Negro com alma germânica
O Dia da Consciência Negra, comemorado no dia 20 de novembro, é marcado pela luta contra o preconceito racial e contra a inferioridade da classe perante a sociedade. Além desses assuntos, enfatiza sobre o respeito enquanto pessoas humanas, além de discutir e trabalhar para conscientizar as pessoas da importância da raça negra
O Dia da Consciência Negra, comemorado no dia 20 de novembro, é marcado pela luta contra o preconceito racial e contra a inferioridade da classe perante a sociedade. Além desses assuntos, enfatiza sobre o respeito enquanto pessoas humanas, além de discutir e trabalhar para conscientizar as pessoas da importância da raça negra e de sua cultura na formação do povo brasileiro e da cultura do nosso país. A data homenageia a morte de Zumbi, líder do Quilombo dos Palmares e que lutou contra a escravidão que tomou conta do Brasil por séculos. Hoje, os descendentes negros ainda enfrentam muitos percalços em sua vida, no que diz respeito à discriminação racial. Em algumas cidades, o dia é considerado feriado, devido à sua importância diante da sociedade atual.
Rudinei Barbosa Silva, que há 41 anos nasceu na cidade de Rio Grande (RS), é negro e, durante a adolescência, sofreu discriminação por namorar uma moça loira. Esse episódio o marcou muito, pois, até então, nunca havia passado por uma situação dessas. Eu tinha 16 anos e morava em Porto Alegre, pois estava jogando nas categorias de base do Internacional. No começo, correu tudo bem, mas quando ela mandou uma foto para seus familiares, eles proibiram o nosso relacionamento. Diante disso, não tivemos alternativa senão terminar, relata.
O gaúcho conta, no entanto, que em Pomerode nunca sofreu nenhum tipo de preconceito, apesar dos alertas de algumas pessoas dizendo que o povo daqui não gosta de pessoas de outras cidades. Ele ressalta que o que aconteceu, na verdade, foi o contrário, uma boa recepção por parte dos pomerodenses. Eu cheguei aqui em 2004, para jogar uma temporada na AE Floresta, gostei da cidade e acabei ficando. Minha esposa Susan veio logo depois, com a nossa filha Thayanne, recém-nascida, e também foi bem recebida, apesar de serem negras como eu. Acredito que isto se deu por nossa vontade de nos adaptar aos costumes da cidade. Se a pessoa se mostrar séria, a cor não importa e muitas portas são abertas, enfatiza, acrescentando que a sua adaptação se deu muito em função do acolhimento de algumas pessoas, que fez questão de citar, como Arlindo e Karin Utpadel, Rubens e Rose Müller, além de Alcides Hackbarth. Eles foram muito importantes nesse processo de adaptação. Sou muito grato a eles pelos conselhos e pela forma como me trataram e continuam tratando, a mim e à minha família. Hoje, consideramo-nos pomerodenses de coração, completa.
Rudinei, que é mais conhecido por Zé Maria, conhece alguns casos isolados de preconceito em nossa cidade, mas atesta que o povo daqui sabe reconhecer aqueles que trabalham e lutam pelo pão de cada dia. Inclusive, relata um caso ocorrido na escola onde a sua filha estuda. A Thayanne tem uma amiguinha que não gostava de pessoas negras. Essa condição era pessoal e seus pais sempre tentavam corrigi-la. Mas a amizade entre as duas se fortaleceu tanto, que esse conceito mudou e hoje ela não tem mais nenhum tipo de preconceito. Ou seja, não importa se você é negro, branco, mulato ou alemão, você é parte da sociedade e deve se portar como um cidadão de bem, diz.
Com relação ao Dia da Consciência Negra, Zé Maria ressalta que é importante lembrar das lutas contra a segregação e a escravidão do Brasil, mas isso não pode se tornar uma desculpa para que os negros obtenham vantagens. Eu sou contra o sistema de cotas, pois todos nós somos iguais perante a sociedade, todos temos condições de estudar. Veja o exemplo de Joaquim Barbosa, presidente do STF (Superior Tribunal Federal), um negro que chegou onde muitos sonham. A discriminação existe não somente contra os negros, contra todas as raças. Se cada cidadão fizer a sua parte, tenho certeza que viveremos em um mundo ainda mais igual, finaliza.
Como surgiu a data – O dia 20 de novembro marca a morte de Zumbi, líder do Quilombo dos Palmares. O quilombo era uma localidade situada na Serra da Barriga, onde escravos se refugiavam. Com o passar dos anos, chegou a atingir uma população de vinte mil habitantes, em razão do aumento das fugas dos escravos. Estes serviam para fazer os trabalhos pesados que o homem branco não realizava, não tinham condições dignas de vida, eram maltratados, apanhavam, ficavam amarrados dia e noite em troncos, eram castigados, ficavam sem água e sem comida. Suas casas eram as senzalas, onde dormiam no chão de terra batida.
Muitas pessoas eram contra essa forma de tratar os negros e várias tentativas aconteceram ao longo da história para defender seus direitos. Em 1871, a Lei do Ventre Livre libertou os filhos de escravos que ainda iriam nascer; em 1885, a Lei dos Sexagenários deu direito à liberdade aos escravos com mais de sessenta anos. E, finalmente, a Princesa Isabel assinou a Lei Áurea, em 13 de maio de 1888, dando-os direito de ir embora das fazendas em que trabalhavam ou de continuar morando com seus patrões, como empregados e não mais como escravos.
Este dia é uma forma de lembrar o sofrimento dos negros ao longo da história, desde a época da colonização do Brasil, tentando garantir seus direitos sociais. Atualmente, temos várias leis que defendem esses direitos, pois acredita-se que, em razão dos negros terem sido marginalizados após o período de escravidão, não conseguiram conquistar os mesmos espaços de trabalho que o homem branco. Na época da escravidão os negros não tinham direito ao estudo ou a aprender outros tipos de trabalho que não fossem os braçais, ficando presos a esse tipo de tarefa. – Fonte: Brasil Escola