Paixão pela sétima arte
Sejam longas-metragens ou curtas e até mesmo em vídeos feitos por celular, a linguagem segue apaixonando e em Pomerode não é diferente
Um cinema seduz gerações e gerações e assim como a literatura, transporta as pessoas para viagens em torno da imaginação. Muito se discute se a vida imita arte ou ao contrário. Mas o certo é que quem assiste a um filme de maneira analítica, tem como tirar muito proveito para o seu dia-a-dia.
Tentar explicar a paixão por essa mídia é impossível, porque mesmo quando era desprovida de som e de cores já mobilizava fãs em todo o mundo.
Do preto e branco e da genialidade de Chaplin, pulamos para os efeitos de George Lucas e com os adventos, hoje já não tão modernos assim, como o DVD e seu antecessor videocassete, entraram com mais facilidade nas casas das pessoas. Atualmente até pelo celular dá para se assistir um filme, mostrando que esse mercado é inesgotável.
Um exemplo dessa paixão, é que não importa qual a população de uma cidade, há sempre uma locadora por perto. Claro, que se for falar de cidades maiores a diversidade das obras disponíveis é muito maior. Porém não podemos desmerecer essa paixão onde quer que ela esteja.
Ela é uma importante fonte de memória oral e voltando aos avanços tecnológicos cada vez fica mais fácil produzir algo.
Sejam longas-metragens ou curtas e até mesmo em vídeos feitos por celular a linguagem segue apaixonando e em Pomerode não é diferente. Por isso, fomos em busca de histórias de quem tem como parte de sua vida o hábito de assistir filmes. E deles ouvimos reflexões que nos fazem pensar se estamos prestando atenção naquilo que estamos vendo na tela. Porque caso isso não esteja sendo feito, estamos perdendo uma oportunidade infinita de nos aprimorarmos e crescermos intelectualmente. Conquistas que com certeza os filmes têm a capacidade de nos proporcionar.
Reflexão sobre a vida
Para a industriária, Roseli Selke Heidorn, de 50 anos, cinema é sua melhor distração e fonte inesgotável para reflexões sobre sua própria história. Uma das pessoas que mais locam filmes em uma das locadoras da cidade, chega a assistir dez DVDs por semana, um número bastante expressivo, que ela diz ter ganhado força há uns cinco anos.
Porém, a paixão pela sétima arte é antiga e remete a década de 1980, quando assistiu Amor Sem Fim, com a atriz Brooke Shields. Mas como já foi dito foi de uns tempos pra cá que ela largou de mão os canais convencionais de TV e os programas muitas vezes vazios, que são transmitidos pelas emissoras, para assistir filmes de diversos estilos.
O suspense foi um dos estilos que Roseli esgotou os títulos disponíveis na locadora que é associada. Depois vieram os romances e agora partiu para os dramas. Dessas obras, Roseli tira exemplos para a vida e aprende com a superação dos personagens. “Gosto de filmes que tenham histórias, nas quais os personagens são obrigados a lidar com a perda e deles acabo tirando lições de vida. Muitos até me fazem refletir sobre minha própria vida e tudo que passei. Posso afirmar que se houvesse algum cineasta interessado em contar minha história daria um bom roteiro”, garante a cinéfila.
Por esses exemplos, a industriária gosta de produções na qual os roteiros são inspirados em fatos reais.
O importante para Roseli, é que além de descontrair o filme precisa ser analisado e nessa hora ela cita um clássico da literatura juvenil, que ganhou as telas, “Eu, Christiane F., 13 Anos, Drogada e Prostituída”. “Quando vi esse filme, pensei o quanto os pais ignoram seus filhos. Tenho orgulho de dizer que mesmo criando os meus sozinha, nunca precisei me preocupar”, reflete, mais uma vez fazendo uma analogia da arte com a vida real.
Mas como dissemos no início da reportagem com Roseli, assistir a DVDs é seu passatempo predileto e, portanto, há os momentos que a reflexão dá espaço para o entretenimento e nessa hora, filmes que abordam danças latinas e musicais alemães, a atraem muito. Descendentes de germânicos, ela diz que nos filmes em idioma alemão ela nem usa legenda, para praticar a língua estrangeira.
Como é “viciada” em filmes, durante a entrevista ao Jornal de Pomerode, Roseli já tinha em mente o que pretendia ver durante a semana e quando foi até a locadora fazer as fotos da matéria já começou a olhar nas prateleiras o que iria locar.
