O eterno martírio do Vale do Itajaí
Três dias consecutivos de muita chuva. Alguns picos de tempestades e chuvas torrenciais. No início, pelas ruas, apenas reclamações do tempo ruim e da incessante água que caía. Com o volume de chuva cada vez maior, o Rio Itajaí-Açu aumentava o nível a cada hora. E com isso, também a…
Três dias consecutivos de muita chuva. Alguns picos de tempestades e chuvas torrenciais. No início, pelas ruas, apenas reclamações do tempo ruim e da incessante água que caía. Com o volume de chuva cada vez maior, o Rio Itajaí-Açu aumentava o nível a cada hora. E com isso, também a preocupação estava cada vez mais presente nos moradores da região. Blumenau e Gaspar, na madrugada do dia 08 de Setembro, já se preparavam para o pior. Em alguns momentos, o nível do rio chegou a subir quase 20 centímetros em uma hora. Em Blumenau, as primeiras casas e ruas começam a ser alagadas com o Itajaí-Açú em oito metros acima do nível normal.
Num período de 48 horas, a chuva chegou a 187mm, quantidade superior ao estimado para todo o mês de setembro (entre 150 e 160mm).
A preocupação maior surgiu quando o Ceops (Centro de Operações do Sistema de Alerta da Bacia Hidrográfica do Rio Itajaí-Açu) divulgou a informação de que o rio poderia chegar em Blumenau, a 14 metros, o que faria com que fosse registrada a maior enchente dos últimos 19 anos, na cidade. Para fazer essa projeção, o Ceops faz um cálculo volumétrico com base nas chuvas que caem no Alto Vale e também da maré, no litoral. Às 9h do dia 09, o Itajaí-Açú, em Blumenau, alcançou seu ápice, com 12,60 metros. O nível superou, assim, o registrado em 23 de novembro de 2008, que era de 11,52 m. Naquele episódio, 24 pessoas morreram na cidade, vítimas de deslizamentos de terra causados pela chuva.
Até a manhã de sexta-feira (09/09), Blumenau era a cidade mais atingida. Porém, em Rio do Sul, no Alto Vale, 80% cidade ficou debaixo d’água. Cerca de 300 famílias tiveram que ir para abrigos municipais. A prefeitura decretou estado de calamidade pública. A barragem de Ituporanga transbordou, com três metros acima da vertente. O ápice do Itajaí-Açu, em Rio do Sul, foi de 12,95 metros, às 19h do dia 09, mas começou a baixar poucas horas depois, já que a chuva havia dado um trégua.
A Defesa Civil Estadual foi acionada e segundo levantamento do órgão, só em Rio do Sul, foram 401 família, diretamente atingidas. 1883 pessoas precisaram ser encaminhadas para os 20 abrigos que foram ativados.
Timbó também sofreu com as fortes chuvas e o Rio Benedito, afluente do Rio Itajaí-Açú, chegou a medir 10,01 metros, às 7h de sexta-feira (09/09).
A primeira rua a pegar enchente em Timbó é a Rua Haiti, no Bairro Imigrantes, com 6,20 metros. Das cerca de 1.200 ruas de Timbó, pelo menos 500 foram atingidas pelas águas.
Além de muita água, a cidade também teve registros de deslizamentos de terra e queda de barreiras. Cerca de 5.000 das 12.000 residências de Timbó foram atingidas, em diversos graus, pelas águas. Moradores de cerca de 1.000 casas tiveram que sair de suas moradias em Timbó devido à enchente.
Afetados passam de 800 mil
Segundo boletim da Defesa Civil do Estado, mais de 819 mil pessoas foram afetadas, 57,4 mil desalojadas e 8,2 mil desabrigadas no Estado. Além disso, 34 municípios decretaram situação de emergência e dois entraram em calamidade pública (Rio do Sul e Brusque).
O órgão confirmou duas mortes em decorrência da chuva, em Guabiruba. Valdemiro Carminatti, 66 anos, trabalhava no telhado de sua residência, que despencou. Outra foi registrada em Rio do Sul. Um morador foi eletrocutado por um cabo da rede de energia, quando remava em um pequeno barco em meio a casas alagadas no município. No entanto, a Defesa Civil não confirmou se o óbito estaria diretamente relacionado à chuva, nem tinha o nome do homem.
Rodovias também ficaram interditadas
Pelo menos, nove rodovias no Estado apresentaram trechos totalmente bloqueados devido a alagamentos ou queda de barreiras. As rodovias estaduais SC 411, 426, 422, 456, 429 e 302 estavam interditadas até a noite de sexta-feira. O mesmo ocorria com as BRs 470, 282 e 280. De acordo com o relatório da Defesa Civil, havia mais de 40 pontos das rodovias catarinenses que apresentavam algum tipo de problema devido às chuvas. A BR 470 estava interditada por causa da água e entulhos.
Algumas rodovias federais que cruzam Santa Catarina ainda apresentavam pontos de interdição, até o início desta semana, provocados pelas chuvas dos últimos dias, segundo boletim da Polícia Rodoviária Federal (PRF).
O trânsito estava interditado no km 134,5 da Rodovia BR-470, em Lontras, próximo ao Posto da PRF de Rio do Sul, e Agronômica no km 149,7. Já no trecho da mesma rodovia, entre a BR-101 até Rio do Sul, o tráfego estava liberado precariamente.
Santa Catarina terá ajuda emergencial do Ministério da Saúde
Os municípios mais afetados pelas enchentes em Santa Catarina, vão receber do Ministério da Saúde três toneladas de medicamentos e insumos usados em caso de calamidade, incluindo antibióticos, analgésicos, sais para reidratação e ataduras, entre mais de trinta itens para primeiros socorros. No total, o material pode atender 18 mil pessoas durante um mês, beneficiando 91 municípios de toda a região Sul do país, atingidos por inundações, enxurradas e deslizamentos de terra. Enviada por helicóptero, a primeira remessa de uma tonelada e meia chegou a Santa Catarina na madrugada de terça-feira (13/09).
O anúncio foi feito pelo ministro Alexandre Padilha, em reunião na Casa Civil para discutir medidas emergenciais para a região. Desde o início das enchentes, o Ministério da Saúde ofereceu todo o apoio para o governo do estado e gestores municipais. Nesse final de semana, o governo do estado de Santa Catarina indicou ao MS que os estoques de materiais e medicamentos ficaram abaixo do ideal para esse tipo de situação.
“Estamos a postos para oferecer o que for necessário para que a população de Santa Catarina continue contando com os todos os serviços do Sistema Único de Saúde em seus municípios”, adianta o secretário executivo adjunto do Ministério da Saúde, Adriano Massuda. Ele explica que o Ministério da Saúde montou uma Sala de Situação para acompanhar os danos no Estado, que mantém contato diário com o governo do estado e gestores municipais.
Rede de saúde foi preservada
Gestores locais dos municípios afetados pelas enchentes informaram que a rede de saúde foi preservada, mesmo com a grande extensão de áreas alagadas. Apesar das dificuldades de acesso, a rede Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu 192) está funcionando, assim como o sistema de vacinação.
O Ministério da Saúde se prontificou também a disponibilizar equipes da vigilância sanitária e a realizar ações assistenciais. O governo do estado de Santa Catarina ainda não solicitou esse apoio, indicando que a fase aguda está superada. “Porém, estamos prontos para outras ações”, ressalta o secretário executivo adjunto do Ministério da Saúde.