O desafio da Baleia Azul: sinal de alerta para a depressão e o suicídio
Casos de suicídio ocasionados pelo desafio alarmaram a população. O assunto, que antes era visto como um tabu, começou a ser mais discutido nas redes sociais após a repercussão dos casos de suicídio envolvendo o desafio da Baleia Azul. Os primeiros casos do desafio que foram repercutidos, aconteceu na Rússia, em fevereiro
Segundo projeções da Organização Mundial da Saúde (OMS), a depressão será o mal mais prevalente no planeta em 2030, passando à frente do câncer e de doenças infecciosas. Estima-se que 121 milhões de pessoas sofrem de depressão no mundo. No Brasil, cerca de 5,8% da população possui a doença, num total de 11,5 milhões de casos.
Em casos extremos, a depressão pode levar ao suicídio, principalmente entre os jovens. Segundo dados do Mapa da Violência 2017, a partir do Sistema de Informações de Mortalidade (SIM), do Ministério da Saúde, em 12 anos, a taxa de suicídios entre jovens de 15 a 29 anos subiu de 5,1 por 100 mil habitantes em 2002, para 5,6 em 2014, representando um aumento de quase 10%. Já de 1980 a 2014, foi registrado um aumento de 27,2% no número de suicídios entre jovens de 15 a 29 anos.
Em Santa Catarina, somente nos primeiros três meses deste ano, o Samu realizou 165 atendimentos de tentativas de suicídio. 39 crianças e adolescentes de 10 a 19 anos se suicidaram em Santa Catarina no ano de 2016.
O assunto, que antes era visto como um tabu, começou a ser mais discutido nas redes sociais após a repercussão dos casos de suicídio envolvendo o desafio da Baleia Azul. Os primeiros casos do desafio que foram repercutidos, aconteceu na Rússia, em fevereiro. Duas adolescentes se jogaram do alto de um prédio na Sibéria, após percorrerem as 50 tarefas propostas pelo desafio.
O desafio da Baleia Azul consiste em uma troca de mensagens via redes sociais, entre os organizadores, conhecidos como “curadores” e as vítimas, propondo 50 desafios diários, que incluem tarefas simples, como desenhar uma baleia em uma folha de papel, até outras mais sérias, como cortar os lábios ou furar a palma da mão. O desafio final seria cometer o suicídio.
As investigações a respeito do assunto apontam que os que entram no jogo são geralmente adolescentes, de 12 a 14 anos de idade, que possuem alguma tendência à depressão. Algumas vítimas resistem a sair do jogo, pois são ameaçados de morte pelos organizadores.
Para identificar e ajudar a criança a não se envolver no “jogo”, a polícia elaborou algumas dicas para auxiliar na identificação. Observe mudanças bruscas de comportamento de seu filho; tristeza profunda, atitudes violentas, irritabilidade e isolamento são sinais que a criança ou o adolescente esteja sofrendo com algo que não pode lidar; demonstre interesse na rotina de seu filho; verifique se o adolescente sai de casa ou escola em horários aleatórios ou estranhos; observe o corpo de seu filho; cortes, perfurações e marcas nos braços e mãos são indicativos; piora no rendimento escolar, uso repentino de álcool/drogas e abandono de amigos ou atividades sociais também são indicativos; confira, diariamente, o que seu filho publica e compartilha nas redes sociais, tais como frases depressivas ou referências à “Whale” (Baleia).
Se houver qualquer indicativo da participação no “Jogo da Baleia Azul”, procure uma Delegacia de Polícia e registre um boletim de ocorrência. Não apague as mensagens encaminhadas e recebidas pelo adolescente, o que poderão auxiliar nas investigações. Você também pode procurar ajuda no Centro de Valorização à Vida (CVV – www.cvv.org.br) em Blumenau.
No Brasil, alguns casos de suicídio de jovens que teriam participado do desafio da Baleia Azul também já foram registrados, o que acende o sinal de alerta para o que pode estar por trás do desafio: a depressão, que vem ficando mais comum entre os jovens. A psicóloga Cinthia Thies, especialista em psicologia e saúde mental coletiva, e em saúde mental da família, explica que esse quadro expõe a fragilidade de uma geração. “Esta que vem de um conjunto de fatores: falta de disciplina, perda de autoridade dos pais, juntando com o isolamento que acontece dentro de casa com a utilização equivocada das redes sociais. Cada um está em seu universo, e não há diálogo”.
São vários os motivos que podem causar a depressão, segundo Cinthia. Entre eles estão a insegurança afetiva, pais ausentes, isolamento familiar, falta de objetivos e bullying. E, para perceber se a criança ou adolescente está desenvolvendo depressão, é importante a atenção em casa. “É importantíssimo que os pais observem mais os seus filhos, conheçam seus gostos e cotidiano, para saberem quando algo está errado através de um comportamento estranho ou de uma mudança de comportamento. Isolamento por um período maior de tempo, apatia, desinteresse, insegurança, dificuldade de concentração, raciocínio mais lento, entre outros, são indícios de depressão”, enumera a psicóloga.
Mas, a melhor maneira de evitar que o jovem passe por isso é estar atento e presente em suas vidas. “Estar em sua vida. Participar da sua vida, viver momentos juntos, dedicar-se aos filhos dentro de suas possibilidades. Mostrar que seus filhos são amados, queridos, e ouvi-los. Discipliná-los, ensinar que existem regras, e que devem respeitar seus pais. Ser próximo emocionalmente dos filhos, traz benefícios para a vida toda”, enaltece Cinthia.
Nas escolas, os profissionais também podem ajudar na identificação de um comportamento estranho e auxiliar os pais nessa identificação. O profissional da educação que está todos os dias com os alunos, percebe seus padrões de comportamento, e também as mudanças no comportamento de seus alunos. Neste momento, a escola deve avisar aos pais, ao psicólogo educacional que atua na instituição. Mas vale ressaltar que o papel dos pais é fundamental neste momento, como agentes de ação a favor dos filhos, com o auxílio da escola.
A psicóloga ainda reforça que é de suma importância valorizar o universo dos jovens, conhecer “seu mundo”, conversar sobre seus programas preferidos de TV, sermos espontâneos com eles estabelecendo diálogo de modo que não pareça algo artificial.