, mas hoje não há possibilidade. Eles se agridem, pois querem descontar a raiva de estar presos e acabam fazendo isso em alguém. Cada um tem um perfil aqui dentro e alguns desses perfis psicológicos são bem complicados”, completa.
Com os olhos atentos e o coração tranquilo, o educador afirma não ter medo dos internos. No entanto, sabe que alguns confundem gentileza com fraqueza. “Sei que antigamente a lei do presídio valia aqui dentro também, mas isso vai contra os meus princípios. Não sou carcereiro, sou educador. Não tenho dúvidas que a diferença no meu tratamento também reflete na recuperação deles. Claro que não posso ser inocente em achar que todos irão entender a minha gentileza, alguns confundem com fraqueza. Portanto eu preciso ser justo, preciso ser rígido”, afirma.
Os adolescentes que entram na instituição não têm a sua ficha criminal divulgada pelos educadores ou diretoria para os demais internos. No entanto, é necessário que os educadores tenham conhecimento de seus crimes para que, caso a informação vaze, não ocorram brigas internas. “Tento não olhar as fichas, mas precisamos saber dos casos. Como estupro, por exemplo. Porque, nesses casos, se a informação vazar, podem até chegar a matar o rapaz”, fala Arthur.
Assim como nos presídios, dentro do Casep já houve casos de rebelião. Em um desses casos até houve morte. Na ocasião, o adolescente ateou fogo em um colchão, dentro da própria cela. Não conseguiram abrir e ele acabou morrendo. “De certo ele pensou: vou atear fogo e vão ter que abrir”, completa Arthur.
Depois da constante convivência neste mundo ainda desconhecido pela sociedade, Arthur afirma que cada caso é um caso. “Alguns dos casos que passam por aqui realmente merecem, pois sabemos que eles não vão mudar de vida e são cruéis. No entanto, também há histórias muito tristes aqui”.
O número de internos que realmente se recuperam ainda é muito abaixo do esperado, mas cada adolescente recuperado é uma vitória. Uma conquista para o educador, para a instituição “Eu vejo que 95 a 98% dos meninos que saem daqui voltam para o crime. A maioria deles ou está no Casep, no presídio ou está morto. Os que se recuperam tem a igreja como principal aliada”.

A recuperação através do voluntáriado
Há cinco anos realizando trabalhos voluntários no Casep, a Associação Voz de Muitas Águas oferece uma nova oportunidade para os adolescentes que estão na instituição. “Nosso principal objetivo é mostrar outra realidade para esses meninos. Uma realidade diferente da que eles conhecem”, afirma Ricardo Schulz.
Com atualmente seis meninos totalmente recuperados e morando na Igreja, a ONG começa o trabalho de recuperação dentro do Casep. “Depois do interesse deles, nós os buscamos e damos a eles a oportunidade que a vida não dá depois que eles saem do Casep”, fala a pastora, Simone de Souza Warmling.
A associação disponibiliza uma casa para estes e outros meninos e meninas morarem. Além disso, trabalham na associação efetuando a venda de produtos confeccionados por eles e também com a cantina que o espaço possui no centro da cidade. Os recursos arrecadados são provenientes do Café que a instituição mantém. “Esse é o objetivo do Café. Arrecadar recursos para manter a associação e, com isso, o trabalho realizado com esses jovens”, revela a pastora. O trabalho dos jovens na associação é feito ou na loja, na cozinha, com a preparação dos salgados ou na venda dos produtos da cantina interna ou externamente.
A associação é uma instituição e a Igreja Cristã do Caminho é outra instituição. O principal objetivo de ambas é levar educação e suporte, onde os jovens encontraram o que não encontraram nas ruas e, muitas vezes, até em suas casas.
“Nas comunidades mais carentes é muito comum que os traficantes abordem e chamem as crianças e adolescentes para auxiliá-los no trabalho, como, por exemplo, efetuando a vigília nas bocas. O trabalho da associação é tirar essas crianças desses lugares e dar a elas, através do esporte, da educação, da arte e da dança, essa opção. Quem realiza esses trabalhos atualmente são os meninos que saíram do Casep”, informa a pastora.
A associação recebe o apoio, por meio de um consultório odontológico gratuito, da prefeitura de Blumenau. No entanto, esta é a única ajuda que a instituição recebe. A manutenção é feita através de recursos captados da igreja, das vendas e também dos almoços quinzenais realizados pela associação.
