O segredo do bem viver
Sorriso fácil e bom humor contagiante são as principais características de Bertholdo Kamke, morador de Testo Alto. Com 90 anos de idade, Seu Bertholdo lembra com emoção dos momentos vividos e conta todos com detalhes.
Sorriso fácil e bom humor contagiante são as principais características de Bertholdo Kamke, morador de Testo Alto. Com 90 anos de idade, Seu Bertholdo lembra com emoção dos momentos vividos e conta todos com detalhes.
De uma vitalidade invejável, sentado em uma cadeira de balanço, Seu Bertholdo conta que nasceu, cresceu e sempre morou em Testo Alto. Este bairro que viu crescer e expandir, foi também o palco para a profissão de queijeiro, que exerceu com tanto afinco e amor.
No entanto, antes de chegar ao Comercial Haut, Seu Bertholdo aprendeu a superar perdas e a conquistar sonhos. Com mais quatro irmãos, a perda do pai, com apenas sete anos de idade, foi um momento difícil para toda a família. Meu pai e meu tio eram sócios em uma serralheria. Local este onde sofreu o acidente e veio a falecer, conta.
Depois disso, sua mãe seguiu em frente com a serralharia. No entanto, o seguimento das atividades não deu certo e as portas se fecharam de vez com a mudança de endereço do tio.
Com a chegada do padrasto, a mãe de Seu Bertholdo dedicou-se a manter e explorar as terras que possuía e, com isso, toda a família trabalhava unida. Família esta que cresceu com a chegada de mais sete irmãos.
Todavia, quando estava com 25 anos a vida começou a tomar outro rumo. Lembro-me bem que acordei cedo para procurar um emprego. Como na época não possuía bicicleta ou qualquer outro meio de transporte, eu peguei carona com a carroça de leite. Primeiro parei na Indústria Weege, mas lá não havia vagas. Em seguida, estive na Porcelana Schmidt, que na época ainda estava iniciando sua estrutura, e não me interessei, conta.
Porém, após voltar a pé para sua casa, Seu Bertholdo efetuou uma parada para tomar café no Comercial Haut. E, quem diria que, após andar tanto, o desejo seria realizado tão próximo de casa. Parei no Haut para tomar um café e então Victor Haut me perguntou se eu gostaria de mais alguma coisa. Foi então que respondi que o que eu mais queria, não teria: um emprego. Então me surpreendi com o fato de Victor me dizer que no local um dos funcionários iria ao exército e que uma vaga estaria disponível, fala emocionado.
E então, em fevereiro de 1948, Erich Haut foi até a casa de Seu Bertholdo e lhe informou que poderia iniciar no emprego. Foi então que comecei a trabalhar, sai de casa e passei a morar no segundo andar do armazém, explica.
Durante cinco anos Seu Bertholdo cuidava da criação dos porcos, dando-lhes trato, fazendo carola, descascando arroz e tudo que pudesse efetuar. E, então, o destino lhe surpreendeu novamente. O queijeiro responsável faleceu e eu fui convidado a ocupar seu lugar, relembra.
Os 35 anos dedicados ao Comercial Haut são lembrados com muito carinho. As histórias vividas, os aprendizados adquiridos e os lugares conhecidos são parte de uma história contada com muito orgulho. Conheci muitos lugares da região ao viajar com Erich Haut. E, lembro-me muito bem, do dia em que tive a minha primeira bicicleta. Aprendi a andar com a bicicleta de Erich. E, um dia, ele apareceu com uma bicicleta para mim, em meu nome, registrada em Blumenau, pois na época as bicicletas possuíam registros com placas, lembra.
E se o trabalho de Seu Bertholdo sempre lhe trouxe alegrias, o bairro em que nasceu não deixou por menos. Foi em bailes na região que ele conheceu sua falecida esposa, Laura Ida Anna Zumach. Laura ia aos bailes com a irmã e também era amiga das minhas irmãs. Antes de começar a trabalhar eu já a observava, mas nos casamos quando eu tinha 28 anos e ela 19, fala.
