Geral

Memórias

E.E.B.M. Prof. Curt Brandes

17 de dezembro de 2010

Memórias são textos escritos por alunos baseados na história de vida de seus entrevistados.
Esses textos abaixo foram produzidos pelas meninas Alessandra, Elena e Beatriz da 6ª Série B juntamente com a professora Giovana Zampieri Borges.
O Texto da Beatriz foi escolhido para ir para Olimpíada da Língua Portuguesa do Governo Federal e os outros dois textos foram para o 7º Varal Literário que acontece todos os anos em Pomerode.


Escola, um trauma para a vida inteira.

Falar da escola? Já me arrepio só de lembrar, pois tínhamos uma vida muito difícil!
Meu nome é Dolores Largura, tenho 59 anos, nasci no dia 22 de junho de 1951. Nasci em casa, na cidade de Presidente Getúlio. Naquela época, eu levantava bem cedinho, colocava minha saia azul-marinho e minha blusa branca com o nome da escola estampado do lado esquerdo do peito. Íamos caminhando para a escola, jogando bolinhas de gude nos trilhos da estrada, até chegarmos lá, eram quatro quilômetros de caminhada. A escola de madeira era verde clara com portas e janelas marrons, a sala de aula era de uma cor beje mais escura, parecido com cascas de sorvete.
Quando meu professor chegava com seu cabelo desarrumado, todos já sabiam que teríamos que ficar quietos, pois meu professor tinha Ataques Epiléticos. Por muito pouco, nos deixava de castigo ajoelhados em cima de grãos de milho, e batia em nossas mãos. Eu não gostava dele! Era apenas um professor para todas as matérias. Naquele tempo, as matérias não eram difíceis como são hoje, a matemática, por exemplo, não tinha cálculos com letras, frações ou equações.
Eram quatro turmas em uma sala; primeira, segunda, terceira e quarta série. Minha mochila era um saco de arroz com duas alças, dentro dela levava meus cadernos, encapados com folha de ofício branca e uma etiqueta contendo nome, série e a matéria, levava também, meu penal, amarelinho com flores verdes, e meu lanche, normalmente, pão de milho com ovo frito. Tentava trocar pão de milho com pão de trigo, pois raramente tínhamos acesso a esse lanche, apenas em datas festivas. Parei de estudar depois da quarta série. Só entrei novamente em uma sala de aula depois de casada, por necessidade financeira. E mesmo depois de tudo ter mudado, e tanto tempo passado, a sensação era a mesma, de angústia, medo e até pânico. Mas com muita força de vontade, atingi meu objetivo, tornar-me auxiliar em enfermagem.
Meu nome é Alessandra Steffens da Costa, estudo na 6ª Série e escrevi esta memória baseada na infância de minha querida amiga Dolores.
Professora: Giovana Zampieri Borges
Escola de E.B.M. Professor Curt Brandes


Superando as Difículdades

No descuido dos meus pais, em que meu pai é meu próprio tio e minha mãe minha própria tia, em 1943 eu nasci.
Quando pequeno sempre fui uma criança doente, sempre estava em hospitais e benzedeiras. Fui para Escola e Estudei dois anos, depois tive que sair, não era o que eu queria, mas tinha que ajudar meus pais na lavoura, pois nós éramos uma família muito humilde e modesta com muitas dificuldades financeiras. Hoje sou uma pessoa analfabeta infelizmente, mas não pense que sou burro, eu sou bem inteligente!
O tempo foi passando e aos meus 14 anos comecei a notar que um órgão genital feminino, os seios, começaram a nascer em mim, entrei em desespero, na escola todos os meninos riam de mim e me chamavam de Afonsa, não queria acreditar.
Aos meus 14 anos tinha que aceitar que era hermafrodita e que um futuro cheio de infelicidades começou a nascer e que a dor que eu estava sentindo naquele momento era só um pouco da minha tristeza e das lágrimas que só estavam começando a sair dos meus olhos. Aos meus 14 anos aceitar que nunca mais seria feliz era uma tarefa difícil, que nunca teria filhos e uma mulher como todos os meus amigos iriam ter e que nunca mais teria uma família de verdade, eu tive que aceitar.
Aos meus 27, anos meus pais faleceram fiquei sem rumo, sozinho, a vida não tinha mais nenhum sentido para mim. Então, comecei a beber e virei alcoólatra, e aos 41 anos fui para o centro de recuperação, mas não teve jeito, não consegui parar.
Para não ficar mais na rua tive que sair da minha cidade natal Pomerode, para o asilo em Trombuto Central, foi terrível ter que sair de Pomerode, pois morei lá a minha vida toda.
Sete anos depois, quando abriu o asilo em Pomerode o Pommerhein, fui transferido para cá. E é aqui que estou morando até hoje.
Um asilo não é a mesma coisa que a nossa própria casa, as pessoas que moram aqui não são a sua família.
Hoje, eu não digo que fui uma pessoa feliz, mas eu fiz o que Deus queria que eu fizesse.
Meu nome é Beatriz Beck sou aluna da 6ª Série e fiz essa memória baseada na história de vida do meu querido amigo Afonso.
Professora: Giovana Zampieri Borges
Escola de E.B.M. Professor Curt Brandes