O trabalho da associação não é meramente auxiliar na recuperação dos jovens, mas envolve toda a família do adolescente. “É necessário trabalhar com a família toda. Infelizmente, em alguns casos, isso é muito mais complicado”, ressalta a pastora.
Diferente do que muitos pensam, os adolescentes que estão no Casep não são apenas de classe média baixa. “Vemos no Casep adolescentes que possuem uma renda familiar melhor, que possuem uma vida estabilizada, mas de alguma forma se envolveu no crime. Seja pelo consumo ou pela vontade de ganhar mais”, fala a pastora.
A falta de estrutura familiar é e sempre será a principal causa do envolvimento de adolescentes com o crime. A necessidade e a busca pelo melhor dentro de casa acaba acarretando no excesso de trabalho e na falta do acompanhamento. “É muito fácil eles encontrarem o que precisam, seja atenção, carinho ou proteção, fora de casa, quando dentro dela há falta disso”, diz a pastora.
O destino é um só para quem vive no crime. “Todos os que estão lá dentro sabem que se continuarem nessa vida, o destino será a morte. E, baseado nisso, conseguimos identificar quem deseja realmente mudar. E investimos nessa mudança”, relata a pastora.

Um exemplo de recuperação
Ramon Batista Corrêa, 23 anos, é um jovem que se recuperou do mundo do crime, após ter contato com a Associação dentro do Casep. Para ele, a importância da família na recuperação é fundamental. “Chega alguns momentos em que a família, se ela não entende a necessidade do acompanhamento, acaba atrapalhando o processo de recuperação. Uma das dificuldades que, às vezes, encontramos pode ser intensificada se a família não te dá esse apoio. E, em alguns casos, a família precisa de mais ajuda do que o adolescente. Alguns casos de adolescentes infratores dá-se ao fato deles seguirem a rotina e o exemplo que recebem dentro de casa”, completa.
Ramon acredita que o desejo da recuperação está dentro de todos, basta ter força de vontade para torná-lo real. “Ninguém quer morrer no crime, mas é difícil ter uma mão que te guie”, relata.
A recuperação de Ramon começou com a sua irmã, que o apresentou a uma pastora em sua comunidade. “A minha estrutura familiar já estava com problemas, minha mãe doente, meus dois irmãos já envolvidos com drogas desde cedo e, com isso, eu já me envolvi também”, revela. O rapaz não teve a participação do pai em sua vida. Seus pais se separaram quando ele ainda era pequeno, devido a problemas com alcoolismo.
Com 16 anos, Ramon já estava internado no Casep de Rio do Sul, de onde fugiu. No entanto, sua primeira internação aconteceu com 13 anos, quando ficou apenas um dia na instituição e depois passou a ser acompanhado em liberdade assistida.
Após a primeira fuga, Ramon encontrou a pastora em sua casa acompanhando a família, foi então que ela sugeriu uma mudança para ele. “A pastora me perguntou se eu não queria mudar de vida e eu respondi a ela que sim, mas que ainda não era a hora”, relata. Mesmo não estando disposto, ainda, a mudar, a insistência da pastora não enfraqueceu.
Ramon foi internado em outras ocasiões e sempre fugia dos Casep em que se encontrava. A última vez em que foi apreendido, faltava apenas 11 dias para completar a maioridade, foi então que ele decidiu em agarrar a grande chance de sua vida. “Ainda bem que fui apreendido antes dos 18 anos novamente, pois senão eu poderia ter morrido ou ter pego uma pena muito grande em um presídio. Ali eu vi Deus agindo”, completa.
Em sua ultima apreensão, Ramon estava em Porto Belo e foi encaminhado para Florianópolis. O jovem solicitou sua transferência para Lages e, de forma alguma, queria ser encaminhado ao Casep de Blumenau. “Meu pensamento ainda era de fugir e em Blumenau eu não conseguiria. Acabei sendo encaminhado para Blumenau, pois não havia vaga em Lages. E a partir dali eu comecei a participar dos cultos para não ficar ‘na tranca’, mas a palavra de Deus começou a entrar no meu coração”, relata.
