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O chute certo para a formação de cidadãos

Não há como negar que boa parte dos meninos vê no futebol um sonho. Ou um refúgio. E as escolinhas de futebol são a porta de entrada para que a criança siga em busca disso, mostre o quanto tem bola no pé, e quem sabe, trilhe um futuro brilhante pela…

21 de maio de 2010

Não há como negar que boa parte dos meninos vê no futebol um sonho. Ou um refúgio. E as escolinhas de futebol são a porta de entrada para que a criança siga em busca disso, mostre o quanto tem bola no pé, e quem sabe, trilhe um futuro brilhante pela frente.
Desde 2005, o município de Camboriú conta com a estrutura da Escolinha de Futebol Kadiz, que atualmente reúne, em média, 180 alunos. A maioria deles mora em bairros como Tabuleiro e Monte Alegre, mas também conta com alunos de Balneário Camboriú.
Quando o professor de educação física, Altair Kadiz dos Santos, decidiu montar a escolinha de futebol, o primeiro ponto a ser organizado foi a divisão de categorias. “Percebia que em outras escolinhas adolescentes treinavam junto com crianças de oito anos, o que faz com que o rendimento não seja o mesmo.” comenta.
Dessa forma, os alunos foram divididos nas seguintes categorias: cinco,seis e sete anos; oito e nove anos; 10 e 11 anos (por sinal, a categoria mais procurada) e 12, 13 e 14 anos.

A dificuldade do
primeiro ano
Como todo início de projeto, o primeiro ano foi o mais complicado. Kadiz lembra que a equipe, inicialmente composta por dois professores (o próprio Kadiz e Valtecir) “pagou para trabalhar,” uma vez que eram poucos os alunos. “Algumas crianças vinham para o treino, mas logo saíam, pois não conseguíamos formar uma equipe para um jogo coletivo, por exemplo,” relembra Kadiz.
A solução encontrada naquele momento foi buscar crianças carentes para o treino, sem cobranças de mensalidade. “Esta era uma proposta de trabalho que, para ser viável, teria que ter um número mínimo de alunos, caso contrário, não era possível levá- la adiante.” afirma Kadiz.
Se num primeiro momento, os ganhos financeiros não foram suficientes, o sacrifício teve seu lado compensador. “Mostramos que era possível fazer escolinha de futebol de uma forma diferente, ficando com os alunos da mesma faixa etária, durante uma hora e meia de treino. Isso possibilitou à criança olhar no olho do companheiro e jogar de igual para igual,” comenta.
Faça chuva ou faça sol, o treinamento é diário. Nesses cinco anos de trabalho, a escolinha não perdeu um dia de treino, pois conta com a vantagem do campo coberto. O quadro de professores não mudou. Apenas mais um profissional, o professor Rubinho, passou a fazer parte da equipe. “Isso faz com que o aluno tenha identidade com o professor, sabendo o que ele quer. A rotatividade de professores, às vezes, gera um desconforto para o aluno,” explica.

