Educação

Nunca é tarde para aprender: vidas que renascem na sala de aula

Cimara dos Santos Selke, 51 anos, e Rosimeri do Livramento Nishimura, 59 anos são exemplos de superação ao voltarem aos estudos

19 de outubro de 2025

Fotos: Isadora Brehmer / JP

A retomada dos estudos não tem idade certa. Prova disso são as trajetórias de Cimara dos Santos Selke, 51 anos, e Rosimeri do Livramento Nishimura, 59 anos, que encontraram na Educação de Jovens e Adultos (EJA) em Pomerode uma nova chance de realizar sonhos antigos. Desde o início de agosto, o programa passou a funcionar em uma nova sede, no antigo prédio do Senai, mais acessível e estruturado para atender os estudantes.

O recomeço de Cimara

Cimara deixou os estudos ainda adolescente, após concluir a 8ª série. As dificuldades de deslocamento, o medo e a timidez a afastaram da escola. “Na época eu morava no interior e tinha que ir de ônibus à noite para estudar. Minha mãe incentivava, mas eu tinha medo. Ficava no ponto de ônibus pensando que poderia ser perigoso, então acabei desistindo”, relembra.

O tempo passou, vieram os filhos e a vida adulta, mas a vontade de retomar os estudos permaneceu. Foi a filha mais velha, professora, quem deu o empurrão decisivo. “Ela sempre me incentivava e até me inscreveu em um concurso público sem me contar. Eu dizia: a mãe não vai conseguir. E ela respondia: vai sim, mãe!”. O resultado não poderia ser melhor: Cimara foi aprovada e hoje é servidora efetiva em uma creche do município.

No dia 04 de agosto, ela deu mais um passo: voltou oficialmente à sala de aula, agora para concluir o ensino médio. “Estou focada em pedagogia, porque adoro crianças. Me sinto muito bem nesse ambiente e acredito que vai dar tudo certo para realizar esse sonho de me tornar professora”, projeta.

Cimara dos Santos Selke. (Foto: Isadora Brehmer / JP)

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A adaptação ao novo ritmo de estudos, segundo ela, foi um desafio. “Os primeiros dias a gente fica meio assustada, mas agora parece que virei aquelas ‘menininhas’ de colegial. Os professores são maravilhosos, têm paciência, explicam bem, porque sabem que na turma tem jovens, mas também pessoas mais velhas, com dificuldades diferentes. Isso faz toda a diferença”, destaca Cimara, que elogia a nova sede: “Ficou muito bonita, bem estruturada, até o lanche é preparado com carinho. Está tudo muito bom mesmo”.

Rosimeri: uma vida dedicada ao trabalho e agora aos estudos

Se a história de Cimara foi marcada pelo medo de continuar estudando na juventude, a de Rosimeri carrega outra realidade: a necessidade de começar a trabalhar cedo. “Eu tinha 14 anos quando entrei numa indústria têxtil. Meu pai nunca incentivou o estudo, achava que a prioridade era trabalhar. Já a minha mãe fazia o possível, mas era difícil. Acabei deixando a escola de lado para ajudar em casa”, conta.

O amor pela costura guiou seu caminho profissional. Trabalhou em grandes empresas, abriu sua própria confecção e alcançou sucesso financeiro. O tempo, porém, passou sem que o estudo fosse retomado. “Eu amava minha profissão e nunca mais pensei em estudar. Dediquei-me ao trabalho e, principalmente, à educação dos meus filhos. Fiz questão de dar a eles o que eu não tive”, afirma orgulhosa. Hoje, sua filha é profissional reconhecida em Pomerode e o filho segue carreira acadêmica, com mestrado e doutorado.

Rosimeri do Livramento Nishimura. (Foto: Isadora Brehmer / JP)

 

O reencontro com a educação veio de forma inesperada, após um contato com a então diretora do CEJA, Márcia, que a incentivou a tentar. “Eu fui lá só para conversar, mas ela me convenceu a tentar. E foi isso que aconteceu. Concluí o ensino fundamental no ano passado e agora estou no ensino médio. Para mim, foi uma surpresa imensa ver que eu podia chegar ali. Se eu fiz a primeira etapa, posso fazer a segunda”, diz emocionada.

Apesar das dificuldades, Rosimeri afirma que encontrou acolhimento no EJA. “Foi pelos professores que consegui. Eles têm um papel fundamental, me incentivam, me ajudam muito. Claro que a dedicação é minha, mas sem eles seria bem mais difícil”, reconhece. Hoje, ela também atua como voluntária na Rede Feminina de Combate ao Câncer de Pomerode, experiência que considera um divisor de águas. “Ali eu percebi o quanto eu ainda posso fazer pelo próximo. E os estudos vieram como parte desse processo de crescimento pessoal”.

Sonhos que se renovam

Para ambas, voltar a estudar representa mais do que concluir uma etapa acadêmica: significa provar a si mesmas que sempre é tempo de recomeçar. Rosimeri não esconde o desejo de seguir adiante. “Não sei se farei uma faculdade, porque sou aposentada por invalidez e não posso voltar ao mercado de trabalho formal. Mas tenho vontade de dar palestras, de compartilhar o que aprendi. Isso já seria uma realização enorme”.

Cimara, por sua vez, sonha em trilhar o caminho da docência. “Meu maior desafio foi ter coragem de dizer vou começar. Agora que comecei, ninguém me tira daqui. Sei que ainda tenho muito pela frente, mas cada passo me aproxima do sonho de ser professora”.

Nova sede do EJA em Pomerode

O EJA de Pomerode agora funciona no antigo prédio do Senai, no Centro da cidade, facilitando o acesso de estudantes de diferentes bairros. A mudança trouxe estrutura renovada, salas amplas e melhor localização. Para Cimara e Rosimeri, essa transformação é um estímulo a mais para continuar firmes. “Facilitou muito, não tem desculpa para não ir. Mesmo quando chove, nada me impede de aprender”, resume Rosimeri.

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