O crime foi a vida de Ramon desde criança. “O crime fazia parte da minha história desde sempre. Vejo que isso acontece ainda e para muitas crianças. É um mundo onde não enxergamos nada além do que o crime. Não havia mundo, havia apenas o crime. O errado era o certo. O crime era a minha vida e eu honrava isso”, completa.
As ações do jovem davam-se ao fato dessa visão de que o errado era o certo. “Eu, em muitos casos, não queria fazer isso. Mas também não queria perder o lugar que havia conquistado. Por isso, eu fazia o mal sem olhar a quem”, revela.
Entrar no mundo do crime é muito fácil, tendo em vista que o que todas as pessoas desejam é uma oportunidade e esta nem sempre aparece. “Quando a sociedade ou o governo não te oferecem a oportunidade, os traficantes vão te oferecer. Ninguém deseja nascer, crescer e não ser ninguém. E se você cresce vendo o pai catando lixo, a mãe trabalhando muito e não vê crescimento dentro de casa, você olha para o lado e vê que é muito mais fácil crescer nesse mundo, mesmo que ele seja errado. Levar um pacotinho ali e ganhar R$ 10. Isso vai iludindo”, relata.
O sonho do menino Ramon era ser jogador de futebol, no entanto, a realidade vivida por ele mostrou que o sonho nem sempre pode se tornar real. E quando a verdadeira situação bate à porta, o desespero vem junto com ele. “Sabia que não podia sonhar a vida inteira. Eu não queria viver o que meus irmãos viviam, mas era a minha única oportunidade”, fala.
O início na vida no crime começou cedo. Com apenas dez anos, o pequeno Ramon comprava lanches para os traficantes. “Comecei a vida do crime muito cedo, mas de forma sutil. Minha mãe trabalhava o dia todo e eu via todos os meus amigos tendo de tudo. Porque meu bairro já era complicado, meus amigos eram filhos de traficantes. Eu achei que havia encontrado uma família neles. Afinal, era uma forma de cuidado. Ninguém mexeria comigo, eu estava protegido”, completa.
Os irmãos de Ramon eram envolvidos com crack e ele sabia que andando com quem o protegia, ele também estaria protegendo sua família. “Eu também conseguia dinheiro fácil. R$ 10, R$ 20 ou R$ 30, era muito fácil de conseguir, mas quando você ganha um pouco, você quer sempre mais e mais. Então você entra de cabeça nisso. Com 13 anos eu já estava muito envolvido, vendendo quilos de drogas”.
O sistema, infelizmente, ainda não recupera ninguém. “O sistema até tenta mudar essa realidade, no entanto ainda não há estrutura. Vi muitos entrarem no Casep por terem roubado uma bicicleta e saírem de lá especialistas em tráfico. É uma escola, isso sim. E saem de lá querendo aplicar tudo nos morros. Vi muitos morrerem”, fala.
Quando Ramon completou 21 anos, dentro da associação, a data o marcou. “Eu completei 21 anos e chorei, pois eu sabia que se estivesse no mundo do crime, depois de completar 18 anos, eu estaria na cadeia ou morto”, relata.
A visão de futuro, quando ainda estava envolvido no mundo das drogas, era apenas de contagem das possíveis penas e calculando o que fazer quando saísse da cadeia. “Havia um época em que viver para mim, era um dia de cada vez. Não sabia o que esperar. Não sabia o que poderia ocorrer”, fala.
Ao contrário de antes, a expectativa de futuro mudou completamente. Novos sonhos nasceram, novos objetivos brotaram. “Um dos meus sonhos é dar continuidade ao trabalho que é realizado aqui hoje. Possuir uma casa para atender esses adolescentes e expandir isso para os morros. Digo ainda que o trabalho que me recuperou é o trabalho que eu desejo para mim”, completa.
A vida fácil, o dinheiro fácil e a acomodação que essas facilidades geram, acaba facilitando que as crianças entrem nesse caminho. No entanto, entrar é fácil, difícil mesmo é conseguir sair.

Contribuições
A Associação Voz de Muitas Águas, criada pela Igreja Cristã do Caminho, e que mantém empregando, profissionalizando e acolhendo jovens em situação de risco que já passaram pelo Casep, conta com doações para a manutenção da entidade, que podem ser efetuadas na sede localizada na Rua Paraíba, 247, bairro Victor Konder, em Blumenau. Mais informações podem ser obtidas através do telefone (47) 3041-0868.

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