Policial filma apreensão de drogas em grande rodoviária
Durante dois anos, um sargento da Polícia Militar registrou a apreensão de drogas na Rodoviária de Campo Grande (MT). Ele encontrou drogas em rolos de tecido, em uma mesa e até em uma cômoda.
Veja o trabalho de um policial que decidiu filmar todas as apreensões de drogas em uma grande rodoviária brasileira. Ele encontrou drogas em lugares inimagináveis.
À primeira vista, nada de errado. Na rodoviária, policiais encontram rolos de lixa de parede e de borracha impermeabilizante. De repente, vem a surpresa. No meio da carga, há 60 quilos de maconha.
A descoberta não foi por acaso, garante o chefe da equipe. ?Pela experiência nossa do dia a dia, uma vez aberto o bagageiro, nós já sabemos que ali dentro ou tem ou já foi carregado droga naquele ônibus?, aponta o sargento da Polícia Militar Mauricio Guedes da Silva.
Durante dois anos, o sargento Guedes fez mais do que suas obrigações de policial: pegou uma câmera e filmou o combate ao tráfico de drogas na rodoviária de Campo Grande. A capital de Mato Grosso do Sul é ponto de parada para quem vem das fronteiras com a Bolívia e com o Paraguai, em direção a outros estados.
O Fantástico teve acesso a todo material gravado pelo PM e constatou que um dos problemas enfrentados por quem viaja nessas linhas é saber quem são os traficantes. Muitas vezes, ele pode ser o passageiro que está sentado bem ao lado. Foi o que aconteceu em um dos flagrantes.
Em uma vistoria, os policiais desconfiam de um rapaz. ?Não tenho bagagem embaixo?, ele diz. É mentira. O rapaz transportava maconha.
Como são as bagagens suspeitas? ?Primeiramente, nós vamos erguer a bagagem. Se ela pesou, vamos bater. Nisso, exala o odor da maconha ou da cocaína. Nós não abrimos. Através do tíquete, localizamos o proprietário da mesma e pedimos para ele abrir a mala?, explica o sargento da Polícia Militar Mauricio Guedes da Silva.
Mas há casos em que a droga está muito bem escondida. Quem desconfiaria de rolos de tecido, que iam do Paraguai para Santa Catarina?
?Desconfiamos, porque Santa Catarina é grande produtora de tecidos. Indo tecido para aquela região, deu certa curiosidade. Foram apreendidos 42 quilos de maconha, dispersos em quatro tubos?, conta o sargento Mauricio Guedes da Silva.
Um boliviano ia para o Rio de Janeiro. Na bagagem, muito leite condensado. ?Pegávamos as latas e balançávamos. Em umas, nós escutávamos o barulho do líquido, e a outra já estava mais pesada. Além de pesada, ela ainda não fazia barulho?, diz o sargento da Polícia Militar.
O boliviano disse que faria a entrega para um comerciante brasileiro, sem conhecer o conteúdo: sete quilos de cocaína.
De 2009 até hoje, quase duas toneladas de droga foram apreendidas na rodoviária de Campo Grande. Também havia cocaína e maconha dentro de brinquedos, saquinhos de suco em pó e caixas de ervas medicinais.
?Foi flagrada a pessoa já tentando embarcar no táxi para abastecer a cidade de Campo Grande?, diz o sargento Mauricio Guedes da Silva.
A maioria dos traficantes seguia de ônibus para Porto Velho, Goiânia, Cuiabá, Rio de Janeiro e São Paulo. A capital paulista é o destino de latas de tinta para carro. Quando a boliviana aparece para retirar a mercadoria do guarda-volumes, acontece o flagrante. ?Abrindo-se as latas, logo localizamos um invólucro dentro e foi verificado que se tratava de cocaína?, lembra o sargento da PM. Nas latas de tinta, oito quilos de cocaína.
Com 18 anos de profissão, o sargento Guedes diz que sabe identificar um traficante. ?Ele é quieto. Eles não nos encaram, passam sem nos olhar. Às vezes, dá uma tossida, às vezes, coça a cabeça?, descreve o sargento da Polícia Militar Mauricio Guedes da Silva.
Nos dois últimos anos, na Rodoviária de Campo Grande, 235 pessoas foram presas por tráfico. De cada dez, sete são menores. Um rapaz de 17 anos, que ia do Paraguai para Santa Catarina, leva três caixas de papel sulfite no bagageiro do ônibus. Os policias abrem os pacotes e acham 23 quilos de maconha. ?Pedimos aos pais: tem que olhar para seus filhos, onde eles estão indo, com que estão?, aponta o sargento.
Até calças engomadas com cocaína já foram descobertas em Mato Grosso do Sul. Também encontramos apreensões inusitadas em ônibus e em rodoviárias de outros estados.
Em Goiás, as laterais da caixa térmica escondiam 15 quilos de cocaína. No Espírito Santo, mais 15 quilos foram encontrados dentro de uma caixa de som.
Em Mato Grosso, um traficante transportou 46 quilos de cocaína dentro de uma mesa e de uma cômoda. Outro homem chegou a esconder a droga na porta do banheiro do ônibus e até no armário onde fica o sabonete líquido.
A linha de ônibus campeã de apreensões sai de Pedro Juan Caballero, no Paraguai, e vai até Brasília. Em dois anos, a polícia descobriu uma tonelada e meia de drogas nessa rota. Na quinta-feira passada, percorremos uma parte desse trajeto. ?A gente tem receio de ter tiroteio, essas coisas. A gente tem medo?, avisa a dona de casa Valdirene Silva.
O Fantástico foi até um posto da Polícia Rodoviária Federal, e os policiais encontraram em um ônibus antes do nosso esse menor. Ele estava levando cerca de 3,5 quilos de maconha. A droga estava presa no corpo dele. O rapaz tem 17 anos.
Fantástico: Quanto você ia receber pela viagem?
Rapaz: R$ 500.
Fantástico: É a primeira vez que você faz essa viagem?
Rapaz: É.
Fantástico: Está arrependido?
Rapaz: Estou.
Esta semana, em outras partes do Brasil, aconteceram duas grandes apreensões. Na terça-feira, no Distrito Federal, em um ônibus que ia para Natal (RN) foram encontrados 97 quilos de maconha. Foi a maior apreensão do ano no Distrito Federal.
Na sexta-feira passada, em Presidente Prudente, interior de São Paulo, a polícia descobriu, no meio de brinquedos, 136 quilos de maconha. O ônibus ia de Cuiabá para a capital paulista.
O presidente do Conselho Antidrogas de Mato Grosso do Sul, Sérgio Harfouche, tem uma sugestão para diminuir o problema: ?As cargas e os ônibus, principalmente, deveriam ser melhor fiscalizados. O que é feito no aeroporto deveria ser feito nas rodoviárias?, aponta.
O que os passageiros podem fazer para ter uma viagem mais tranquila? ?Quando se sentar nos bancos, cuidar das suas mochilas, em cima. Às vezes, o traficante pode retirar algum produto, alguma droga da mochila dele e colocar na mochila de outra pessoa. Por isso que a gente fala para as pessoas colocar um cadeado. Isso é o principal?, afirma o sargento Mauricio Guedes da Silva.
E se a pessoa suspeitar de alguém? ?Inicialmente, ela deve comunicar ao motorista. O motorista vai tomar a providência que achar necessária, comunicar uma autoridade, parar em posto policial e tomar as devidas medidas?, diz o policial rodoviário federal Jovane Gervásio Rodrigues.
?É o nosso trabalho. Temos que fazer e fazer bem feito, para essas drogas não irem adiante?, diz o policial.