Depois de dois anos trabalhando, Seu Bertholdo realiou sua primeira grande conquista: um terreno para chamar de seu. Sempre guardei meus pagamentos e para comprar o terreno que queria, precisava de 42 mil réis. Como possuía apenas 17 mil, emprestei o resto, mas pude comprar o terreno que, inclusive, já possuía uma casa, afirma.
Então, depois dessa conquista, casar com Laura foi o próximo passo. O casamento ocorreu em 19 de maio de 1951 e dele, o nascimento dos quatro filhos. Em 1954, o nascimento da filha mais velha, Leonilda. Em seguida, em 1958, Leonora. No ano de 1959, o único filho homem Fritz e, então, em 1972, Leodete.
No entanto, antes do nascimento da caçula, a família Kamke comemorou, em 1960, a construção da nova casa. No ano em eu Leodete nasceu também compramos mais terrenos, pois possuíamos criações e queria poder plantar e colher tudo em meu terreno, explica.
E enquanto trabalhava, Dona Laura ficava em casa com os filhos e, como de costume na época, cuidando dos afazeres domésticos e da lavoura. Laura cuidava da criação de galinhas e vacas, além da roça e da criação dos filhos. Por dia, eram vendidos cerca de 40 litros de leite, pois as vacas adquiridas eram das raças Holandesa e Jersey, conta. Esse conhecimento foi adquirido através de participações em exposições com Seu Haut.
Ao se aposentar, em 1983, Seu Bertholdo não parou de trabalhar, pois seguiu auxiliando na lavoura. Para as filhas Leonilda e Leodete, o trabalho sempre foi algo que Seu Bertholdo exerceu com amor e orgulho, motivos pelos quais, hoje, ainda se emociona ao falar.
No entanto, quando pôde se dedicar à família e a mulher, o mesmo destino que sempre lhe proporcionou boas surpresas, também lhe tirou a esposa. Laura tinha diabetes e era cadeirante quando faleceu há cinco anos, com 77 anos de idade, contam. Os olhos lacrimejados não puderam ser evitados quando os momentos, mesmo que não ditos, passaram em sua memória.
A falta que Dona Laura faz à família é evidenciada quando as filhas contam que o amor e as palavras de carinho sempre estiveram presentes no convívio familiar. A perda da mãe e esposa é uma dor que não passa, mas é amenizada quando as boas lembranças são reavivadas.
Sozinho desde 18 de agosto de 2008, Seu Bertholdo mora com a filha mais velha e mantém uma rotina agitada para passar o dia. Ao se levantar, por volta das 6h, o café da manhã é tomado antes de tratar seus animais, além de cortar cana.
Ao seu lado para as tarefas diárias e também nos momentos de descanso, a pequena Lili. A cadela que foi trazida pela neta após ser atropelada, hoje é a inseparável amiga de Seu Bertholdo.
Sempre conhecido em seu bairro, Seu Bertholdo também possuía envolvimento político, ao ser cabo eleitoral na região. O gosto pela política é tanto, que nas eleições de 2012 exerceu seu papel de cidadão e votou.
Outro motivo de orgulho é o fato de falar apenas o alemão. Sendo que, por este motivo, um dos tempos mais difíceis foram vividos na época da Guerra, quando a língua alemã era proibida na região. Laura aprendeu o português na escola, mas eu não. Orgulho-me de falar apenas o alemão, reitera.
Atualmente, a conversação com a família é feita, ainda, em alemão. Assim como a leitura de suas habituais Senhas Diárias e Bíblia. A crença é uma de suas maiores características. De manhã e a noite ele sempre efetua sua leitura, contam as filhas.
Com nove netos, agora Seu Bertholdo espera, ansioso pela chegada de seus dois primeiros bisnetos, podendo ter mais um desejo realizado.
Seu Bertholdo, com 90 anos, ainda tem um sonho: poder andar, mais uma vez, de bicicleta. No mais, acredita que para chegar a esta idade com tanta alegria e disposição o segredo é um só: a fé.
No entanto, além da crença, outra qualidade de Seu Bertholdo deve ser enaltecida: estar sempre de bem com a vida. Que sua história, sua alegria e sua vitalidade sirvam de exemplo para todos.