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O barquinho vai…

Não faltaram desafios a serem superados quando Karina Vanessa Schmitt decidiu modificar completamente a sua rotina e entrar para a vida marítima. Largou o emprego, na área da educação, e se lançou do sul ao norte, numa viagem ao Amapá que lhe custou cinco dias de ônibus, e mais 30h de balsa

1 de junho de 2015

Não faltaram desafios a serem superados quando Karina Vanessa Schmitt decidiu modificar completamente a sua rotina e entrar para a vida marítima. Largou o emprego, na área da educação, e se lançou do sul ao norte, numa viagem ao Amapá que lhe custou cinco dias de ônibus, e mais 30h de balsa para atravessar o Rio Amazonas, para fazer um curso na Capitania dos Portos do Amapá.

Hoje passa 35 dias corridos no mar. Atua como chef de cozinha, ou Cook, como nomeiam a função. É a única mulher da companhia que trabalha na área, sendo responsável pela alimentação de 13 tripulantes, na atual embarcação, mas ela conta que já cozinhou para 100 pessoas.

O contato inicial com a Marinha Mercante veio por meio do contato com pessoas que trabalhavam na área e o interesse em desbravar o novo mundo logo apareceu. Começou a pesquisar possíveis cargos, salários e campo de trabalho para as mulheres. Então estudou cozinha industrial e fez cursos variados na área de gastronomia. Começou com curso técnico pelo Senai, depois realizou outros de pequena duração com especializações em massas, molhos, carnes e sushi.

Após esta etapa obteve informações necessárias no portal da marinha e fez a inscrição para a Capitania dos Portos do Amapá, pois na época, em 2011, era a única Capitania com inscrições abertas. Viajou e não precisou fazer a prova do processo seletivo, pois havia conseguido uma carta de indicação de uma conceituada companhia Offshore do Rio de Janeiro. Estudou lá por dois meses e aprendeu disciplinas práticas e teóricas de marinharia, sobrevivência no mar, primeiros socorros, combate a incêndio e psicologia. Com a conclusão, recebeu sua CIR (Carteira Marítima), um documento fundamental para trabalhar na Marinha Mercante.

Voltou para Santa Catarina e antes de conseguir embarcar efetivamente, teve de fazer mais cursos. Na Capitania dos Portos de Itajaí realizei mais quatro cursos, durante quatro meses. Todos com processo seletivo para ingressar. Nesses cursos havia prova de resistência física e natação, além de aulas teóricas e provas para conclusão de cada curso. Com essa documentação em mãos eu já tinha o início do meu caminho. Encaminhei muitos currículos para empresas de embarcações offshore (brasileiras e estrangeiras). Iniciei então minha carreira em uma empresa de hotelaria brasileira, que prestava serviços à Petrobras. E hoje estou numa empresa com bandeira Norueguesa, tendo base no Rio de Janeiro, com uma frota de 37 navios atravessando mares da costa brasileira e estrangeira. Todas em função de petróleo. Já estou há mais de dois anos nessa vida marítima, e o aperfeiçoamento, a busca pessoal pelo conhecimento não para. Realizo cursos tanto na área de gastronomia como por exigência da Companhia ou da Petrobras, cursos voltados ao trabalho marítimo. Hoje, a exigência maior é o inglês fluente. Trabalho com uma equipe onde temos tripulantes da Noruega, Dinamarca, Filipinas e Brasil, conta Karina.

O estoque no navio é bastante rico e variado. Um verdadeiro supermercado a bordo. Há uma empresa especializada com o fornecimento de mercadorias para navios. Nosso navio está sempre atracando no Porto de Imbetiba, Macaé-RJ, e lá recebemos o nosso rancho. O pedido é feito on-line. Hoje estou aprendendo diversos pratos da culinária norueguesa. Preciso estar sempre inovando e atendendo aos mais exóticos pedidos. Dentre eles a carne de cordeiro.

O trabalho numa embarcação tem seus riscos. Em dias de mal tempo remédios para enjoo são os companheiros de bordo de Karina. Quando enfrentamos dias de vento e mar agitado, há desconforto para o trabalho de maneira geral e até para descanso. O balanço do navio muitas vezes nos embala, outras vezes nos joga fora da cama, sem mais nem menos, explica.

A principal motivação em optar pela carreira solitária, confinada e distante do conforto e das pessoas que ama, foi a estabilidade financeira e os benefícios para os familiares. Mas segundo a chef, a visão da imensidão azul do mar é maravilhosa, principalmente por não ter que enfrentar diariamente o trânsito e as buzinas das grandes cidades.

Neste momento, Karina está navegando por águas nacionais. Em seu retorno já está convidada para realizar uma palestra sobre sua profissão no C.E.I. Dorothea Hoeft Borchardt, a convite da professora Nadia, que está desenvolvendo um projeto sobre Navios Piratas. O objetivo é agregar conhecimento e mostrar um lado que ainda desconhecem sobre o transporte pelo mar…E o barquinho vai…

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