Instrumento filosófico
O gaúcho de Cruz Alta, José Rüdel, 59 anos, aposentado, está radicado há 23 anos em Pomerode e tem um olhar bastante crítico sobre a produção cinematográfica moderna. Mais crítico ainda, ele é quando se refere ao espectador. Para ele, um apaixonado por cinema, um filme não é só imagem, é também uma fonte de conhecimento e um instrumento a serviço do desenvolvimento psíquico do ser humano.
Entre filmes norte-americanos e os europeus, José fica com a segunda opção, mas recomenda também produções australianas e até mesmo argentinas e diz: “O filme precisa ter cunho filosófico e abordar a psiquê humana. Um exemplo é quando há um arquétipo, ele precisa estar bem caracterizado e definido”, comenta o cinéfilo.
Ele ainda diz mais, que é importante os filmes mostrarem um universo onde são reproduzidas experiências verdadeiras, principalmente para que as pessoas quando acabar a exibição, possam refletir sobre o que acabaram de ver. “Está todo mundo vidrado nas imagens, que sequer prestam atenção na mensagem que os personagens quiseram passar”, lamenta o ex-administrador de empresas.
José destaca algumas produções que viu: em "Sons do Coração", ele comenta que o personagem mostra uma índole forte e a importância de buscar seus sonhos. Já em "Pilares da Terra", ele indica para os apaixonados por história. “O filme conta o conflito entre o cristianismo e a monarquia. Ele é passado na Inglaterra ele mostra a formação da Igreja anglicana. Vale a pena conferir”, disse José.
O aposentado lamenta que as locadoras e a próprias redes de cinema da região optem por adquirir filmes comerciais, deixando de lado produções fantásticas, que são feitas ao redor do mundo. “Isso é cultural. Cinema é mercado, mas garanto que quando começarem a colocar filmes que levem a pessoa ao encontro do conhecimento, eles verão que há muito mais interessados do que pensam”, comentou.
Espectador inveterado, José Rüdel, segue na linha de que o importante é a qualidade do que se assiste e não a quantidade e por isso abdica de ver filmes de ação, os quais tem uma opinião bem crítica. “Filmes de ação têm muito estúdio e computação gráfica. Preocupa-me esse estilo atrair tanto os jovens. Mas isso tem explicação: ele gera adrenalina. Porém ela é perigosa, pois não é gasta. Esses filmes não carecem de reflexão e causam ansiedade, gerando indivíduos consumistas, assim como desejam os grandes estúdios dos Estados Unidos”, criticou, para complementar a explicação alegando que esse tipo de filme gera inclusive depressão, porque a pessoa não identifica a sociedade onde está inserida e desta forma se sente em um mundo descaracterizado e monótono. “Filmes de ação provocam sensações que podem influenciar a atitude dos jovens. Não deixaria um filho meu ver esse tipo de produção. Sugeriria épicos, a exemplo de Ben-Hur”, recomendou.
Paixão por imagens
O cinema surgiu tendo a imagem em movimento como principal atrativo. O que o público do final do século XIX consumia eram imagens precárias que refletiam situações cotidianas de todos os tipos, desde operários saindo de uma fábrica até pornografia e escatologia. O novo meio de entretenimento das camadas mais pobres da sociedade era visto como uma atividade marginal, cuja imagem era tudo. E assim o foi até meados da década de 1910.
Na verdade, o apreço exacerbado por imagens ainda existe. Isso pode ser comprovado com sucessos absolutos de público que deixam de lado o trabalho do elenco em prol de imagens espetaculares, como aconteceu em Avatar (Idem – 2009) de James Cameron. Por quê? Simples, mais de um século se passou, mas o espectador continua fascinado pelas imagens. A única diferença é que o cinema se estruturou, atingindo a todas as camadas sociais.
Mesmo com um público cativo apaixonado pelo excesso de imagens, o cinema também exerce um papel social, conscientizando pessoas ao redor do globo com produções tocantes que podem ou não ser baseadas em fatos reais, como A Lista de Schindler (Schindler’s List – 1993). Dirigido por Steven Spielberg, o filme emocionou plateias do mundo inteiro ao mostrar os horrores do Holocausto, de forma até então nunca vista em Hollywood.
Ao longo dos anos, o cinema se transformou em um poderoso meio de comunicação. É impossível ficar alheio aos seus lançamentos, produtos de uma indústria gigantesca acostumada até mesmo a ditar tendências e regras comportamentais, exportadas de maneira rápida e eficaz no mundo cada vez mais globalizado.
Por: Ana Carolina Garcia – Jornalista e autora do livro “A Fantástica Fábrica de Filmes: Como Hollywood se Tornou a Capital Mundial do Cinema”, da Editora SENAC RIO.