Nem sempre é o melhor amigo
Após duas semanas do ocorrido, as marcas deixadas pelo cachorro em sua face, no dia 05 de setembro, são lembranças que a família deseja esquecer.
Ressabiado e no colo da mãe, o pequeno João Vittor, de um ano e seis meses, não sabia exatamente o que aquela “titia” estava fazendo em sua casa. No entanto, a desconfiança logo foi embora e o sorriso encantador apareceu em seu rosto, ainda marcado pela mordida que o cachorro da família lhe deu, no dia 05 de setembro.
Após duas semanas do ocorrido, as marcas deixadas pelo cachorro em sua face são lembranças que a família deseja esquecer e, graças ao bom trabalho e dedicação da equipe médica que o atendeu, são pequenas e agora, quase imperceptíveis. O animal, que pertence à família há cerca de dez anos, nunca apresentou nenhum sinal de agressividade e sua reação é ainda uma incógnita para a família.
Sem justificativa, a ação ocorreu em questão de segundos. A mãe estava na cozinha e João Vittor a acompanhava. Ao terminar o serviço, a mãe disse que iria passear com João, que prontamente se levantou e saiu. Foi o tempo de abrir a geladeira para ouvir o grito de seu filho e também do animal. Com o filho no colo, foi pedir ajuda aos vizinhos que os levaram ao Hospital e Maternidade Rio Testo, onde logo foram atendidos. João Vittor foi imediatamente conduzido, para o centro cirúrgico onde o Dr. Marco Aurélio Desessards realizou os procedimentos necessários.
A mãe de João conta que, ao ver o que havia ocorrido, o choque a impediu de ter reação. “Eu estava sozinha com o João em casa e ao ver o que havia acontecido, o peguei no colo e pedi ajuda. Não sabia exatamente como reagir e nem consegui perceber que ele estava engolindo e se afogando com o seu próprio sangue. Eu realmente não sabia como agir”, conta.
A reação de impotência é normal quando há choque, no entanto o rápido encaminhamento de João ao HMRT garantiu que a situação não fosse pior. “Ainda bem que o cachorro mordeu e logo soltou, graças a isso o ferimento não foi pior”, completa.
A mãe ainda relata que foram oito pontos externos e 17 internos. Os internos ainda permanecem e devem cair sozinhos daqui a alguns meses, explica a mãe.
Se com o susto o pequeno João Vittor deveria ter se tornado uma criança triste, desconfiada ou traumatizada, ele vai contra a reação esperada. Seus pequenos passos podem ser ouvidos no pátio da casa ao correr atrás de sua bola. Ele também pode ser ouvido ao chamar a mamãe e se esconder atrás da pequena árvore que possui no jardim. Seus olhos brilhantes, seu sorriso meigo e suas constantes corridas traduzem a superação de João ao ocorrido.
Palavra de especialista
O caso de mordida em crianças não é o primeiro registrado em Pomerode, no entanto a área afetada merece mais cuidado na hora do atendimento e recuperação. Atualmente, Pomerode conta com serviço especializado em cirurgia bucomaxilofacial. O Dr. Marco Aurélio Desessards é o responsável pelo serviço no Hospital e Maternidade Rio do Testo. Em entrevista ao Jornal de Pomerode respondeu alguns questionamentos sobre o tema:
O que devo fazer se algum animal morder ou arranhar meu filho?
O tratamento vai depender da gravidade da ferida e do animal responsável pelo acidente. A primeira coisa a fazer, em qualquer caso, é lavar bem a área e tentar estancar o sangue, fazendo pressão sobre o ferimento com um pano limpo ou gaze. Se, com alguns minutos de pressão, o sangramento não parar, leve a criança ao pronto socorro. Também será necessário levá-la ao hospital se a ferida for no rosto ou no pescoço, ou se parecer profunda, em qualquer parte do corpo, porque pode exigir pontos. No caso de ferimentos leves, simplesmente lave a ferida e só a cubra se ela estiver em uma área propensa a entrar em contato com a sujeira. Procure saber imediatamente qual foi o animal que feriu seu filho. Ele terá que ser observado por um período de dez dias para afastar a possibilidade de raiva.
Meu filho vai ter de tomar vacina antirábica?
Se ele tiver sido mordido ou arranhado por um cachorro ou gato domésticos, vacinados, conhecidos e que possam ser observados por dez dias, o tratamento para prevenir a raiva provavelmente não será necessário. Peça ajuda ao Centro de Zoonose da sua cidade (ligado às prefeituras) se o cachorro for de rua e você souber onde ele está, ou se tiver sido capturado. Os especialistas vão levá-lo e observá-lo. Se o animal tiver sido morto, o CCZ pode fazer exames de laboratório para saber se ele tem a doença. Caso o animal que mordeu a criança seja desconhecido, ou não possa ser observado, a necessidade do tratamento vai depender da gravidade do ferimento e da ocorrência de casos de raiva na região em que você mora. Peça orientações ao seu médico ou leve seu filho ao hospital mais próximo. A raiva é uma doença cada vez menos comum no Brasil (foram 44 casos em 2005, segundo o Ministério da Saúde), mas, como é fatal, todo cuidado é pouco. O tratamento profilático é indicado no caso de o animal estar apresentando sintomas estranhos, quando a mordida for de morcego, ou então no caso de mordida de cão ou gato desconhecidos em região considerada de raiva não controlada. O tratamento para evitar a raiva é gratuito e é feito com uma série de injeções. Em crianças de menos de dois anos, elas podem ser dadas na perna. Mordidas de animais também podem transmitir tétano, mas a vacina contra a doença faz parte do calendário nacional de imunização, dada aos dois, quatro e seis meses, por isso é provável que seu filho já esteja protegido. A vacina antitetânica também tem duas doses de reforço: entre os 15 e 18 meses e entre os quatro e seis anos.
E se a morida ou o arranhão infeccionarem?
A saliva de cães e gatos possui vários tipos de bactérias e vírus, por isso a infecção é possível. No caso de uma ferida maior, é aconselhável consultar o médico para saber se será preciso tomar antibióticos para evitar uma infecção (isso vale também para quando o autor da mordida é um animal da espécie Homo sapiens, ou seja, outra criança). Quando o ferimento é bem superficial e pode ser tratado em casa, é bom ficar de olho nele. Qualquer sinal de infecção merece uma ida ao médico. Os sinais de infecção são: aumento do inchaço, da vermelhidão ou da sensibilidade na área; presença de pus; febre acima de 37,7 graus e linhas vermelhas em torno da ferida ou sensação de quentura.
Meu filho vai ficar traumatizado?
Levar uma mordida é uma experiência assustadora por uma criança, ainda mais porque cachorros e gatos tendem a atacar na região da cabeça. É possível que seu filho comece a ficar nervoso na presença de animais, ou que tenha pesadelos. Se o ataque tiver sido muito violento, seu filho pode precisar de ajuda psicológica para superar o trauma.