Oportunidade para
jovens carentes
No início de 2008, a escolinha começou um projeto social para a inclusão de crianças carentes. Inicialmente, havia a “adoção de alunos”, onde pais de alunos pagantes assumiam a mensalidade de uma criança carente. Mas vendo que podiam ir mais além, Kadiz tratou de buscar os alunos na Escola. “Através da Secretaria de Educação, eu procurei as escolas dos bairros mais carentes para buscar meninos que gostavam de futebol, mas não tinham oportunidades,” relata.
Muitos destes apresentam sérios problemas sociais, seja na escola ou familiar. “Você dá uma oportunidade para esse aluno, uma atenção que, às vezes, eles não têm em casa e foi aí que eles começaram a surpreender.”
Em média, 45 alunos que participam dos treinos fazem parte do projeto social. E a surpresa com eles, veio em todos os sentidos: mudança de comportamento na escola, perante à comunidade e família. “Alguns diretores de escola nos procuraram para saber o que estava acontecendo, porque muitos alunos, considerados repetentes começaram a ter um melhor desempenho escolar,” comenta.
Tratar os alunos de igual para igual é um fator-chave para o grupo. E isso pode ser observado em diversos aspectos. Um deles é o sistema de alimentação. Os olhos dos pequenos até se esticam para um chocolate ou refrigerante que se encontram no bar do complexo esportivo, mas para os alunos em treino, a venda é proibida. O lanchinho é a base de banana e água mineral gratuitos. “Assim, o aluno se sentirá numa igualdade de tamanho, de alimentação e tratamento por parte dos professores, sem nenhuma discriminação,”explica Kadiz.
Se de um lado, há a responsabilidade do treino, por outro também há um pouco de diversão, sempre na busca por novas parcerias. Mensalmente, o complexo esportivo ganha ingressos para o Beto Carrero World, Barco Pirata, cinema, Cristo Luz. Mas nada é de graça. Os alunos têm que apresentar um bom desempenho escolar e evolução durante cada bimestre. E são motivados para isso. Aquele que não leva o boletim, não participa dos sorteios. Assim, a corrida para ser o melhor não se limita às quadras, mas principalmente, se estende aos bancos escolares.
A importância da
inclusão social
Mais do que simplesmente buscar alunos em cada escola, fazer parcerias que possam fortalecer e auxiliar esse trabalho foi essencial para que a inclusão social não fosse algo apenas momentâneo, mas que se fizesse cada dia mais presente.
Para a Secretária de Educação de Camboriú, Fátima Nair Bambinetti, incluir alunos em projetos voltados para o esporte possibilita melhora de aprendizagem na escola e também uma ponte para que a Educação consiga realizar seu trabalho da melhor forma. “Muitos alunos da rede municipal não possuem uma base dentro de casa. Isso faz com que a gente acabe tendo a grande responsabilidade da educação quase que integral do aluno. Buscando parceiros que nos auxiliem nesse sentido, alavanca nosso esforço e faz com que a gente não desanime.” ressalta Fátima.
O Conselho Tutelar de Camboriú também se engajou nessa luta da inclusão social. E um dos reflexos foram os irmãos de oito e nove anos, Alisson e Alifer, que, em seis meses de treino, já conseguiram título de campeão estadual. Através do Programa Colher e Caminhar, que limita a permanência de crianças e adolescentes na rua após as 23h, os conselheiros, em ronda, abordaram os dois irmãos às 2h, no Bairro Monte Alegre. Como as crianças gostavam de ajudar futebol e possuíam um histórico familiar comprometido, o Presidente do Conselho Adriano Gervásio, procurou as dependências da Escolinha e, há seis meses, os dois frequentam os treinos. Pelo acompanhamento realizado por Gervásio, a parceria vem surtindo efeito. “Percebemos que eles estão mais disciplinados, pois para eles, treinar na escolinha é o paraíso, é uma realidade totalmente diferente do que estavam acostumados,” completa.

Aulas de xadrez
Num primeiro momento pode parecer chato. Mas não há como negar que traz bons resultados. Cerca de 45 minutos antes de ir para as quadras, os alunos pegam as peças, tabuleiro e dão um xeque-mate com um bom treino de xadrez. E faz sentido?
Pra Kadiz, que trouxe a modalidade no início do ao passado, esta é uma grande ferramenta para agregar concentração, estratégia e rapidez no raciocínio. “São características que também se refletem no futebol. Temos alunos que sabem jogar, mas quando recebem a bola, ficam ansiosos e afoitos,” explica.
Mais do que desenvolver o raciocínio, o xadrez também possibilita um melhor rendimento escolar. “Temos essa preocupação com a escola e queremos que estudem cada vez mais. Assim, se tornarão pessoas mais inteligentes, e isso não refletirá só na escola e no futebol, mas na vida e no dia-a-dia,” afirma Kadiz.
O receio, naturalmente, aconteceu, mas porque muitos deles não tinham conhecimento. Hoje, o que se observa é o contrário. “O aluno que chega antes do treino, automaticamente já pega o material e jogam por conta e isso é gratificante, pois é outra atividade que ele está buscando e desenvolvendo.”

Projetos para 2010
Numa parceria com a Secretaria de Educação, Associação dos Professores Aposentados e Univali será implantado aulas de reforço escolar. “Visamos não apenas melhor rendimento, mas, principalmente, a questão de cidadania para cada atleta,” ressalta.
Os reforços serão diários e ocorrerão no próprio complexo esportivo. A intenção é servir de estímulo e auxílio para alunos que encontram dificuldades em algumas matérias específicas.
O clima de competição também está a mil. A Associação Catarinense de Escolinhas de Futebol (ACEF) iniciou campeonato no mês de abril nas categorias Fraldinha, sub 11, sub 13 e sub 15. “Todos os horários da escolinha são mantidos e, durante as competições, fazemos um treinamento em horário especifico.”
Espírito de competição é importante, e ninguém gosta de perder. O título pode vir ou não, mas há algo que nunca se perde: a cidadania dada a cada um dos atletas que vê no futebol a grande oportunidade de conhecer um mundo diferente.
 

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