Memórias da Minha Vida

Chamo-me Anita, tenho 90 anos.
O meu amor pelos livros e pelos estudos foi marcante na minha vida. Talvez tenha sido herança do meu pai, professor Hermann Guenther. À noite, ele gostava de ler os seus livros ou o jornal.
O baixo salário que meu pai recebia pelos trabalhos prestados na escola acabou desanimando ele, pois era difícil sustentar tantos filhos. O dinheiro era insuficiente, por isso geralmente os pais dos alunos ajudavam trazendo o que produziam na roça, como: milho, aipim e ovos. Dava para se sustentar, mas era difícil.
O meu pai comprou um terreno do outro lado do rio e logo parou de dar aula. Ele tinha que atravessar o rio e quando subia o nível da água ele atravessava de cavalo. Mais tarde ele começou a trabalhar na firma Weege. Meu pai sempre trabalhou para sustentar toda família.
Com seis anos aprendi a ordenhar vacas, era difícil. O que a gente conseguia fazer já ajudava, como varrer a casa e lavar a louça.
De manhã a rotina era a mesma da maioria dos colegas. Levantar cedo, antes de o Sol nascer, ordenhar as vacas e tratar os animais. O serviço mais pesado meus irmãos faziam.
Uma vez aconteceu uma coisa engraçada. Um tempo ficava em casa, eu, um dos meus irmãos, que já faleceu e a irmã Lilly. O meu irmão ficou em casa para cuidar da Lilly, que era bem pequena. Eu sempre gostava muito de animais e sempre brincava com eles. Neste dia um bezerro chupou a minha mão até tirar toda pele dela, porque eles têm a língua áspera. Ele chupou até meu irmão chegar, daí já estava tudo sem pele, isso doeu muito.
As brincadeiras, quando reunia os amigos, era subir nas árvores e comer os seus frutos; tangerina, laranja, carambola… Tudo isso nós tínhamos, era só subir e pegar.
Aos sete anos, fui para a escola Comunidade Pomerode, aprendi a ler e escrever, foi um tempo muito feliz.
Aos quinze anos, o pastor Kurt Frige e sua esposa Annelise, recém chegados da Alemanha, me convidaram e mais quatro alunos para continuar os estudos por mais um ano, já que obtive boas notas. As aulas eram em alemão. Mais tarde eu tinha duas horas de língua, estrangeira, então aprendi um pouco de português. As aulas renderam bastante, já que a turma era menor e a atenção era redobrada. Eu queria ser professora, mas a falta de condições financeiras me obrigou a voltar para o trabalho na roça.
Eu me tornei ?irmã? porque foi uma maneira para eu poder estudar. Aos vinte e dois anos fui a Blumenau trabalhar no hospital Santa Catarina. Não era aquilo que os meus pais queriam, mas me deixaram á vontade. Comecei a fazer o curso de trabalhos manuais e o básico da enfermagem. Após um ano fui encaminhada para trabalhar num município vizinho. Eu nunca reclamei do meu campo de trabalho, simplesmente obedecia as ordens considerando as minhas obrigações como uma vontade de Deus.
Eu nunca sofri com a falta dos meus pais, irmãos e animais de estimação. Tínhamos tanto a fazer e estudar que não sobrava tempo para pensar. Foi necessário entrar num curso de português, devido a minha dificuldade.
Em 1951 fui enviada para Hamburgo Velho para substituir uma irmã que estava na Alemanha. Em 1967 retornei para Pomerode. Na época o hospital era pequeno. No dia que retornei fiz um teste, chamado HRMT, e fui à primeira pomerodense a se formar diaconisa.

Autora: Elena Bortoncello – 6ª Série B
Professora: Giovana Zampieri Borges
Escola de E.B.M. Professor Curt Brandes
Equipe de Jornalistas Mirins ? Tenha um bom natal e um próspero ano novo.

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